domingo, 22 de junho de 2014

Sobre a 'mão invisível'


Contudo essa ideia [mão invisível, teorizada por Adam Smith] foi, na verdade, antecipada há 300 anos, pelo médico e pensador holandês Bernard de Mandeville. Antes de Smith, foi ele quem provocou escândalo geral com o seu poema filosófico The fable of the bees or, private vices, publick benefits (1714). Trata-se de uma sátira social que aprofunda outros escritos em língua inglesa do autor que, entretanto, se radicara na pátria da futura Revolução Industrial. Na sua fábula, Mandeville representa a sociedade civil na figura de uma industriosa colmeia, devorada por vícios e paixões egoístas, mas também por intensa actividade criadora. A reforma moral dos comportamentos, a substituição do vício pela mais estrita das virtudes, acaba por conduzir a colmeia ao colapso e à mais completa decadência. O diagnóstico contido na conclusão da narrativa de Mandeville é inequívoco: o egoísmo, a própria corrupção dos princípios morais, desde que moderados e contidos nas fronteiras de uma legalidade adequada, nunca explicitada, revelam-se benéficos, não só para os indivíduos mas para a própria colectividade. Nessa direcção apontam os versos finais: «Embora todas as partes estivessem cheias de vício/ Contudo o todo era um paraíso/ (…) O pior de toda a multidão/ Fazia algo pelo bem comum/ (…) A fraude, luxúria e orgulho têm de viver,/ Enquanto nós os seus benefícios recebermos/ (…) Assim o vício é julgado benéfico/ Quase é limado e limitado pela justiça».

(…)

Haverá sempre quem pergunte se fará sentido, nos planos moral e político, incluir na riqueza nacional uma esfera da economia que não paga impostos (contrabando), prolonga a escravatura de seres humanos (prostituição) ou transforma pessoas em lamentáveis farrapos (droga). Quem faz essa pergunta ainda não percebeu que na competitiva Europa neoliberal que estamos a construir, depois da destruição do Estado Social, o próximo alvo a abater será a ética pública. O que é a moral senão um conjunto de tolas convicções, insensíveis à esfera das transacções, impedindo o funcionamento óptimo dos mercados?


Viriato Soromenho-Marques, A nova ‘fábula das abelhas’, Visão, nº1111, 19 a 25 de Junho de 2014, p.28.



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