terça-feira, 9 de setembro de 2014

Confessar (III)


Família magnífica, amigos muitos, propriedades a rodos (de quem nasceu aristocrata), elogios do mundo e, ainda assim, a crise existencial de Tolstoi. "É só possível continuar a viver enquanto estamos intoxicados pela vida; uma vez sóbrio é impossível não ver que é todo um mero engano, e um engano estúpido" (p.35); "Não importa quantas vezes me afirmam: não consegues entender o significado da vida, não penses nele, vive, não consigo porque o fiz por tanto tempo"(p.37). Arte, poesia, família...que fenómenos são, se a vida é nua? "«A família...», disse a mim mesmo. Mas a minha família, a minha mulher e os meus filhos, são também seres humanos. Estão na mesma posição que eu: terão também de viver uma mentira, ou encarar a realidade terrível. Para o que vivem? Porque os amo e guardo, crio e olho por eles? Para que atinjam o mesmo estado de desespero que me preenche, ou para ser obtuso!". Se os amo não posso esconder deles a verdade. Cada passo no conhecimento leva-os à verdade. E a verdade é a morte" (pp.37/38); "Simplesmente entendi que a vida não tem significado. Poderia ter aceite este facto pacificamente, sabendo que era o meu destino. Mas não podia ficar tranquilo" (p.39). A suprema sinceridade do que se confessa, na memória de um tempo em que (o confessante) pensou que a verdade, a resposta era a morte.


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