sábado, 13 de setembro de 2014

Uma certa ideia de cidade





Os rapazes a faltarem às aulas para aguardarem, pacientemente, na fila por um bilhete de ópera; os cafés, os bons cafés, pejados de jornais: os locais, austríacos; os do Império Alemão, os ingleses e os italianos – a que se juntavam as melhores revistas artísticas e literárias da época; dos concertos às viagens, diárias, às livrarias, sempre em busca da mais recente novidade, do autor por descobrir, da ideia mais avançada; e discussões, horas de discussões, diariamente, a caminho da escola, toda a turma empolgada, rapaziada de liceu, note-se, na discussão sobre uma crítica literária, um escritor, um artigo de jornal, uma obra acabada de sair; há poetas que cativam os jovens, Rilke e Hofmannsthal mais do que tudo, mais do que todos, e se tornam ídolos, cujos textos se plasmam na contracapa do livro de Matemática, há filósofos que o distante Mestre-Escola, austero e frio, que havia deixado o livro no último ano de faculdade, desconhece, mas que guia todas as conversas adolescentes. No ar, frémito e mudança, a arte antecipa, ou por ela passa, uma nova corrente que varrerá o mundo; a era da segurança ficara para trás. A escola é maçuda e maçada, o currículo é pesado. Mas há uma atmosfera à volta que tudo transforma. A Viena de Stefan Zweig, a Viena antes da I Guerra Mundial, carregada de vida criativa, de génio e impulso, é uma certa ideia, concretizada, de cidade a que convém, sempre, voltar.

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