segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Do papel do estadista


Acredito que um político tem como uma das missões procurar persuadir os cidadãos do bom fundamento da sua visão da sociedade, dos ideais políticos que professa, das medidas de reforma que preconiza - e não apenas, necessariamente, ser um seguidor do que já está. Quando Pereira Coutinho argumenta, com Burke, que ao povo "deveis dar-lhe o benefício que ele pede - não aquilo que pensais que é o melhor para ele" (p.70) parece-me que leva tão longe a crítica aos desvarios da razão - e sobre os monstros produzidos pela razão, a escolha do quadro de Goya, por Vítor Gaspar, não deixou de ser lida como severa auto-crítica - que, por outro lado, como que reconduz o conservadorismo a um populismo. Se a história - a começar pela recente - deixa bem à vista as trágicas consequências do fanatismo ideológico, prova, igualmente, que as vozes encantatórias que, simultaneamente, resistiram (a ratificar o sentimento e axiologia predominantes, instituições aceites maioritariamente, em uma dada comunidade, em um dado momento) e contribuíram, determinantemente, para mudanças fundamentais em diferentes geografias, eram realmente urgentes. Um motivo estrutural, portanto, para nos afastarmos da convicção política do autor.

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