sábado, 4 de outubro de 2014

Da família (III)


Uma coisa que talvez faltasse lembrar, por exemplo com o pe.Carreira das Neves de Deus existe? (Presença, 2012), agora que o tema da família volta em inúmeras discussões - natalidade, a welfare family em vez do welfare state, as diferenças entre Norte e Sul europeus e os divergentes modelos familiares, os novos tipos de família, sínodo dos Bispos dedicado às famílias, etc., etc. - é que uma das principais rupturas culturais de Jesus, como bem assinala o investigador, foi com a família (p.199 e ss.; naturalmente, remetendo, em particular, para Mc 3, 31-35; a par desta ruptura, também muito saliente aquela que assumiu com o sistema religioso judaico, da questão do Sábado à refeição com pecadores, a convivência com leprosos, coxos, cegos, publicanos, mulheres, até à defesa do universalismo da salvação; ruptura com a morte; com João Baptista; com os discípulos). Note-se que muitas vezes a exegese bíblica, ou, a fortiori, histórica, vai, justamente, a estes traços de quebra cultural, para procurar identificar aquilo que, em definitivo, só podia ser de Jesus - ninguém, naquele mundo (da vida), se atreveria a afirmá-lo; só pode ser dele/Dele. Precisando, uma ruptura no sentido do alargamento da família a quem não é da família: "o que fizer a vontade de Deus é meu irmão, minha irmã e minha mãe". Vontade de um Deus que é Amor. 
Está louco, disseram, então, e era este radicalismo, tão contra-cultural há dois mil anos como hoje, que gostaria, este blogger, fosse devidamente recordado agora que o sínodo se confronta com as famílias hodiernas. 
Vindo nós de semanas de intensa participação de Frei Bento Domingues na nossa esfera pública, é de uma crónica dele, de 2005 (18/12/05), no Público, claro, de que assim me recordo:


"Para o Evangelho de S. Marcos, a família de Jesus tentou detê-lo porque o seu comportamento, em relação à vida familiar, era a de um louco (Mc 3, 20-21). O seguimento do texto mostra onde estava a loucura: ou invadia a casa com estranhos ou ia fazer família com quem não era da família (Mc 3, 31-35). De facto, o que ele andava a construir eram parábolas reais, vivas, extremas, do sonho de um mundo todo família. Como diz S. João, o seu grande desígnio não era nem familiar nem tribal nem nacionalista. Pretendia "reunir todos os filhos de Deus dispersos" (Jo 11, 52). E na construção dessas arrojadas parábolas, atrevia-se a dar um salto imenso: porque sois todos irmãos, a ninguém na terra chameis pai, pois um só é o vosso Pai, o celeste (Mt 23, 8).
O que mais interessa à curiosidade actual, a vida privada de Jesus, não interessa nada aos autores do Novo Testamento. Estes sabiam que a paixão de Jesus era e é tornar o mundo todo uma família ilimitada. É a partir deste horizonte que pode ser pensada uma profunda reforma da família actual: esta deve ser o espaço onde cada um descobre que a sua família não é só aquele agregado e suas ramificações. Mas, por vezes, nem ao mais elementar se chega nesta quadra do Natal. Nem parece que Jesus nasce para todos. Por outro lado, quando na Missa se reza o Pai-Nosso, os familiares estão todos juntinhos, regalados em privatizar o próprio Deus: quando se saúdam, fazem de conta que fora do sangue não há irmãos.
Dois mil anos de cristianismo foram assim tão perdidos? Não foram nem são. Há muitas pessoas e grupos cuja profissão é fazer família com quem não é da família. Mas há sobretudo Jesus Cristo: o homem para Deus e para os outros. Ele é o mundo às avessas".


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