domingo, 31 de agosto de 2014

Histórias antigas




A tarde convidava ao letargo, casa apalaçada, herança deixada para quem de ora em diante não mais terá legados, foi um tempo, chão que deu uvas. O sofá, de género antigo, não completamente cuidado, obrigava ao recostar, como se houvesse tempo, como se haver tempo não fosse coisa do passado, como se fosse obrigatório, e fizesse parte dos usos e costumes, ouvir e contar histórias, sem perda de detalhe ou explicação. A que então ouvi, verdadeira de menino-futuro professor forjado nas dificuldades, fazia com que recuássemos a meio do século XX português. Falávamos, naquele instante, de como os hábitos estão informais, os alunos avançam, agora, para decisivos exames de calção, t-shirt e ténis, imagem que parece contrariar o solene, a gravitas, como o meu interlocutor que tão bem domina o latim sabia melhor do que eu, do momento. Na minha altura, conta-me o ancião duriense, o exame da quarta classe era cedo e não havia segunda época. Ou se passava, ou não se passava. Ponto. Não havia transportes para a sede do concelho que, como sabe, diz-me em tom intimista, ainda fica a quilómetros daqui. Carros quase nem vê-los. De modo que partíamos, os que daqui íamos ao exame, muito cedinho, três/quatro da manhã, íamos de burro, vestidos como normalmente andávamos pela aldeia e só quando chegávamos às portas da sede do concelho, umas horas depois, despíamos a roupa que trazíamos e, então, vestíamos o fato para o exame. Era assim, era assim…pronuncia, calcando as sílabas, como que procurando carregar nas jornadas duras passadas.


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