terça-feira, 16 de setembro de 2014

Da família (II)





Mário Cordeiro, “As Crianças não são Propriedade dos Pais”, Expresso. Revista, 13. 09. 2014, 18.

Mário Cordeiro tem novo livro sobre a educação dos mais novos. O pediatra explica que educar é um acto de amor e que a violência é desnecessária para impor a disciplina


As crianças fizeram parte do mundo de Mário Cordeiro desde sempre. É o mais novo de oito irmãos e, por sua vez, pai de cinco filhos (de 35, 34, 12, e gémeos de 11 anos). Filho de pediatra, pediatra se tornou. Hoje, tem mais de 20 sobrinhos e quase 30 sobrinhos-netos. Escritor prolífico, lança aos 58 anos o 24º livro, “Educar com Amor”. Essencialmente, para combater a ideia de que educar e amar são opostos. Não são. Amar uma criança é educá-la, impondo limites.

O que diz este livro de novo?
O objetivo principal era desfazer o imbróglio que “quem educa não ama” e que “quem ama não educa tanto ou deixa andar”... Educação e amor são complementares. As pessoas deviam pensar: “Eu amo-o tanto, que tenho de o educar.” É possível ralhar com uma criança, dizendo-lhe: “Amo-te muito, mas o teu comportamento foi errado.” A criança não é os seus comportamentos. Nós ainda não interiorizámos que as crianças não são adultos em miniatura. Não têm uma compreensão sistémica das coisas.

O amor é a pedra de toque, a base da educação?
É. O amor não cobra. Existe apenas. Ama sem precisar.

Impor limites é uma das grandes questões dos pais. Devem ou não fazê-lo, e até que ponto?
Se toda a gente fizesse só o que lhe apetecesse, seria o caos. A maioria das regras existe para facilitar a vida às pessoas. Isso deve ser incutido nas crianças desde sempre. Sobretudo, tem de haver bom senso, e um projecto educativo. Os pais têm que saber, em linhas gerais, o que querem para os filhos — e pensar que tipo de pessoa gostariam de encontrar na rua dali a 20 anos.

Hoje em dia, há miúdos com telemóveis, iPads, consolas, Xboxes… Não há
um exagero?
Sou a favor da tecnologia, mas não em permanência. Não emitindo juízos de valor, posso contar a minha história. No meu caso de pai de cinco filhos, achei sempre que as Xboxes e as PlayStations não se justificavam, porque considero que os miúdos devem ser ultrassensoriais, desenvolverem o olfacto, o tacto... Nunca ofereci nenhum artigo tecnológico, nem deixei que lhes oferecessem. Dei sempre alternativas, claro. Ao argumento de que “lá na escolar toda a gente tem”, respondia: “Mas lá na escola não têm este pai.Fui coerente com a minha forma de educar. Hoje, os meus filhos mais velhos já conseguem ver o lado positivo disto. Continuo a fazer o mesmo aos mais novos.

Existe uma idade a partir da qual uma criança deva ter um telemóvel?
Acho que se deve ter um telemóvel quando se precisa. Parece-me inadequado uma criança de 10 anos ter um telemóvel, não vejo razão para isso. Assusta-me a dependência da comunicação que estamos a gerar.
Será que alguém me ligou? Fico triste porque ninguém me ligou? Isto preocupa-me...

Há pediatras que defendem que nunca se deve bater ou castigar. Qual é a sua posição face aos castigos?

Deve-se castigar quando há desleixo, má educação ou insolência. O castigo deve ser justo, proporcionado, adequado, pedagógico, nunca humilhante. A criança deve saber de antemão o que lhe vai acontecer (ex.: se tiveres má nota no teste, ficas uma semana sem ver televisão). Nunca se deve bater de maneira a doer. Nem a humilhar. Puxar uma orelha ou dar uma bofetada na cara é humilhar, porque é deformar a face, que é a nossa identidade.

Nunca deu um estalo a nenhum filho?
Não. Dei alguns açoites, raros. O meu pai também nunca me tocou. Mas quando me fazia os olhos mais tristes desta vida, era como se me tivesse dado com uma marreta. Dizia: “Não estava à espera disto de si.” Eu sentia que não queria desiludi-lo.

Qual seria o castigo adequado a uma criança que insulta a avó?
Deve pedir desculpa. Ir para o quarto por um tempo. Ser privado de alguns privilégios. E a avó está no seu direito de mostrar a sua tristeza.

Deve premiar-se uma criança quando passa de ano? Ou esse é um dever dela?
Se uma criança se transcende, se esforça muito, merece um prémio. Se cumpriu apenas, merece um elogio. No final do ano, como ritual de passagem, pode dar-se uma prenda, simbólica. Fazer bem é um sentimento ético, não é comprável.

O Brasil aprovou em Junho a Lei Menino Bernardo, que prevê punições para agressões a crianças menores. Até que ponto o Estado deve sobrepor-se à educação dos pais? Uma bofetada em público é violência?
Tudo o que humilhe é violência. Uma bofetada é violência. Porque é unidirecional. As crianças não são propriedade dos pais. O Estado deve zelar pelo interesse delas.

Quais os maiores dilemas que sentiu na educação dos seus filhos?

Talvez saber se estava a fazer certo ou errado. E resistir à tentação de fazer deles o meu livro em 2ª edição, com uma nova capa. Eles são o livro deles. Agora, dá-me enorme prazer ver os meus filhos repetir aos filhos deles alguns gestos e frases que eu lhes dizia

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