quinta-feira, 28 de agosto de 2014

"Viagem a Portugal"




Viagem a Portugal, de Sérgio Trefaut, encontra-se, quanto a documentar Portugal, em parte, datado. Não necessariamente no que diz respeito à burocracia despersonalizante, ao medo do outro, à desconfiança do estrangeiro, aos processos kafkianos (“por que razão tenho que regressar a Kiev?”) de histórias reais – como a de Tanya e Kita. Isabel Ruth interpreta muito bem a superioridade condescendente, o tom bonzinho a emoldurar a perversidade e o mal banal, o quero posso e mando travestido de português suave (“nós, portugueses, somos humanos”). O preto e branco assenta bem ao maniqueísmo que não desapareceu de quem vê (não um país inteiro, sublinhe-se, no entanto), sempre, no diferente um perigo medonho, os bons – os burocratas que zelam tão bem pela comunidade e até, com um paternalismo sufocante (“assina, que é para teu bem”), pelos que punem sem motivo; “aqui a polícia não é corrupta, como no teu país!”) – e os maus – os que aterram em Portugal (certamente com um obscuro interesse escondido). Maria de Medeiros, outro desempenho forte, dá o corpo (frágil) à impotência absoluta de quem é colocado em um limbo/condenação sem meios/possibilidade de se defender. Um corpo do qual a burocracia é dona, se apropria. A dignidade da pessoa humana violada.
O que dificilmente encontraríamos no Portugal de meados da segunda década dos anos 2000, e que ainda podemos vislumbrar nesta história que nos é dada a ver por Trefaut, que nos remete para o final dos anos 90, é a afluência significativa de imigrantes ao nosso país, às Expo98 de muitas obras e milhões, as vacas (relativamente) gordas, hoje completamente esmifradas. Por essa altura, por todo o país, conhecemos, sim, ucranianos, entretanto desviados para outras rotas. Por essa época, descobrimos, incrédulos, podia lá ser, médicos a trabalhar nas obras – como Kita -, ou médicas como empregadas de limpeza – algo tão estranho aos nossos hábitos que só havia que desconfiar (como faz a personagem de I.Ruth). Nessa estação, ainda, envergonhávamo-nos dos alunos ucranianos que se transformavam nos melhores da turma…na disciplina de Português (sem falar na Matemática, onde dominavam completamente), com os pais ucranianos descontentes com o ensino que lhes era ministrado (como pode ver-se, por exemplo, em outro filme/documentário de Trefaut, Lisboetas, no qual as malhas da burocracia que maltratam imigrantes são, igualmente, denunciadas).
Fica a trágica esperança, dos anos 2014: que a educação então seviciada em ‘ucraniano’, de final da década de 90, tenha melhorado tanto quanto os indicadores PISA vão sugerindo e sejam, agora, os nossos compatriotas a valer-se dela na emigração massiva de que são, neste instante, protagonistas.

Sem comentários:

Enviar um comentário