segunda-feira, 9 de junho de 2014

Revendo a campanha para as europeias


As eleições ganham-se ao centro. A asserção passou e passa, não raramente, por verdade absoluta e indisputada em alguns fora. Todavia, como mostra, por exemplo, Freitas do Amaral em Uma introdução à política, uma outra tese, de um autor inglês, tende a congregar, também, a atenção e o apoio de políticos e estrategas. Segundo esta, as eleições ganham-se ou perdem-se consoante consigamos, ou não, mobilizar o eleitorado próprio. Como os dois partidos centrais, num esquema clássico, de um sistema político tendem a agregar cerca de 80% do eleitorado (cada um dos partidos, 40%), vencem-se eleições quando governando eu bem consigo mobilizar a (quase) totalidade do eleitorado e, ainda, desmotivo/desmobilizo o eleitorado alheio.
Consoante se adira a uma ou outra – das duas indicadas – tese, assim o tipo de discurso, evidentemente, variará: voltado para o exterior, não afunilado, nem com uma extremada demarcação político-ideológica no primeiro caso; precisamente o inverso, no segundo.
Quando notamos neste blog que os discursos dos dois principais partidos, para as europeias, estavam muito centrados numa narrativa a que só os já convencidos adeririam, não deixámos de entrever a estratégia seguida: fidelizar e levar às urnas o eleitorado próprio. Agora, nas excelentes reportagens publicadas pelo Observador sobre os bastidores da mais recente campanha eleitoral – longe de serem, como em outros casos sucedeu, mera acumulação de fait-divers, os textos em questão são bem reveladores -, e em particular no texto de Miguel Pinheiro, surge explicitada a táctica (lógica): com uma previsão de uma abstenção gigantesca – maior, mesmo, do que a efectivamente verificada – a Aliança Portugal aposta tudo em levar às urnas os seus eleitores próprios (mesmo que à custa de não entrarem em nenhum eleitorado outro; daí o enfoque repetido ad nauseam em Sócrates). A este respeito, Gonçalo Bordalo Pinheiro, que acompanhou a caravana socialista, não nos dá indicações tão precisas, mas os discursos de há algumas semanas são igualmente claros quanto a uma aposta que passava por idênticos objectivos. A conclusão que se retira é que a estratégia da Aliança Portugal e do PS falhou, porque, se seguirmos à letra as indicações da teoria acima apontada, a governação não foi boa (nem a governação a sindicar pelos fiéis da Aliança, quer aquela que os seguidores do PS haviam de ratificar).
Mais importante e mais perigoso: a AliançaPortugal testa o discurso junto de um focus groups – o modo como a política hoje é feita, como se sabe – e o feedback que recebe é que a retórica é demasiado elaborada. Rangel passa, então, a dizer que Assis não gosta de números e que tem um estilo gongórico: ‘concretize, concretize’. Quem manipula quem? O político, o focus group? Não tem opinião e é um servidor de sondagens, o político? O artificialismo é grande. Mas o importante, aqui, é perceber as causas do que foi o debate nas últimas europeias: a) o discurso foi muito centrado no que apenas os apaniguados de cada partido queriam ouvir, porque os partidos, olhando para a abstenção, quiseram empurrar ao máximo os fiéis para as urnas; b) não se falou de debates constitucionais, união de transferências, união bancária, pacto orçamental, harmonização fiscal, porque, supostamente, o suposto povo não quereria tanta elaboração. Ficámos com os vírus, os pratos de bacalhau preferidos de Portas e, claro, o Sócrates.
No meio de tudo isto, há momentos em que a expressão mais idiossincrática das personalidades não se deixa aprisionar. Após uma noite de comício intenso, Paulo Rangel regressa ao carro (de campanha) para, ao longo de centenas de quilómetros, falar de S.Paulo, Idade Média e E. Burke – prazeres e registo, o intelectual, que constituirão, por certo, o melhor Rangel. O que faz correr, vã glória, estes homens inteligentes e cultos para um palco onde soltam frases tonitruantes e vazias, em que nem os próprios, certamente, se revêm?
Na campanha socialista, é bom constatar como Assis revela uma grande dignidade ao recusar utilizar os idosos de lares e centros de dia para campanha, saindo, realmente, exemplo-escola, do quadro mental dos homens formados nas jotas. O mesmo se diga quanto à utilização das selfies para os outdoors de campanha, uma afronta, uma indignidade acusa o candidato, face ao momento sério, muito sério, que o país atravessa. Se tudo parece eivado de um profissionalismo milimétrico quando se utilizam os focus group, a disputa entre Lisboa e a campanha, no campo socialista, quanto aos cartazes a utilizar desmente qualquer ideia de máquinas de campanha quase sem falhas. Num dos momentos mais reveladores da peça de Gonçalo Bordalo Pinheiro, vemos Assis incrédulo quanto ao destino da selfie [os parceiros de viagem dizem-lhe que com certeza não irá para os outdoors; Assis é acertadamente céptico]: “vindo dali não me admira nada. Vindo dali…”. A forma mental a que se referiu no debate interno com Seguro, há três anos, quando disputou eleições no PS, não obstante todas as recentes declarações de apoio, regressava, com uma convicção sem polimentos, em todo o esplendor (o “Dali” era quem decidia o que fazer á foto e aos cartazes; e quem decidia era a direcção e , em particular, o secretário-geral do PS). A meu ver, o retrato, com todos os defeitos do candidato que possam emergir, da reportagem do Observador com a campanha socialista é bastante favorável a Assis que sem preocupações exacerbadas de imagem, sem um artificialismo descabelado ou provocações sem sentido em debates, respeitando as pessoas que estão em lares e não se revendo em modismos pueris de fotos que podem traduzir uma imagem errada a dar ao país, se afirma como alguém com um espaço próprio na política portuguesa.



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