terça-feira, 19 de agosto de 2014

Dos mitos


A Sabedoria dos Mitos

Luc Ferry, o conhecido filósofo francês, ex-ministro da Educação naquele país, ateu, considera a filosofia "uma doutrina da salvação sem Deus, uma resposta à questão da vida boa que não passa por um 'ser supremo' ". E entende, mais, a mitologia como a pré-história da filosofia; isto é, a literatura e relato míticos (como que matérias primas) para serem conceptualizados depois (pela abordagem filosófica). 
O pensador francês considera essencial contar a mitologia (nomeadamente, grega) às crianças: "assim que comecei a contar aos meus filhos, desde que tinham cinco anos, as grandes narrativas míticas, vi os seus olhos iluminarem-se como nunca.As perguntas saltaram de todo o lado e sobre mil e um aspectos das aventuras que contava. Nunca vira uma tal paixão, nem com a literatura juvenil, nem mesmo com os contos clássicos, no entanto magníficos, dos Grimm, de Andersen ou de Perrault - já para não falar das séries de televisão, que os divertiam, sem dúvida, mas que não os apaixonavam da mesma maneira".
Estas histórias inscreveram-se neles para sempre, regista, e, sobretudo, pensa, quem tem uma vida interior mais rica, de valores culturais, espirituais, morais fica mais livre para resistir e menos interessado em participar do consumismo feroz dos nossos dias - tantas vezes para preencher esse vazio de valores de vária ordem -, mas que nada nos diz do horizonte da vida humana, que nunca deve ser o alfa e o ómega para cada um. Para lá de responder a esta nota muito audível do nosso quotidiano - a do consumismo -, o recuperar da mitologia seria, igualmente, passo na luta contra o desencantamento do mundo. Ou reconhecimento de balizas culturais, bordões de linguagem em que assentamos sem percepcionar a génese.
O que de mais importante haverá a sublinhar, nas palavras que associa à tarefa de retomar esta síntese cultural, situa-se, creio, no estatuto (epistemológico) que o autor confere à mitologia: "a mitologia não é a infância da humanidade: ela não tem nada que invejar, quanto a profundidade e inteligência, à ciência moderna, de que não é, nem de perto nem de longe, a antecipação mesmo aproximativa" (p.35).
O homem que, como já se disse, foi político com importantes responsabilidades em terras gaulesas, deixa, ainda, a propósito do que Jacqueline de Romilly e Jean-Pierre Vernant disseram, ao então ministro da Educação, acerca do abandono das humanidades, esta confissão de impotência (da política/do poder): "Mas sobre este ponto, tal como sobre outros, creio que somos por vezes mais úteis pelos livros do que pela acção política: esta última colide demasiado com constrangimentos inultrapassáveis, obstáculos e entraves de origens tão diversas que os seus efeitos são sempre aleatórios" (p.41)


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