segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Opinião, às segundas





Regressou, hoje, o reparo do dia, na ufm. Neste regresso pós-pausa estival, procurei fixar o que de mais positivo, para os europeus sem emprego e com menos esperança, pode ter surgido neste intervalo de cerca de dois meses. Revisão, pois, do discurso de Juncker e suas propostas para a Europa - seu possível significado.


A surpresa Juncker

Talvez a mais interessante e esperançosa das notícias deste Verão tenha sido o discurso programático com o qual Jean Claude-Juncker se apresentou a votação perante o Parlamento Europeu, a 15 de Julho último. Nessa alocução aos deputados europeus, recorde-se, o agora presidente da Comissão Europeia anunciou um programa de estímulo económico, com vista à criação de emprego, para os próximos três anos - apostando, em especial, na agenda digital e na indústria -, aposta no valor de nada menos do que 300 mil milhões de euros - o dobro, refira-se, do Pacto de Estabilidade e Crescimento desenhado por François Hollande, em 2012. Depois de vários anos a falar-se de crescimento, parece ter chegado a altura de se passar à prática, com medidas concretas que se espera afectem, pela positiva, a vida de muitos europeus (principalmente os que estiveram e estão privados de trabalho, nos anos mais recentes - e ainda nestes dias). Mais, prosseguiu Juncker, impõe-se flexibilidade na interpretação das regras fiscais; um renovado impulso à Taxa Tobin; a criação de um salário mínimo europeu. Houve auto-crítica, da sua parte, às políticas de austeridade prosseguidas nos últimos três anos – uma espécie de acto de contrição relativamente à sua liderança do Eurogrupo – e reconheceu-se a falta de equidade, tantas vezes negada quantas verificada, na distribuição dos sacrifícios resultantes das mesmas. Garantiu vir a existir um plano B sempre que aconselhar medidas aos países para estes melhorarem a sua situação - e estas falharem. Em editorial, ElPaís classificou o articulado do ex-primeiro ministro luxemburguês como o discurso mais à esquerda de um Presidente da Comissão Europeia desde os bonançosos tempos de Jacques Delors. Apesar de o presidente vindo do PPE não ter detalhado o modo de financiamento das medidas preconizadas e de, simultaneamente, proclamar a manutenção do compromisso conservador com as chamadas reformas estruturais, a verdade é que a exposição de Juncker soou tão social-democrata que o diário de direita espanhol ABC fez, mesmo, manchete, no dia seguinte, com crítica cerrada a Pedro Sanchez, nóvel líder do Partido Socialista Espanhol,  pelo facto dos eurodeputados socialistas espanhóis não terem ratificado o luxemburguês.
Analisar as motivações ou razões de um discurso de algum modo surpreendente era o que importava fazer também. Pego no contributo do analista Ignacio Torreblanca para interpretar o problema. Na sua leitura, dois são os factores que convergiram para obrigar a Europa, incluindo grupos políticos menos propensos a assentir ao investimento público, a mexer-se: de um lado, o factor Marine Le Pen, isto é, a ascensão dos populismos e nacionalismos, nas últimas europeias que, mais do que os mercados, ameaçavam, ou ainda ameaçam, desintegrar a União Europeia – era, portanto, preciso fazer qualquer coisa para que, de novo, a Europa fosse vista como um projecto de vida para as populações; em segundo lugar, o factor Renzi, a liderança do novo PM italiano que vinha sustentando, fortemente, flexibilidade nas regras do euro – que, segundo o que foi publicado na nossa imprensa, o governo português estranhamente rejeitara – e uma política de estímulo económico.
Fixo-me, ainda, no primeiro dos factores enunciados. Pessoas com quem conversei acerca das últimas eleições europeias diziam-me ter votado em partidos mais extremados face às suas habituais opções, não como simples voto de protesto, mas como voto estratégico para obrigar o centro a reagir. Não sei se foram muitos os que assim decidiram, mas os que o fizeram, coqueteando com o fogo, parecem poder ter prémio. Em sentido oposto, os que votando convictamente em partidos nacionalistas ou anti-Europa por esse continente fora, poderão, eventualmente, estar arrependidos da escolha feita, porque, ironicamente, poderão ter accionado o sinal de alarme que, deseja-se, leve a Europa de novo a um patamar de coesão social (que está ainda muito por provar, apesar da muito positiva carta de intenções do agora Presidente da Comissão). Não deixa de fazer reflectir, por outro prisma, que tendo passado pela Presidência da Comissão, no pós-Delors, homens vinculados ao grupo do Partido Socialista Europeu, seja um conservador a produzir, no entender de alguns, o discurso mais à esquerda em largos anos. Se, durante anos, os partidos social-democratas foram acusados de sucumbir às ideias liberais, podemos estar perante um momentum em que mesmo os mais liberais aceitem estímulos sociais-democratas na Economia. Ou que após o extremar ideológico destes anos da troika, seja tempo de maior compromisso político.

Boa semana.

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