José TOLENTINO MENDONÇA, O Elogio da
Frugalidade, Expresso. Revista, 28. 06. 2014, 6.
O que é então a frugalidade?
É a escolha do pouco, de viver com pouco, procurando encontrar aí o máximo
sentido. A abundância é um estado
fusional, indiferenciado, sem diques, onde tudo se mistura: o ajustado e o
supérfluo; o eleito e o repetido; o original e o banal
TALVEZ SEJA IMPORTANTE
começar por declarar o que a frugalidade não é. E a primeira das distinções
necessárias é esta: a frugalidade não se confunde com a pobreza. Sobre a
pobreza podemos elaborar uma série de explicações (sociais, financeiras,
pessoais), mas uma evidência acaba sempre por emergir: ela não corresponde a
uma escolha livre, ao contrário da frugalidade. Outra comparação a evitar é
entre frugalidade e avareza. Se somos empurrados para a pobreza por fatores
externos, à avareza chegamos condicionados por feridas e obsessões internas. E
a avareza, como se sabe, é uma espécie de contrapaixão, solitária, triste e
final como podem ser as derrapagens íntimas que sofremos. A frugalidade não é
sequer uma decisão ou uma prática de poupança. As razões para poupar estão
dramaticamente colocadas na ordem do dia. O futuro deixou de estar garantido e
tem de ser o presente a precavê-lo. A poupança é reforçada, por isso, em nome
de uma finalidade que está além dela. Os gastos são contidos, o frenesim
aquisitivo é travado não por vontade própria, mas para enfrentar melhor a
incerteza dos tempos. Ora, da frugalidade podemos chegar a concluir que ela
produz também poupança. Esse, porém, é um seu efeito colateral.
O
que é então a frugalidade? É
a escolha do pouco, de viver com pouco, procurando encontrar aí o máximo sentido.
A abundância é um estado fusional, indiferenciado, sem
diques, onde tudo se mistura: o ajustado e o supérfluo; o eleito e o repetido;
o original e o banal; a possibilidade de consumo e a promessa de felicidade. A
frugalidade desprende-se, distancia-se, ganha consciência crítica, interroga, e
não abdica jamais da sua liberdade. A frugalidade é um estilo. Há uma frase de
Henry David Thoreau que a ilumina especialmente: “A riqueza de um homem é
proporcional não ao número de bens que ele pode possuir, mas ao número de
coisas a que ele pode renunciar.”
Há também um dito delicioso
de Jesus, no Evangelho de Lucas, que primeiro parece um enigma, e depois
percebemos que é um mapa. Jesus diz a Marta, a sua anfitriã atarefada: “Marta,
Marta, andas ocupada com muitas coisas. Uma única, contudo, é a coisa
necessária.” O dito é um enigma, porque Jesus sabiamente não revela que coisa
necessária é essa. E torna-se um mapa, quando compreendemos que só na aplicação
do enigma à experiência, e ao risco da experiência, ele se esclarece.
Podemos estar a viajar vida
fora com uma mala pequena ou uma mala grande. Ao contrário do que pensamos, não
conta o tamanho das malas. Se elas estão cheias, porque são realmente pequenas
ou porque nós a tornamos assim, teremos de retirar alguma coisa se quisermos
colocar outra nova no seu lugar. E
acontece passarmos a vida nisso: acumular, esvaziar, acumular. A
frugalidade não depende do tamanho da mala. O viajante frugal é aquele que tomou a decisão prévia de não encher
totalmente a sua bagagem, conservando nela um espaço vazio.
Num livro oportuno, o
italiano Luigi Zoja aponta-nos a necessidade de regressarmos às utopias minimalistas. A utopia
no século XX era maximalista e pretendia um homem novo sem ter em conta a sua realidade,
partindo de modelos completamente abstratos. O que Zoja contrapõe é o
favorecimento da novidade interior, despertando cada um para um percurso de
sabedoria. E escreve: “Naturalmente, a
sinceridade, a serenidade, a superação da angústia, a ternura, o amor por si e
pelos outros, o fazer bem as coisas do quotidiano não acrescentam nada ao PIB
de uma nação. E precisamente
a precedência exclusiva dada ao PIB é uma das causas que provocou este
amalgamar de todos os programas políticos, tornando-os sempre menos
reconhecíveis e mais estranhos às nossas necessidades elementares.”
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