terça-feira, 9 de setembro de 2014

Do pai (II)


Joaquim Pinto: Ao contrário da minha mãe, o meu pai nunca foi uma pessoa de envolvimento político, não era propriamente contra o regime [Estado Novo], mas era bastante crítico em relação às políticas económicas. Lembro-me de ele ter feito um discurso muito crítico durante a inauguração de uma fábrica, onde estava presente o Américo Tomás. A partir daí, começou a ter chatices. Pelo que ele entrou num processo de auto-questionamento. Por volta de 1972, na altura em que fui preso em Lisboa, por causa da vigília na Capela do Rato (contra a guerra colonial), o meu pai decide parar para reflectir e despede-se. Nós vivíamos confortavelmente e as pessoas achavam que era uma atitude insensata da parte dele. Nós conversávamos muito...

Jornal de Negócios: E até fizeram uma longa viagem pela Europa.

Joaquim Pinto: Sim, logo a seguir ao 25 de Abril. Acabou por ser, em grande parte, uma viagem de reflexão sobre questões económicas, sobre questões filosóficas. Fizemos a Europa toda durante um Verão inteiro (...) Na altura, eu, assim como muita gente, estava fascinado com a teoria económica marxista e o meu pai levantava-me muitas questões e hoje, à distância, vejo que essas questões fazem todo o sentido.

Jornal de Negócios: Como por exemplo?

Joaquim Pinto: (...) O sistema económico marxista baseia-se na ideia de que o crescimento pode ser infinito. Sabemos que não é assim. Estamos num mundo com recursos limitados. Li recentemente a análise da filósofa francesa Simone Weil sobre as contradições no discurso marxista. Já em 1936, ela dizia que, mais tarde ou mais cedo, iremos esbarrar numa crise de combustíveis. Outro aspecto crítico em relação à teoria marxista é a ideia de que pode haver uma classe social que representa uma esperança de libertação, naquele caso, os trabalhadores, e que se caminha para um destino qualquer, no sentido da salvação. Isso tem muito de messiânica, de religioso e eu não acredito. De todo. A sensação que tenho é a de que estamos todos metidos, enquanto civilização, numa espécie de comboio, a alta velocidade e sem travões, em direcção a uma parede qualquer, e ninguém sabe como é que há-de conduzir a máquina...

(...)

Eu lidei mal com a falta de sentido de humor dos alemães, havia uma espécie de incompreensão do sentido de humor - eu acho que Hitler matou o sentido de humor na Alemanha. E matou a comédia. Há gente extraordinária até aos anos 30, como o Karl Valentin. (...)

Cruzava-me com ela [Angela Merkel] na cantina da universidade, mas só isso. Penso que muito do pensamento de Angela Merkel é formado no pensamento da Alemanha Oriental, nesse pensamento prussiano. Penso que ela tem a escola toda do outro lado e é por isso que, se calhar, tem tanto sucesso. (...)

Uma das coisas que mais me fascinam é que no cinema produzem-se objectos únicos. Cada filme é um objecto único e irrepetível. Há esse lado de fabrico de protótipos, quase. A sensação que tenho, hoje em dia, e daí um certo desencanto em relação ao cinema em geral, é que os filmes se parecem, cada vez mais, uns com os outros (...) Eu acho que o cinema está meio morto (...) No entanto, há temas e filmes que colocam questões interessantes, mesmo dentro do chamado grande cinema de acção. Por exemplo, a trilogia "Matrix" fala, de forma ficcionada, da ideia de uma sociedade controlada por máquinas. No fundo, é aquilo que está a acontecer à investigação científica na área dos vírus. Existem sistemas informáticos e, depois, robôs que, a partir do momento em que detecta que uma molécula pode funcionar, criam todas as variações possíveis, com milhares de combinações de compostos químicos, e testam-nas indiscriminadamente.

entrevista conduzida por Lúcia Crespo, p. 12-14, 05/09/14.


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