domingo, 21 de setembro de 2014

Amar o caminho das pedras


No poema O amor não amado (19/06/1942), de Jorge de Sena, o sujeito poético interroga-se - ou exprime amargurado, uma amargura soltada em voz alta, implicitamente como que dirigida ao próprio Deus; portanto, um falar consigo e com Deus - sobre o porquê de ainda falar em Deus: "Nem sei porque ainda falo em Deus". Porque há-de Dele falar "se não existe uma barca onde o rumo se invente" (?).
Extraordinário verso, o que se faz voz, representante dos que não aguentam seguir pegadas, pegadas só, de um caminho que, tendo uma direcção - e sendo traí-lo escolher direcção oposta - mas que pode ser trilhado de múltiplas formas, sem a regulamentação pormenorizada do mais ínfimo passo. Adolph Gesché di-lo de um modo admirável:"Deus não é um funcionário do sentido".
Ou, nas palavras de Maria Clara Bingemer, "a teologia tem lutado - sobretudo após o Concílio Vaticano II - para demonstrar que se deve rejeitar toda a tentativa de manipular a palavra Deus para rechear de sentido imediato e manipulável uma vida humana frustrada e desorientada" (p.40, Viver como crentes no mundo em mudança).

[O amor não amado, de Jorge de Sena foi incluído na antologia Verbo. Deus como interrogação na poesia portuguesa, p.62]

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