domingo, 5 de outubro de 2014

Da pregnância da morte



Ser e tornar-se adulto tem muito a ver com a palavra da morte, com aquela eminente função pedagógica que ela desempenha na formação de uma recta e plena consciência de si próprio e das coisas do mundo. A vários séculos de distância de Sócrates (ou melhor, de Platão, que nos narra a vida do seu mestre), o filósofo alemão Martin Heidegger, no seu texto que mais influenciou a cultura e o pensamento do século XX, Ser e tempo, afirma que só antecipando o pensamento da própria morte é que um ser humano alcança a sua plena autenticidade.
Ao dizer a si mesmo, «Eu morrerei», e não apenas, «O ser humano está destinado à morte», é possível conquistar uma posição não fictícia em relação ao mundo e o próprio destino singular no mundo. (...)
Com efeito, só nesse trauma podes chegar a conhecer o teu carácter indispensável e irrepetível. É aí que, talvez pela primeira vez, chegues a intuir de longe o mistério sempre fugaz de seres um sujeito humano, um sujeito chamado e obrigado a dizer: «Eu»: Ninguém antes de ti e ninguém depois de ti pode viver essa experiência em teu lugar. É uma consciência frente à qual cada um é literalmente insubstituível. A própria morte, porém, que nos destina ao nosso desaparecimento pessoal, constitui-se testemunha do facto de que o mundo não teve nem nunca terá outra pessoa como tu. E não é nada fácil aguentar o peso deste apelo à individualização da própria história, que abre caminho por entre a consciência da própria mortalidade. Aqui bate o ponto: a morte ensina que a vida é um pequeno feudo precioso atribuído a cada um, que deve ser cultivado e guardado não só com atenção, mas também com um toque específico que compete à singularidade que eu sou, que tu és. Um trabalho a levar a bom termo com paixão e verdade, e, digamos também, com originalidade. Mas é justamente um trabalho a conduzir até à noite, e não para além dela. (...)
Por isso, embora mergulhados nos nossos compromissos e deveres, não podemos nem devemos deixar de alimentar o cuidado desta nossa dimensão interior, do facto de que somos palavras irrepetíveis lançadas ao mar do ser. Devemos fazer renascer, continuamente, este nosso «eu» interior, através da leitura, da música, do estudo, do culto, da devoção. Desse modo cultivamos beleza no horto da nossa alma. Construímos amizades estelares com os grandes que viveram antes de nós. Estreitamos laços profundos com as mentes mais penetrantes que também brilham no cosmo actual: escritores, músicos, poetas, artistas, místicos e profetas de todas as latitudes e de todos os credos. (...)
A fé cristã acompanha todo este processo de revelação da própria unicidade indispensável com uma promessa simultaneamente forte e frágil: a promessa da vida eterna, que não anuncia um despojamento total da singularidade de cada um em favor de uma plenitude genérica de humanidade. Anuncia, pelo contrário, que, no dia do juízo, cada um receberá finalmente, diante de Deus, o nome que revela a forma e a paixão com que levou a cabo os seus dias. Será então como se limpasse um diamante de escórias que o envolveram e fizeram surgir da escuridão da terra.

Armando Matteo, Qual o teu caminho? Em conversa com os jovens, pp.33-37

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