quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Cá fora, nada


O que disse o debate de ontem, nas primárias do PS, a alguém que esteja desempregado?
Bastaria colocar esta singela pergunta para rapidamente perceber que o frente a frente na TVI foi de um irrealismo à prova de qualquer contacto com o mundo, sem substância de espécie alguma, alheado, por completo, do país.  Portanto, em primeiro lugar, é preciso dizer que o debate para o país não existiu; não houve Portugal, nem portugueses, no debate.

Para descortinar vencedores e vencidos na discussão de ontem, é, assim, necessário partir de um pressuposto extraordinário: ignorar qualquer existência (exógena) sobre a qual a discussão devia incidir, e conceber o dito frente-a-frente como fim em si mesmo. Mas persistir em analisar tácticas, manhas e estratégias – sim, se fosse um combate de boxe, Seguro ontem tinha dado mais uns murros, não há dúvida –, sem entrar em qualquer questão programática, é correr o risco de entrar no mesmo casulo fechado de quem não se abriu, por um momento que fosse, ao que interessa aos cidadãos. 

Correr esse risco - a seguir, publicaremos post sobre questões de fundo inerentes a estas eleições no campo social-democrata - é dizer que António José Seguro teve o debate que queria, completamente centrado em “deslealdades e traições” – um género “telenovela mexicana” que Ana Sá Lopes, com graça, resumiu: Seguro falou tanto de traições “que parecia a ex-mulher do presidente francês”.

Nem do ponto de vista do puro argumento – se aí nos quiséssemos conter – houve qualquer razão para que, quem gosta de troca inteligente de ideias, se pudesse regozijar. Naturalmente, uma dialéctica focada em “ambições” e outros supremos pecados desta jaez, que “uma nova forma de fazer política” suprimirá, não podia dever nada à subtileza. Quando saiu, oh excepção, da linguagem de aparelho, Seguro disse que, ao contrário de Costa, ele não pediu o aumento do salário mínimo nacional logo no início da legislatura, porque o PS tinha assinado o memorando. Só solicitou tal aumento quando entendeu. A vinculação de Seguro àquele compromisso era firme…dependente do seu juízo político. Aliás, brilhante, como se sabe.

António Costa surgiu em tom “calmantes” (no que fez lembrar o Paulo Rangel do debate com Passos Coelho, nas internas do PSD, embora cada um o tenha feito por motivos diversos), o que para quem segue a, várias vezes referida ao longo dos 35 minutos de debate, Quadratura, lhe acentuou a pose artificial – Costa é mais vivo e menos meigo do que ontem se mostrou. Se os apaniguados mais fiéis, queriam, no registo boxe, um soco como contra-reposta de Costa, ele parece ter preferido tão-só não ir ao tapete – o que, no caso, significa nunca escorregar nas cascas de banana que lhe são e serão colocadas para perder a “pose” e, passando para o registo que é o do seu adversário, perder a identidade (e até qualquer hipótese de recuperar a unidade a seguir às eleições internas).

Claro que a postura mais agressiva de Seguro e a contenção de Costa deixaram claro quem assumiu a posição de underdog e a de vencedor antecipado (aí, o debate Passos-Rangel foi uma excepção, com o mais agressivo a ser quem surgia à frente em todas as apostas e, de resto, se confirmou vencedor). 

Foi dito por diferentes analistas, entre os quais Marques Mendes, que o ponto forte de Costa no debate de ontem foi ter dito que ir para o governo não era nenhum prémio – pelo que dizer-se que esteve à espera da boa estação, para se candidatar, não faria sentido. Mas, até neste âmbito, novidade não existiu: em entrevista a Fátima Campos Ferreira, na RTP, já o presidente da Câmara de Lisboa, se referira ao pensamento infantil por detrás da afirmação das “facilidades” com que um futuro PM se confrontaria.

Em realidade, o único ponto novo em António Costa passou pela afirmação de que em vez de uma moção, Seguro se apropriou das propostas de várias equipas compostas para o Novo Rumo – que pertencem a todo o PS, formadas por várias personalidades, até, que apoiam António Costa -, dizendo ser o seu programa. Ponto pertinente, assiste razão a Costa.

Costa sabe que a seguir às "deslealdades e traições" devem vir "os argumentos não originais", o "tu copiaste o que eu disse" e, de facto, quer que os debates terminem o mais rápido possível.

Quem viu o debate de ontem, sem pertencer ao corpo eleitoral que sufragará o próximo "candidato a PM" pelo PS, também. O frente a frente de ontem teve o condão, certamente, de não acrescentar um nome ao caderno eleitoral que ficará fechado na próxima sexta feira.


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