terça-feira, 10 de junho de 2014

Uma conversa sobre a Europa




Marcello Duarte Mathias: A política é a grande vencedora das eleições [europeias]. O mal da União Europeia, desde que nasceu, um dos grandes defeitos da filosofia de Jean Monnet, foi ter entregue a construção comunitária a peritos. Os peritos nunca foram governo desde que a Humanidade é Humanidade. Há demagogos, há profetas, há loucos, há sacerdotes. Hoje somos governados por peritos. O resultado está à vista.
A tecnocracia, que é uma forma de traduzir em equações matemáticas [a realidade] e esquecer o dado fundamental, que é a dimensão humana, em qualquer situação, tem sido o mal da EU.
Há um outro problema: a UE construiu-se no corroer das atribuições do Estado-nação. Não se pode construir um edifício com as características da UE com base no Estado-nação. A ironia de tudo isto é que, passados 50 anos sobre este edifício, que é muitíssimo mais vulnerável do que se julga, volta o Estado-nação, a legitimidade nacional do Estado-nação – que é, a meu ver, insuperável. O Tony Judt fez um livro sobre a Europa no qual diz isto mesmo: o quadro é o do Estado-nação onde as pessoas se sentem em casa.

A França perdeu a Europa (…) A França era a Europa, a Europa era a França. Deixou de ser (…) Schroeder dizia que a França viaja em primeira classe com bilhete de segunda. A inversão [de estatuto entre França e Alemanha] começou com o Tratado de Nice.

A Europa, a entidade Europa, perdeu peso nestas eleições. Não sei quem será o futuro presidente da Comissão, qual será o papel do parlamento…Lemos o livro do Vasco Graça Moura (“A identidade europeia”) que diz horrores do parlamento. A irrelevância, a inoperância do parlamento…Tem-se a impressão de que isto chegou ao fim.
E qual é a saída? Isto vai acabar como? Como o império austro-húngaro, de forma súbita, ou vai acabar como a União Soviética, desagregando-se? O Francisco [Seixas da Costa] tem razão, é preciso refundar. Mas quem é que tem coragem para o fazer? Quem são as pessoas? Voltamos ao mesmo: é a França e a Alemanha?
Devo dizer que sempre me deixou perplexo o desejo de estar no pelotão da frente. Em Schengen, no Euro. Não sei se esta filosofia está certa. Hoje, o sentimento – que nem é de desencanto; é de cólera – em relação à UE resulta disto tudo, de um excesso de voluntarismo e de uma coisa que é, infelizmente, característica desta classe política: um novo-riquismo europeísta.

A mensagem na Dinamarca, Inglaterra, França, Holanda, dos flamengos da Bélgica é de um voto declaradamente anti-europeu. “Nós não queremos esta Europa”.

Em 1500, Afonso de Albuquerque dizia aos seus homens para contrair matrimónio com os indígenas. O império britânico faz o contrário séculos depois. O senhor [Nigel] Farage, a senhora Le Pen são também o resultado desta mentalidade. A impressão que têm é que a sua identidade está ameaçada. Nós não temos isso e não percebemos o que nesses países é uma verdadeira angústia.


Francisco Seixas da Costa: Os líderes são sempre a emanação do estado das coisas. Hollande é uma emanação da França actual, da importância que a França tem no quadro europeu. Tenho esperança que a França vá readquirir uma certa dinâmica, mas de momento a situação é dramática (…) Tem uma ambição que não está ao nível das suas capacidades de hoje (…) Estive em Nice. Para muitos franceses, foi uma humilhação (…) Vivemos no desaparecimento da segurança do amanhã. A sociedade previsível, antiga, desapareceu. Em França, isso está a ter um efeito dramático.

O Marcello [Duarte Mathias] apontou a proposta de Sarkozy. É um modelo quase obsceno (…) Sarkozy propõe um regresso puro, simples, afirmado ao Directório. A meu ver, é altamente preocupante. Independentemente de poder significar um certo respeito pelos Estados-nação é o fim do projecto europeu.

Nós, portugueses, na orfandade em que ficámos depois da perda do império colonial encontrámos na Europa uma resposta para a democracia e desenvolvimento. Não fomos à procura do Tratado de Roma. Isto é, a Europa da segurança, contra o medo. A nossa Europa era um choque de modernidade, de abertura de fronteiras, uma certa prosperidade, no bolso e na paisagem.

A Europa era um clube de ricos com meia dúzia de pobres. Agora a Europa é um clube com muitos pobres e poucos ricos e em que os ricos deixaram de ser solidários. Esta Europa abandonou o discurso ‘caritativo’ que fazia parte do seu DNA e passa a reagir em função de interesses imediatos.

Nunca fomos europeístas convictos na lógica do Monnet e do Schuman. E não tínhamos medo de Estaline. Vivíamos num mundo diferente.

Pergunto-me se não deverá haver um europeísmo possibilista. Temos de reflectir sobre aquilo em que podemos estar de acordo e ter uma discussão sobre se a Europa não terá de caminhar por formas de agregação de países que não incluam todos.


No Weekend, do Jornal de Negócios, moderação de Anabela Mota Ribeiro, 30/05/14, pp.04-09.




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