terça-feira, 9 de setembro de 2014

Confessar (II)


Tolstoi também segue várias escolas, peregrina entre escritores - que se julgam os educadores do mundo, donos de uma vaidade incomensurável, que se elogiam mutuamente ao mesmo tempo que se invejam, frivolidade entre fama e dinheiro como comuns motivações de escrita -, jornalistas, professores; salta da oferta do aperfeiçoamento pessoal (tudo devorar para ser, ele próprio, melhor, acompanhando a evolução das coisas; primeira escola), para o aperfeiçoamento colectivo (contribuição para o progresso, a educação do povo através de jornais, livros, e aulas mesmo que nada se tivesse para ensinar) até chegar à vida familiar (terceira escola) - "as novas circunstâncias da vida familiar feliz distraíram-me completamente de qualquer busca do significado da vida" (p.26). Mas eis que o aturdimento lhe chega: para quê a educação do filho?, para quê ajudar as crianças camponesas?, para quê ser um escritor mais famoso do que Shakespeare? Para quê tudo isso, afinal? Infantis, as perguntas? Nada. Inevitáveis, incómodas, militantes. Fugir-lhes? "Nem sequer queria saber a verdade porque adivinharia o que era. A verdade era que a vida era sem significado" (pp.31/32). O cordão sai do quarto, a espingarda de caça abandona o seu carro: "Lutei o quanto pude contra a vida. Os pensamentos de suicídio chegavam-me com a mesma naturalidade com que chegaram os anteriores de melhorar a vida" (p.32). E isto em alguém que, confessa na aurora do texto confessional, nunca abandonou a crença em Deus, a crença em Cristo.


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