quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Da ideologia no interior de uma cultura





1.As opções ideológicas que formulamos não se encontram à margem da cultura que frequentamos, do conjunto de convicções, crenças, ideias, desejos, representações, concepções, sentimentos que prevalecem em um dado momento; daquilo que conforma, em suma, o espírito do tempo.

2.A associação entre o paradigma cultural (hoje) predominante e a ideologia professada (por uma maioria de cidadãos) conta-se, assim, como o principal contributo que Raffaele Simone traz com O monstro amável – o mundo está a tornar-se de direita?

3.Muito radicalmente, nos debates do interior da esquerda, a pergunta última, fundamental, que o autor formula é se esta, a esquerda, ainda tem lugar, se os seus ideais conseguem alguma validade e legitimação popular, quando o consumo, o individualismo, a competição, o curto-prazo como medida definem o ar que se respira. Mais, ainda: se a pulsão inata do ser humano passa por uma afirmação sobre os demais, por um certo egoísmo, algum exibicionismo, pelo desejo de possuir, não será como que co-natural ao humano ser de direita (que, assim, no entender deste autor, melhor representaria tais impulsos naturais, na valorização que faz da hierarquia, numa certa recusa de uma limitação, via impostos, à propriedade, por exemplo)? E a esquerda, com os postulados de auto-contenção e redistribuição não remeteria para o artificial (auto- limitação da minha propriedade em favor de outrem, será algo natural em mim? p.178 e ss)?

4.A provocação intelectual é desafiadora, no contexto dos debates no interior de partidos de tipo social-democrata, porquanto representa um género de questionamento que implica uma elaboração bem mais demorada e densa para uma resposta capaz, cabal, do que as respostas que, parecendo mais práticas e rápidas de implementar, mantém, no fundo, o estado de coisas (com respostas espelhares às daqueles a que se aspira a ser alternativa). Nesta interpretação do mundo, o adversário (dos sociais-democratas) não se alberga já em um partido ou movimento político; muito mais, em uma dada evolução histórica e cultural (maxime, a existência de uma “cultura de massas despótica”).

5.Os problemas de legitimidade, à esquerda, nas últimas décadas advieram, desde logo, do conhecimento dos horrores cometidos em países governados por partidos comunistas; em segundo lugar, pela sua omissão de intervenção política – e, se quisermos, de prévia produção intelectual/discussão/debate - em temas tão centrais, para diferentes populações europeias, como a imigração ou o fundamentalismo islâmico; em terceiro lugar, os socialismos que o mundo ainda hoje conhece, como o venezuelano, não entusiasmam os próprios socialistas europeus; quarto problema não menos relevante: desde a ideia do Estado do bem-estar, nenhuma outra relevante teria surgido, desta banda político-ideológica, desde então (p.54). As dificuldades, à esquerda, assumem, portanto, um eminente carácter intelectual, que se reflecte em autoridade e prestígio (em perda, nesta ala política), pois que sem um projecto para o futuro estes se esvaem.

6.Perda para a esquerda, ainda, na última década/década e meia: a) o desaparecimento da classe trabalhadora como classe predominante; b) a mudança antropológica e económica do povo de esquerda; c) o desinteresse da juventude pela política.

7.Os capítulos (4º e seguintes) que detalham esta mutação permanecem os mais interessantes e agudos desta obra: nenhum operário seria figura para entrar num Big brother, isto é, não seria apetecível para a televisão e, em assim sucedendo em um tempo em que só o visível/visualizável conta, perdem o interesse para um partido político; por sua vez, mesmo a classe trabalhadora, numa época em que cada um se define pelo patamar de consumo que consegue atingir, aquilo que parece pretender é, sobretudo, alcançar o patamar de consumo acima do seu e, finalmente, nem mesmo esta (classe) se define de modo homogéneo, nem politicamente se revê em uma oferta de (auto) contenção (mesmo que essa recusa, no fundo, resulte em seu desfavor); as causas comuns, o interesse público e geral, o bem comum, quando é esse mesmo consumo que, afinal, nos definirá, não assumem particular relevo, e os mais jovens, a quem a publicidade mais se dirige, naturalmente, afora uma dimensão mais carreirista, afastaram-se, de um modo geral, da cena política, quando haviam sido um conjunto de agentes propulsores de mudança, outrora.

8.Quando o curto-termismo é um factor crucial de uma época, o desejo de transformação não é palpável.

9.Com certeza que não deixa de ser curioso que o reputado académico, linguista, de esquerda prefira Hobbes a Rosseau na conceptualização antropológica que produz; é discutível que se possam arrumar, definitivamente, a um canto, como sugere, as distinções, in statu nascendi, entre esquerda e direita, que Bobbio apresentou no clássico Esquerda e Direita; se a compaixão e a solidariedade são tópicos essenciais para cristãos e socialistas, respectivamente, e políticas há que a ambos podiam satisfazer, não se compreende, por outro lado, a recusa, tão peremptória, de alianças entre partidos democratas-cristãos e social-democratas ou a crítica ao religioso, que produz neste livro; nem todos aceitarão a descrição de direita que propõe, nomeadamente a univocidade desta (a Nova Direita enquanto o referido sistema de representações, concepções, desejos prevalecentes hoje, traduzida por “cultura de massas despótica”), nem, tão pouco, a generalização de certas características (como as acima apontadas, ou a absoluta recusa da importância do sector da cultura, por exemplo); as suas posições sobre segurança, imigração ou a questão palestiniana, dificilmente alcançariam consenso à esquerda (como, de resto, se pode verificar pela apresentação de Joaquim Estefanía, à edição em castelhano); as apropriações de algumas passagens de autores como Tocqueville não deixam de ser questionáveis (se o autor as lê como a descrição de um domínio absoluto por um dado sistema de crenças, elas poderiam ser interpretadas, igualmente, e talvez mais próximas do original, como crítica, liberal, a um Estado paternalista).

10.Em todo o caso, a deslocação do território exclusivamente económico-social para um de ordem cultural, como absolutamente carecido de ocupação e de trabalho (em especial por partidos sociais-democratas), por parte daqueles que procuram mudanças societárias e políticas em profundidade, constitui o iluminar de um topoi provavelmente demasiado tempo negligenciado (e que, nem por sombras, entrou na discussão que precedeu as primárias do PS, apesar dos esforços do Prof. Manuel Maria Carrilho, dos poucos a suscitar tal problemática no espaço público português).


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