quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Vizinhança


Ao tio Paulo:

Vendia-lhe pêssegos, desses que apanhava, junto à casa, na infância, cujo cheiro e textura não se esquecem, pêssegos desses já não há, e que me faziam saltar da cama cedinho. Embora mais tarde rindo-nos a valer dessa época, na altura o familiar agricultor especialista levava-me a sério, respeitava-me nessa compostura que (ele) mantinha, fazia-me acreditar na bondade e inocência de oferecer fruta a quem tanto a cultivava e nela se comprazia diariamente – e eu na altura não percebia contradição.
As vindimas eram uma sucessão de boa disposição, para onde se ia feliz durante horas e se concluía, em comunhão, à refeição especial. Chamavam-me para a festa, era realmente de festa que se tratava. Só dias depois, já com veteranos ao lagar, cantando naquele passo compassado e solidário, durante um serão alargado, com bôla de sardinha e pataniscas de bacalhau para forrar o estômago, se concluía a boda. A vindima era, aliás, no fundo, uma antecâmara do Natal, uma boa parte da família tinha ali um dos encontros do ano.
Saía noite escura, ainda, o tio Paulo, madruga para a feira, umas economias enquanto se pôde e o chão deu uvas como dizia a tia Lurdes, trabalho sem interrupção para férias, dureza, anos e anos e anos o trabalho, à tarde a merenda levada ao Olival, o homem cansado ao fim da tarde, provavelmente ainda a tempo de chegar para rezar o terço na Renascença – e, se não, mais tarde ao deitar (a imagem do casal, sempre junto o casal, comovido com o Cristo flagelado, na via Sacra que em 2001 ainda tocava a aldeia, não me abandonou). 
Havia sempre uma inteligência a despertar no permanente humor irónico que utilizava, tinha fama de exímio fazedor de contas, sempre dedicado à casa, à mulher, à família. Com a tia Lurdes, pela primeira vez ouvi expressões como "isso era no tempo dos Afonsinhos!", ou "ainda és do bom tempo, homem!...". Naquele quadro bem tradicional, era curiosa a crítica à política de meados do século XX, "Portugal cheio de fome", como repetia várias vezes. Em 1990, falávamos do malvado do Sadam, de como ela se enervava com o futebol com as caneladas que um jogador dava noutro e, já então, me dizia que os computadores tiravam muitos empregos (e eu que na altura julgava que seria a tia Lurdes a não perceber de Economia, e hoje sorrio com a lúcida constatação/profecia).
O tio Paulo era um homem de bem, como dizia, durante a inspirada homilia do seu funeral, o padre Vicente.

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