domingo, 31 de agosto de 2014

Pequenos luxos




Foi sobre a imagem acima reproduzida que cumpri, com os auxiliares retoques do Xavier, mais dado ao desenho do que eu, a meta, na disciplina de Educação Visual e Tecnológica, aí pelo 8/9º anos, do Projecto Área Escola dessa data que incidia na realização de pequenas biografias de personalidades relevantes da nossa história que tivessem a ver com cada cadeira (recordo-me que em Matemática me debrucei sobre Pedro Nunes) e que, desta sorte, em EVT me obrigou a todo o género de desenho e pintura, gerando uma verdadeira colecção a partir da dita referência iconográfica. À época, não fui esclarecido de que se tratava de um retrato executado por Fernão Gomes, provavelmente ainda em vida do poeta, mas cujo original se extraviou, chegando, apenas, até nós, uma cópia do século XIX.
Ora, procurar fazer uma história dos retratos de Camões, especular quanto poderiam estar próximos de nos darem uma imagem real do retratado, recuperar teses sobre cada um dos retratos do autor de Os Lusíadas, imaginar a história por detrás de cada quadro, tentar compreender como o físico - em particular a visão afectada - implicou com a psicologia do sujeito, aproximando-nos dos seus versos (que sobre este tópico se atiram), convocar a mais interessante iconografia existente sobre o autor, eis um conjunto de motivações que podemos encontrar adstritas àquele que termina sendo o último projecto literário de Vasco Graça Moura - e que Manuel S. Fonseca concretiza na prometida "edição cuidada", que "exigia acompanhamento iconográfico", "livro de pequeno formato, capa dura e com as reproduções as cores das imagens clássicas e contemporâneas que Vasco Graça Moura interpela". Júlio Pomar, João Cutileiro, José Aurélio, José de Guimarães cederam as imagens - que Graça Moura convocara à análise e discussão - e autorizaram a sua reprodução. Um "pequenino livrinho de 14 x 20,5, encadernado", da Guerra e Paz é, assim, um pequeno luxo.


Se a "vera effigies de Camões permanece um enigma. Só por representações aproximativas e conjecturas poderemos fazê-la corresponder, em termos de semelhança física plausível, a uma fisionomia cujos elementos principais se foram sedimentando na tradição iconográfica e na memória colectiva e visual ao longo dos séculos, a partir desse protótipo relativamente tardio em relação ao período em que o poeta viveu. Dele derivam elementos que se incorporaram a tal ponto nos nossos hábitos de identificação fisionómica, que bastam dois ou três sinais para que o identifiquemos" (p.18), temos, contudo, "pelo menos em três lugares da sua obra lírica"(p.25) a referência, pelo poeta, "ao seu aspecto físico, sendo duas delas à perda de um olho". "Podemos assim concluir, com alguma segurança, que a perda do olho direito marcou psicologicamente o nosso poeta. Isto é, o mesmo sinal fisionómico que depois caracterizou toda a sua iconografia começa por ter uma certa relevância na própria obra do autor" (p.26).

Se aqui se fez referência ao retrato de Camões realizado por Fernão Gomes, outros há que merecem destaque, de que se oferece um último exemplo:


"O retrato (...) tem a importância de ser talvez o primeiro retrato «robot» da cultura portuguesa e de ter sido feito a partir de sinais dados por marujos (identificados em três cantos do quadrinho), que tinham conhecido pessoalmente Camões aquando da sua permanência na Índia, tendo todos confirmado a semelhança da imagem com o retratado" (p.46)

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