terça-feira, 2 de setembro de 2014

Deus na poesia portuguesa


Hugo Pinto SANTOS, Atravessar a lâmina das águas. O trânsito entre Deus e os poetas portugueses — de Vitorino Nemésio a Daniel Faria — numa antologia equilibrada e significativa, Público. Ípsilon, 29. 08. 2014, 24-5

Verbo — Deus como Interrogação na Poesia Portuguesa José Tolentino Mendonça e Pedro Mexia (selecção e prefácio) Assírio & Alvim

Verbo — Deus como Interrogação na Poesia Portuguesa não tem antecedentes próximos. Não se pode dizer que haja entre nós uma linhagem consolidada de antologias com um nível qualitativo firme e ininterrupto, criadoras de uma imagem satisfatória da nossa poesia. Se há títulos que podem fazer supor o contrário, parece legítimo ver neles menos a peça de um processo geral coerente, gerador de nexos aproveitáveis, do que um episódio raro. O sentimento geral é de deslaçamento e incompletude. Decerto por infrequência, e nem sempre por falta de valor de alguns desses esforços. Diferentemente, uma poesia como, por exemplo, a britânica materializou uma tradição contínua e válida por meio de um conjunto de antologias — abrangentes ou restritas, mas, genericamente, de elevado valor documental e poético — que formam hoje um panorama ponderado e lúcido. Mesmo numa área tão específica como a religião: The Faber Book of Religious Verse (1972), editado por Helen Gardner; The New Oxford Book of Christian Verse (1981), por Donald Davie (Lord David Cecil organizara, em 1940, The Oxford Book of Christian Verse); The Penguin Book of English Christian Verse (1984), a cargo de Peter Levi. Meros exemplos, longe de exaustivos, mas que indiciam um contraste nítido face ao caso português. No nosso país, ressalvando iniciativas de carácter confessional, as experiências antológicas dedicadas a esta área cingem-se praticamente à colaboração entre José Régio e Alberto Serpa — Na Mão de Deus: Antologia de Poesia Religiosa Portuguesa (1958) — e à recolha de Guilherme de Faria, editada postumamente — Antologia de Poesias Religiosas (1947). Note-se, a título exemplificativo, que neste volume as últimas entradas se cifram em composições de António Nobre e do próprio Faria, desaparecido em 1929 (a que se seguem, a fechar, Cantigas Populares).
É claro que, com o que se tentou apresentar, não se pretendia obliterar um quadro geral marcado pela insuficiência na edição de antologias, quer específicas, quer generalistas — mas tais considerações não cabem no âmbito deste texto, que, de resto, já se alargou perigosamente.
Tendo em conta o quadro traçado, falta-nos, perante uma antologia como a que organizaram José Tolentino Mendonça e Pedro Mexia, a jurisprudência que nos permitiria estabelecer comparações e tecer juízos mais robustos. Verbo terá, portanto, de ser analisada por si só. Trata-se de uma antologia temática, de âmbito temporal preciso, que se inscreve numa orientação cultural circunscrita e maioritária, de matriz cristã. É possível debater se tal posição — unívoca, do ponto de vista da orientação religiosa — é ou não defensável. Contudo, colhendo o seu título no primeiro versículo do Evangelho segundo São João — “No princípio era o Verbo” —, esta antologia define claramente os seus limites e as possibilidades do seu conteúdo. Os organizadores não terão querido enjeitar o significado mais profundo daquela noção, enquanto Logos, isto é: Deus-filho, na tradição do Novo Testamento. Como não terão esquecido, igualmente, que logos é, em paralelo a essa acepção, e além do contexto religioso, “palavra”, “discurso”, mas também “razão”. Talvez importe lembrar que de logos derivam formas lexicais com o sentido de “falar”, ou “colher palavras”. A relação com a poesia que esses sentidos possibilitam abre caminhos não limitados a uma aceitação contemplativa. Talvez nesse sentido Mexia e Tolentino Mendonça falem de um “modo interrogativo” (p. 13). Devido aos contornos que apresenta, esta obra fixa limites especialmente precisos, em cujas extremidades se encontram Vitorino Nemésio e Daniel Faria. O que automaticamente exclui a tradição pré-moderna, ao contrário do que acontecia nas antologias antes referidas — e os organizadores não escamoteiam o facto de “a questão de Deus” [ser] inexistente ou ocasional no primeiro modernismo” (p. 10) —, e poetas nascidos após 1971.
Pensando nos autores recolhidos em Verbo, deve referir- se Vitorino Nemésio. Ao escolhê-lo para abrir a sua antologia, os responsáveis optaram por um dos nomes que mais ajudaram a definir a moderna poesia portuguesa, e no âmbito temático aqui em causa, um escritor de profundas inquietações. Lembre- se um título como O Verbo e a Morte (1959), e o poema epónimo, incluído na presente antologia — “Então Deus é o Tu na face,/ O que nos deixa ser em frente,/ Como se assim recuperasse/ Meu eu sem área, eu morto, eu mesmo,/ Que me assumi na face morta” (p. 32). Poderia ainda invocar-se O Verbo, de Carlos Poças Falcão — “Ser o verbo certo, essa volúpia/ como uma roseira, a posição sentada ou uma casa/ de pedra e de madeira. (...) verbos que procuram leveza e exactidão” (p. 176). Um exemplo, este último, que elucida a dimensão dúctil do logos. Enquanto mediador entre sujeito e objecto, instrumento para dizer o mundo, e como ligação ao divino. Eis uma das vias por onde caminha esta poesia.
Mas esse não é um caminho exclusivo. Ruy Cinatti, por exemplo, de quem foi opção avisada privilegiar os livros póstumos, é um exemplo de como o tratamento da matéria religiosa pode ser outra coisa que não reverência ou ortodoxia — “Consummatum est,/ e eu me consumo/ acervo de unhas que me dilaceram/ e eu estacado/ perfil — homem de figura,/ mas assombrado” (p. 50). Poucas vezes a poesia portuguesa terá alcançado dirigir-se a Deus de forma ao mesmo tempo tão pungente e conseguida do ponto de vista expressivo. A propósito de Ruy Belo, Joaquim Manuel Magalhães destacou a “afirmação na dúvida”. A sua poesia, que é um dos lugares mais tensos e conturbados da relação com Deus, mas também dos mais congruentes — Joaquim Manuel Magalhães falou da “poesia de um homem religioso até ao fim” —, afirma-se numa luta, a certa altura num desvio (é conhecida a questão da minúscula da palavra “deus”), mas sempre numa relação proveitosa para os seus versos — “mesmo ao falar de deus eu me esqueço de deus” (p. 141). Na impossibilidade de expor detidamente todos os poetas incluídos, o mais tentador (motejo não intencional) seria referir Adília Lopes. Se num dos seus poemas escreve “Deus é a nossa/ mulher-a-dias/ que nos dá prendas/ que deitamos fora/ (24) como a fé/ porque achamos/ que é pirosa” (p. 195), podíamos ser levados a quedar-nos apenas na aparente iconoclastia; mas também seria possível recordar S. Paulo (Romanos, 1:16-17), quando este diz: “Na verdade, eu não me envergonho do evangelho” (curiosamente, a Vulgata diz “non erubesco”, ou seja “não coro” [de vergonha]). Nem o acaso nem o descaso parecem ter passado por aqui.

Dos poetas incluídos em Verbo, alguns são fundamentais — Nemésio, Sena, Sophia, Ruy Belo ou Armando Silva Carvalho —; outros são autores de primeira linha — Ruy Cinatti, Carlos Poças Falcão —, mas, no cômputo geral, o conjunto é equilibrado. Demarcados pelo tema e pela fronteira cronológica estabelecida, os 13 autores convocados para Verbo (incluindo, além dos já referidos, Fernando Echevarría, José Bento, Cristovam Pavia e Pedro Tamen) não se subordinam a qualquer deliberado simbolismo numérico, mas surgem em consequência de critérios que salientam o carácter significativo e questionador do divino nas suas poesias.


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