terça-feira, 9 de setembro de 2014

Confissão (V)


Confissão


O erro de Tolstoi, segundo o próprio, foi ter-se atido ao seu meio e visto os demais como "ELES". E, no entanto, é neles, nos que labutam, e não nos "ricos" e "parasitas" que frequenta, e de que é membro, que se encontra a resposta mais importante: a fé. A mais sincera das fés, aquela que não se fica nas enunciações elaboradas desmentidas pelo viver dos seus autores ou transmissores, mas a do povo que vive como reza. A fé que Tolstoi "adiciona" ao conhecimento racional. Este só permite somar o finito ao finito, e o infinito ao infinito, em jogos de soma zero. Nada. Só a fé (re)liga finito e infinito, forma de conhecimento maior, portanto. "Onde há vida, há fé"(p.87), formulação que Torres Queiruga colocará deste modo: o viver do homem que podia matar-se é o referendo mais concreto de que a vida tem sentido. Tolstoi abandona a sua "classe", ruma a uma vida ascética, deixa todos os bens, renuncia à propriedade privada. Todos, sem excepção - aqui contraria um pouco o Kung de Aquilo em que creio -, se confrontam com o sentido da existência, só que milhões não se entediam com este, mas penam, sofrem, vivem com a dignidade que lhes advém de acreditarem genuinamente no que professam. O luxo não permite aceder à vida verdadeira (p.117). Como Guardini, Tolstoi aceita a não pedagogização (p.126) da liturgia. Como Agostinho, o caminho é o do regresso: "Tal como a força da vida foi gradualmente extinta e imperceptível, e cheguei à impossibilidade da ida, a cessação da vida e a necessidade de suicídio, também a força da vida regressou a mim, não era algo novo mas a mesma velha força que me atraiu no período inicial da minha vida. Regressei a todas estas coisas que tinham sido parte da minha infância e juventude (...) Noutras palavras regressei a uma crença em Deus, na perfeição moral, e à tradição que deu sentido à vida (...) A baía era Deus, a direcção a tradição, e os ramos eram a liberdade que me havia sido dada para remar para a baía e juntar-me a Deus" (pp.113 e 115).
Não se julgue que este regresso é um conto de fadas - haverá momentos de dúvida, ainda. A ausência de ecumenismo entre as Igrejas cristãs será algo que impressionará o autor de Confissão. Que, assentando na verdade essencial do que lhe era transmitido, esforçou-se no estudo dos textos para neles compreender, em equilíbrio, o que menos aí se sustentava. Um percurso exigente, permanentemente no fio da navalha. Acabou excomungado pela Igreja Ortodoxa (que nem no ano 2001, a pedido de um ainda familiar, reviu a condenação).


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