sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Da tragédia


Acreditem na sincera benevolência do leitor para com o autor, sabendo-o de uma mundividência diversa da sua. E, sem embargo, há pontos sem pontes, há núcleos de convicções e pensamento inegociáveis, há um  inequívoco até aí já não vou. Há dimensões sem compatibilização possível:

"Para apontar um exemplo extremo, mas evidente, a última guerra mundial fez cinquenta e três milhões de mortos. Pensas seriamente que não haveria, entre toda esta gente, senão culpados, responsáveis, bons e maus? A verdade, bem entendido, é que a desgraça se abate, como no mito de Édipo, sem que possamos fazer o que quer que seja, e abate-se com toda a força, incluindo o domínio social e político, que poderíamos no entanto imaginar que seria possível dominar melhor do que o da natureza" (Luc Ferry, A sabedoria dos mitos, p.353).

Percebo o que Ferry diz sobre as desgraças e catástrofes naturais - só o fundamentalismo os atribui ao pecado humano (afora as teorias ambientalistas que também estabelecem algum nexo de causalidade entre comportamento humano e as ditas catástrofes). Até aí, muito bem. Mas se a ideia é, a propósito de uma Guerra - como, aliás, a que a precedeu - em relação à qual a historiografia mostrou e mostra, vezes sem fim, como poderia não ter existido ou tomar um rumo diferente, com humanas decisões diversas, 'provar' como tudo é absurdo, inevitável, um fado que se abate sobre nós (colectivo) "sem que possamos fazer o que quer que seja", de facto a concepção de determinismo histórico, liberdade humana, etc. que assim se manifesta diverge, radicalmente, da que professamos e preferimos.
Houve pessoas que foram arrastadas, pouco podendo fazer para, sozinhas, travarem a guerra em marcha e para elas tudo desabou? A formulação, assim, é outra. Se, em realidade, o que Édipo e Antígona mostram é como o humano se pode rebelar contra a ordem, sendo, pois, subversivo - como anota Ferry -, então, precisamente, as rédeas da história também lhe pertencem (não são puramente exógenas).
Ferry pretende, a partir da mitologia grega, estabelecer uma espiritualidade laica, passando uma sabedoria presente nessa mitologia - sobre a sabedoria a extrair dos mitos é que não há pouca divergência, naturalmente - desde logo às crianças. Falta decidir, desde logo, pois, e partindo do exemplo vindo de comentar, o que se lhes quer ensinar sobre a liberdade.

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