sábado, 20 de setembro de 2014

Tensão entre o que é e o que aspira a ser


Para o Rui:

Por isso, o ser humano, na sua originalidade irrepetível, ao tomar consciência de si mesmo diante das realidades do mundo, dá-se conta da maravilha da sua razão, do alcance do seu desejo, e descobre-se a si mesmo como constituído por uma total desproporção interior entre o que é e o que aspira a ser, o que é chamado a ser, o que poderia ser ["A realidade não é apenas o que é, mas sobretudo aquilo que poderia ser", A.Gesché]. Isso explica a nostalgia da eternidade, do paraíso que habita mesmo aqueles que não crêem.
Essa condição paradoxal, cindida, tensionada - e, sobretudo, bela! - é a condição humana. E é ela que faz aparecer a pergunta pelo sentido da vida como inevitável e constitutiva. Essa pergunta pode, obviamente, ser eludida, distorcida e sufocada, mas sê-lo-á ao preço do embotamento e da atrofia, no ser humano, das suas mais preciosas e maravilhosas potencialidades. E, por outro lado, ainda que essa pergunta seja constitutiva do que é ser humano, não há razões científicas ou equivalentemente racionais para fundamentar aquilo que transcende a ordem do mundano e do relativo. Só na gratuidade se pode encontrar a resposta para essa pergunta que, no entanto, sustenta toda a vida humana.

Maria Clara Bingemer, Viver como crentes no mundo em mudança, Paulinas, 2014, pp.39-40.


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