sábado, 11 de outubro de 2014

A 'metamorfose', para crianças (e adultos)




Quando Frederico inventa uma história com o homem-concha, abandonado, pela diferença que ostenta face aos demais, insuportável para os outros, deixado pelos próprios pais, junto à praia - e só resgatado, ao panelão de um prometido refogado, pela mulher-ameijoa -, Kafka é a referência que parece pairar sobre a pequena parábola. E, não por acaso, cremos, é A metamorfose o livro que Frederico, ele mesmo investido, na narrativa, de uma espécie de Gregor Samsa, requisita na biblioteca escolar. Ser educado, não ter o sonho de ser jogador de futebol, gostar de estar sozinho, em reclusão na sua concha, inventando histórias, poemas, objectos, coisas malucas, ter um amigo só, pode fazer de alguém o insecto indesejado que cumpre afastar. Na recusa da normalização, da banalidade, há muito humor e mordacidade - excelente a comparação entre o amor devotado a um carro e a um filho, a tabela de bolo de chocolate, cujo preço diminui à medida que se utilizam palavras como "se faz favor", ou "obrigado", o policês...tudo acompanhado da perfeita complementaridade da ilustração de Carlos J.Campos -, em uma história que não se poupa a uma filosofia, a uma moral: a irredutível necessidade de valorizar a diferença - e, em particular, a diferença para melhor. Que a há, por muito que tal contrarie algum politicamente correcto dos nossos dias, afogado na mesmice.
O Estranhão, de Álvaro Magalhães, passa por lugares clássicos da cultura portuguesa - o Pessoa de todas as cartas de amor são estúpidas -, não deixa de dar as bicadas contemporâneas mais prosaicas - a vontade de alguém ser escritor famoso cumprir-se-à com mais facilidade se alguém, além de escritor, for apresentador de telejornal -, até a uma pincelada por um país em crise (a mudança de casa de Frederico, porque os pais não podiam pagar a anterior). O jogador de futebol que é muito mau intelectualmente, mas é um génio com o corpo e a executar todos os movimentos certos num campo de futebol, expressando aí a sua inteligência; o sonho de tantos pais de terem o futuro CR8 e de tais sonhos não só serem curtos, como (quase) nunca se realizarem; os namoros pela internet que dão lugar a descobertas desconcertantes (a namorada, conhecida no facebook, para a qual se escrevera afincadamente, era, afinal, um cão), o movimento permanente entre sonho e realidade, com momentos de fôlego, como em uma das lições para aquele que ficando sempre fechado em casa julgava tudo ter descoberto (tv, frigorífico, fogão...), o que obriga a estar atento aos outros, ao que escrevem, ao que dizem, ao que inventam, frases lapidares, com apuro literário, assertivas, curtas, por vezes, provérbios, eis motivos de sobeja pelos quais soube tão bem regressar a um mundo imaginativo, lúdico, de certa maneira clássico, os das crianças que desde bebés podem ser filósofas e o dos adultos que querem contar e conhecer com elas.

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