quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Os transparentes


Anafados de moral, impantes, contorciam-se, exasperados, com as "questões de carácter", discussão única, ponto com exclusividade na sua agenda de debates. A retórica do exclusivo "argumento ad hominem" era assumida com uma força inabalável, tresandando a uma convicção inquebrantável. Isto, naturalmente, passava-se na legislatura anterior. Agora que a filosofia puxa por eles - terem, e não terem, em simultâneo, a exclusividade das "questões de carácter" como exclusivo ponto de agenda - ei-los, os transparentes, falando do conluio entre jornalistas e justiça, ei-los preocupados com uma justiça que funciona, dizem eles, em compensação, uma espécie de deus ex machina que decide, lá longe e no segredo, que a uma sentença que condena alguém ligado ao grupo A, tem que corresponder, de seguida, uma sentença que condene alguém do grupo B, para mostrar isenção e independência. Claro que os projectos editoriais criados ad hoc para a estação em que nos encontramos, tendem a dar lustro à nova teoria da cabala - que, apenas uns anos antes, os fariam encolerizar de morte -, mais importante a cabala de que os factos, bastante ilustrativos, por sinal, até ao momento. E quando não falam da cabala, falam do tempo, de que se há-de falar se não do tempo, do tempo em Lisboa, da chuva que Costa não evitou, Costa que mal, Costa assim, Costa assado, transparentes são, os transparentes, sobre gostos e medos. E a claustrofobia, por onde anda, quando mais de dez notícias depois, o Fernando Santos, a faca e o alguidar e a chuva, vinte e dois minutos após o começo, lá surgem no Telejornal as exclusivas questões de carácter? Tão transparentes, os transparentes, que não enganam ninguém.

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