quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Um segundo debate bem melhor


António Costa surge, no segundo dos debates com António José Seguro, elencando as suas cinco grandes prioridades políticas, destacando, na quinta destas (combate à pobreza), o combate à pobreza infantil. A criação de uma nova prestação social, neste âmbito, havia sido assinalada, por Ana Rita Ferreira, no Público, como um dos marcos diferenciadores, entre os dois candidatos a PM pelo PS, no que tange ao binómio esquerda/direita, na delimitação de estratégias concernentes a combater pobreza e desigualdade. A criação de instrumentos ad hoc, no sentido de atenuar as situações apontadas (neste caso, a pobreza), como o complemento solidário para idosos parecia/parece, assim, poder fazer parte do programa de Costa (que não o de Seguro, e ir em linha diversa daquela que desvaloriza e cria bloqueios administrativos ao acesso a tais prestações, e faz de um modesto aumento das pensões mínimas o objectivo). No dia em que João Cardoso Rosas, também no Público, desmentia a interpretação de Ana Rita Ferreira quanto ao posicionamento ideológico dos dois candidatos, não me pareceu ao acaso a referência sublinhada por Costa. Finalmente, falou-se do país e o debate foi muito melhor, mais interessante do que o do dia anterior.

Do ponto de vista político, o segundo dos debates ficou muito marcado pelo modo como António Costa desconstruiu o ataque de Seguro à anterior governação socialista: das oitenta medidas anunciadas pelo ainda líder do PS, apenas “seis e meia” seriam novas, face ao programa do PS, em 2009. Seguro não conseguiu responder à altura. Apenas referiu como novidade a reindustrialização e, mesmo aí, foi rebatido. É que, nesse instante, ficava à vista que “a nova forma de fazer política” tinha, afinal, um nome antigo: “tacticismo”. A colagem, feita por Seguro, de Costa a Sócrates e ao anterior Governo, e seu afastamento destes, não tinha nada de diverso do ponto de vista substantivo – as medidas iguais numa percentagem avassaladora -, mas era/é apenas táctico (face à má imagem que resulta de tais governos). Depois dos sucessivos ataques ao “Costa, nº2 de Sócrates”, e do inesperado silêncio de Costa, no primeiro debate, desta vez o esperado boomerang “atacas os anteriores governos do PS e queres renegar uma parte do partido”.

Costa explorou bem o que tem de marca autárquica, em particular o modo bem-sucedido de agregação de freguesias e a omissão do PS (nacional) nesse campo, perante um Seguro nervoso e a interromper, em permanência, terminando em denunciar um “Costa à janela da Câmara”.

Não obstante, há, de facto um enorme buraco negro no programa de António Costa que é a completa omissão sobre o tratamento a dar à dívida pública portuguesa, imaginando-se que nesta altura o dossier estivesse estudado e fosse dito alguma coisa sobre o assunto. Incompreensível, efectivamente.

Por outro lado, a mudança de 180 graus na postura em debate, por banda de Costa, bem mais assertivo e acutilante por contraponto à passividade de véspera, colocou em cheque a tal identidade, a tal pose que escolhera (mal) vinte e quatro horas antes, agora imediatamente desmentida pelo próprio. Algo bem explorado por Miguel Pinheiro, na RTP.

Não se confunda, todavia, a contundência na discussão política – o tom suave com que Costa apontou a medida 70 e tal do programa de Seguro como sendo a defesa da paz no seio das Nações Unidas, foi de ir às lágrimas – com o ataque pessoal.

Costa terminou em grande, dando-se ao luxo de gastar 20 segundos do seu minuto final, em remoque paternalista, dando os parabéns a Seguro por desta vez não usar de ofensa pessoal.



Sem comentários:

Enviar um comentário