terça-feira, 9 de setembro de 2014

Confessar (IV)


Como um "moribundo em busca da salvação", Tolstoi percorre todos os domínios do conhecimento humano, quer saber tudo o que as ciências naturais, sociais e humanas lhe legaram, em séculos de desenvolvimento humano, acerca da questão do sentido da vida: "a minha pergunta, aquela que me trouxe ao ponto do suicídio quando eu tinha cinquenta anos de idade, era uma questão muito simples que reside na alma de toda a pessoa, da mais pateta criança ao velho homem sábio. É a questão sem a qual a vida é impossível, tal como aprendi pela minha experiência. Que é: o que será do que faço hoje e amanhã? O que será da minha vida inteira? 
Expresso de outra forma a questão pode ser colocada assim: porque vivo? Porque desejo algo, ou faço alguma coisa? Ou ainda expresso de outro modo: existe algum significado na minha vida que não será aniquilado pela inevitável morte que me aguarda?".
Então, descobre que a ciência natural, a matemática, o que é experimental nem a pergunta reconhece - qual o sentido da vida? Doutra banda, a filosofia aceita-a, mas não lhe responde.
Cabe-lhe inserir-se no campo da sabedoria, o que disseram Salomão, Sócrates, Buda ou Schopenhauer sobre a questão. A resposta é desoladora, porque vai ao encontro dos seus piores receios: a vida é maldade; melhor, pois, a sua aniquilação (mesmo em vida). 
Perante esta "verdade", Tolstoi traça o quadro de respostas existenciais a que assiste (no seu "meio"; Tolstoi reitera, sempre, esta proveniência original, "o meu meio"): a) ignorância da questão do sentido da vida; b) resposta epicurista: aproveitar a vida, gozá-la, porque depois desta vida não haverá nem festas, nem bebida, nem comida, nem nada em outra dimensão alguma, inexistente; c) suicídio - "o modo mais digno de escape", destinado a "pessoas fortes e consistentes"(p.71); d) continuar a viver, agarrar a vida má e prosseguir, caminho "dos fracos", mas aquele em que até então Tolstoi prosseguia. As falhas de cada uma das posturas podiam, para o escritor russo, ser esquematizadas da seguinte forma, respectivamente: a) ausência de entendimento de que a vida é absurda; b) falta de imaginação quanto a viver devorando prazeres, esquecendo que a velhice, a doença e a morte espreitam; c) quem comete suicídio não pondera que pode ter-se enganado, ou não compreendido algo, algures, quanto ao sentido da existência; d) e se esta tem sentido, o viver por viver também não é resposta.
Se é tão evidente que a vida é falha de sentido, e a evidência é, por natureza, ausência de subtileza, então como conseguiram prosseguir milhões a sua caminhada e transmitir-me a vida e suas realizações, algo que indiscutivelmente chegou até mim? É a pergunta que dará novo fôlego a Tolstoi.

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