segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Biografias e outros textos


Os antepassados de Primo Levi tinham, já, sido vítimas da perseguição da Inquisição. Ele diz que domina várias literaturas por causa do pai gostar de ler e arranjar livros que noutro lado não encontrava - Ezra Pound também liga à família, no caso ao avô que trocava correspondência, em verso, com banqueiros, a sua própria veia poética. A profissão, a química, diz-lhe imenso, diz-se muito devedora dela, forma de se furtar ao primado do espírito sobre a matéria que a escola italiana lhe inculcava. E foi a ler livros de Química que aprendeu uns rudimentos de alemão. Em Auschwitz, o saber alemão acabou por ser determinante para se conseguir manter vivo - tal como foi decisivo para que outros perecessem. Está de acordo com Heinrich Boll, foi o espírito de obediência (à lei; sem questionamentos) que levou os alemães a permitirem a Shoa: "Sim. Essa é a principal diferença entre o fascismo italiano e o sucedâneo alemão, o nazismo. Costumávamos dizer que o fascismo era uma tirania suavizada à conta do nosso menosprezo pelas leis. E assim era. Muitos, muitos judeus italianos salvaram-se à conta disso. Quando as leis são más menosprezá-las é bom (...) Há dois meses, o meu editor pediu-me que prefaciasse um livro de Rudolf Hoss. Sabe quem é? O director de Auschwitz. É um livro de primeira linha, na minha opinião. Escrevi mais ou menos isto: «Em geral, quando se pede a um escritor o prefácio de um livro, a razão é ele adorar esse livro, achar que esse livro é belo. Bom, caro leitor, este livro não é belo. Não o adoro; odeio-o. Mas é muito importante, porque nos ensina como um homem normal pode ser distorcido por um regime até se tornar no assassino de milhões de pessoas». Hoss teve de facto um juventude difícil (...) Em todo o caso, era constituído pela mesma matéria que nos constitui a nós. Era feito de matéria humana. Não nasceu criminoso. Não era uma aberração. Era um ser humano normal. Mas, quando entrou naquele caminho do nacionalismo e, depois disso, de educação nazi, a sua formação tornou-o um Jasager - aquele que diz sempre «Sim». Cumpridor da lei. Não lhe importava, na época, que a lei coincidisse com as palavras de Hitler e Himmler. Afirmou com franca sinceridade que teria sido impossível, tanto para ele como para os restantes alemães, desrespeitar uma ordem de Himmler. Eram treinados para obedecer pontualmente a todo o tipo de ordens - não a julgar o conteúdo da ordem. Simplesmente obedecer". (entrevistas da Paris Review,2, Tinta da China, 2014, p.272/273).


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