sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Estreias




Fui à estreia da adaptação cinematográfica de Os Maias, por João Botelho, e saí globalmente satisfeito com o que vi. Penso que é obra que pode ficar, sem problemas, como adaptação fiel e digna da obra de Eça de Queiroz. Se temos tido aproximações a épocas e personagens da nossa história recente que se transformam em objectos completamente abstrusos - o Salazar garanhão, por exemplo -, há aqui um respeito pela narrativa, sem a procura de concentração em dimensões que seriam facilmente comercializáveis por um denominador de audiências muito pouco exigente (o modo de mostrar a relação entre Carlos Eduardo e Maria Eduarda é contido, por exemplo). Por outro lado, a forma de revelar O livro do Desassossego, escolhida por João Botelho, mau grado ter seduzido a crítica especializada, pessoalmente não me havia tocado e, nesse sentido, prefiro, largamente, a aproximação feita a Os Maias (claro que as diferenças das obras de Eça e Pessoa não permitiriam uma abordagem idêntica).
Nem sempre, contudo, me pareceu perpassar para o público a ironia que, além da dimensão profundamente trágica, a obra apresenta. Estando em uma sala com um público predominantemente adolescente, raramente escutei uma reacção de riso, uma gargalhada mesmo, apesar, reconheça-se, dos esforços colocados nas interpretações de um Dâmaso Salcede, ou de um Alencar. E da presença, nesta adaptação, da soirée em que se tocou a "patética" de Beethoven, para desgosto de uma plateia a quem Eça quis acentuar o provincianismo.
Sobretudo, faltou-me um Carlos diferente, mais forte, mais sofisticado até na decadência, cujo pathos, por exemplo na revelação da identidade de Maria Eduarda, não foi suficientemente verosímil, nem o falhanço diletante teve o tom de lucidez cortante e cruel que retive da obra queirosiana.


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