domingo, 8 de junho de 2014

SOARES




Se, nos últimos anos, Mário Soares radicalizou o discurso, a polarização em torno dele – do discurso e de seu sujeito enunciador – não foi menor. Face a frases violentas, reacções virulentas. A procura da desqualificação do agente político encontrou bom solo na desvalorização hodierna de tudo quanto não é jovem, ‘produtivo’ e ‘empreendedor’. Soares perdera a lucidez, repetia-se. Ora, dificilmente a hora política actual poderia desmentir, com maior clareza, o enunciado. Depois de, entre tantos prestidigitadores, Soares ter logrado ser dos poucos a acertar na vitória “por pouco” do PS, nas Europeias, na manhã em que o DN publicava a sua interpretação da eleição ocorrida 48h antes, como uma socialista “vitória de Pirro”, seguiu-se o mais importante. Um texto enviado ao Público arremetia contra um António José Seguro incapaz de tratar os correligionários como “camaradas” e jamais ser o líder do “punho cerrado” que Costa virá a ser. A narrativa estava criada para as eleições em disputa no PS: Seguro encostado à direita e Costa como o homem de esquerda (quem queria divisões substantivas entre os dois candidatos, passava, a crer em Soares, a tê-las). Na entrevista a Ana Sá Lopes, no I de sexta-feira, a tese continuava a ser explanada: Seguro “nunca esteve ao lado do povo”, nem “da esquerda”. Ao fim da tarde desse dia, António Costa apresentava as suas linhas programáticas em discurso que cavalgou a tese de Soares: “se pensarmos como a direita, acabaremos a governar como a direita”, em novo remoque estratégico a Seguro e em claro posicionamento (do próprio) a nível interno. Mas talvez a maior homenagem a Soares, veio do efeito espelhar que teve em António José Seguro: o homem que não tinha uma palavra a dizer sobre o manifesto dos 70, documento que se lhe apresentava como uma enorme dor de cabeça, afirma agora que vai avançar, unilateralmente, para a renegociação da dívida portuguesa; um partido que se abstivera na maior mudança, nesta legislatura, no código de trabalho e que fora buscar para a primeira linha do combate político um dos outorgantes de tal acordo – João Proença, pela UGT – vai agora, segundo Álvaro Beleza, fazer tudo para a existência de uma coligação à esquerda (mesmo que a posição do PS seja, como é, estruturalmente diversa da do PCP em matéria europeia…que é a do futuro do país); as eleições e a intervenção do PR são reclamadas, pelo ainda líder socialista, a cada instante. Seguro, que mudou 180 graus do dia para a noite, parece, deste modo querer dar razão às críticas de Soares.
Depois da tirada sobre o “egocentrismo”, João Soares prosseguiu no tom infeliz pedindo respeito pelo pai, “que tem 90 anos”. Mas ainda vai a tempo de aprender com ele o que é a intuição política (nem sempre uma especial coerência, longe, longe, não raro, de uma grande densidade programática, com elogios a quem não os merece, com uma radicalização que tem o efeito contrário ao desejado, com uma certa soberba, mas com indiscutível intuição política, marcando, aos 90 anos, a pauta de leitura do que está em jogo na eleição socialista).


Sem comentários:

Enviar um comentário