sábado, 11 de outubro de 2014

A clareza de um mundo


Sábado


Na entrevista de Fábio, o “jihadistas português”, a Nuno Tiago Pinto (o “sr.Pinto”, da Sábado) é possível observar, com muita nitidez, alguns dos grandes desafios que continuam a colocar-se em muita da que é a recepção islâmica de Deus: a) a visão idolátrica do livro (Corão): “como o profeta não sabia ler ou escrever, o livro só pode provir do divino”. Quer dizer, não há aqui espaço para qualquer mediação – humana, cultural, de linguagem – e o texto é Deus, enviado sem mais, por Ele, para ser lido e interpretado, pois, literalmente; b) “só há uma maneira” de fazer a vontade de Alá na Terra, e, logo, não há espaço para caminhos de criatividade, de inventividade, de liberdade; c) a “ummah é um corpo” e “se parte sente dor, o resto do corpo também a sente”. A definição identitária como que marcada, em exclusivo, pelo religioso, sem permitir que outras dimensões nos religuem ao outro. Esta ligação à ummah, a uma comunidade de crentes, é, ainda, estranha a uma constelação civilizacional (ocidental) na qual vínculos como os da pátria tendem a primar (preocupamo-nos mais em saber se o “jiahdista” é português, antes de saber se era, por exemplo, cristão - antes da 'conversão', é claro). Este foco de polarização identitário é muito forte na formação de “Bin Ladens” (leia-se, já com alguns anos, o “Criando Bin Ladens”, de Zachary Shore); d) a religião vivida como ideologia totalitária, sem espaço para liberdade: “é uma religião de paz depois das pessoas viverem sob os mandamentos de Alá”. Quer dizer, aqui não vigora o “liberdade é, também, liberdade para o mal” (BentoXVI, Spe salvi); e) não há separação entre “Deus e César”, daí que, por exemplo, a educação esteja apenas ao serviço de Deus e uma disciplina, como a filosofia, que coloque em causa a “unicidade” Deste é banida. A dificuldade ou impossibilidade de articulação do pluralismo na concepção de Deus fica aqui, igualmente, bem exposta.
Dito isto, na entrevista há espaço para a revelação da procura de um sentido que assume, não raro, uma declinação de negação do/deste mundo – “não procuro possessões mundanas. Apenas o prazer de Alá. Porque o além é melhor e mais longo do que este mundo” – e alguns inesperados momentos “gato fedorento”: perguntado sobre a mulher, Fábio responde, rindo, “qual delas?” e, em afirmando estar a caminho da quarta (mulher; que juntará às três a que se encontra vinculado), atira ao jornalista que se este vive com apenas uma “está a perder o comboio”, acrescentando que estas não vivem juntas “por questões de segurança”. O toque pós-moderno a uma visão do mundo – “elas gostam de andar cobertas” – que muitos descrevem como medieval.

Sem comentários:

Enviar um comentário