sábado, 6 de setembro de 2014

Do pai



(nada é mais imprevisível que o passado, escreveu Orwell)
comecei, acho, a topá-lo melhor, a suportar sem dificuldade comportamentos e tiques que considerava intoleráveis, a não me ralar absolutamente nada com o menino mimado que sempre foi, os seus caprichos, a sua violência, o seu egoísmo feroz, a sua intolerância, a sua fraqueza em relação à lisonja mas também o seu extremo pudor, a sua capacidade de entusiasmo, a sua paixão pela beleza sob todas as suas formas. Se não fosse ele talvez não me tivesse tornado escritor: lia em voz alta para nós e obrigava-nos a ler, como nos obrigava a fazer cópias de Gauguin, como nos ensinou a ver pintura, a ouvir música, ordenava-me que lhe explicasse
(lembro-me tão bem deste episódio)
Porque razão Manet, é um supor, é bom e uma pintura de carrossel é má, porque motivo Tolstoi é um génio e Cesbron uma porcaria, eu, com treze ou catorze anos, lá ia tropeçando em raciocínios que ele desfazia numa frase, procurando ajudar-me quando eu imaginava que fazia pouco de mim. Tenho hoje a certeza que estava convicto de eu estar destinado a grandes coisas e a minha falta de agudeza crítica impacientava-o. Recordo-me de Almada Negreiros perguntando a Mário de Sá-Carneiro de que é que tinha mais medo na vida. Sá-Carneiro respondeu de imediato
-Da estupidez
e Almada
-Assim não vale: você já sabia isso de cor.


António Lobo Antunes, na sua crónica semanal, na Visão (nº1122, de 4 a 10 de Setembro de 2014, p.8), texto intitulado Da vida dos mortos (onde reflecte sobre a relação que tem com o pai - já falecido - e como a sua percepção sobre este se alterou já depois da passagem deste pela Terra).


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