domingo, 28 de setembro de 2014

Do fundamento da normatividade universal de um ethos: o ágapê


As religiões monoteístas do tronco abraâmico (Judaísmo, Cristianismo, Islão) têm, no encontro humano com o Deus único, o Incondicional profeticamente revelado, o fundamento da normatividade universal do seu ethos. A fé cristã, entre elas, afirma ser o encontro com o Deus de Jesus Cristo, a experiência de um sentido radical do existir, uma teonomia fundante da liberdade e responsabilidade pessoais, um enraizamento experiencial da pessoa no Incondicionado que lhe assegura, a um só tempo, a liberdade e o limite.
Um termo grego - já presente na tradução grega da Tora judaica, e central no Novo Testamento - designa o fundamento do ethos do Cristianismo nascente. A palavra em questão é ágape, usualmente traduzida por amor. Aqui se intenta significar uma concepção de amor para a qual não parecem nem adequados nem idóneos os verbos e substantivos mais usuais na língua grega, como eros, filia, storgé...No amor/ágape destacam-se a generosidade desinteressada e oblativa - sem outro interesse ou possibilidade de gozo e satisfação que não seja o seu próprio exercício - e a disponibilidade para uma saída de si em direcção ao outro. A não profanável alteridade é o ponto de partida dessa doação de si, que tem a sua raíz num Deus doador que é o seu próprio dom. Esse Deus que se revela é percebido e adorado como sendo Ele mesmo o Amor. Tal como expressa, com ofuscante clareza, a primeira carta de João: «...quem não ama não descobriu Deus, porque Deus é Amor» (1Jo, 4,8).

Maria Clara Bingemer, Viver como crentes no mundo em mudança, p.46.

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