quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Do trágico em medicina


Bem vemos que os últimos dias tendem a poder trazer de volta a peste para escalas impressivas, o que pode desmentir a visão de Céline, que perscruta a dimensão sacralizada da medicina (para ele indissociável de uma tragédia perdida). 




Sentia uma tremenda admiração pelos médicos. Isso, sim, parecia extraordinário, se parecia. A medicina era a minha paixão. [O que representava um médico, na sua infância?] Simplesmente um homem que vinha à Passage Choiseul para ver a minha mãe doente, o meu pai. Via um tipo milagroso, era o que eu via, que curava, que fazia coisas surpreendentes a um corpo sem vontade de trabalhar. Parecia-me uma coisa fantástica. Ele tinha um ar muito sábio. Eu achava aquilo absolutamente mágico. (...) Bah! Agora, é tão maltratado pela sociedade, que tem concorrência de toda a gente, já não tem prestígio, já não tem prestígio. Desde que se veste como um empregado de bomba de gasolina. Heim? Já não tem muito a dizer: as donas de casa têm a Enciclopédia Larousse de Medicina e, além disso, as próprias doenças perderam prestígio, há menos doenças, senão veja: já não temos sífilis, gonorreia, tifóide. Os antibióticos acabaram com muita da tragédia da medicina. Já não há peste, cólera.

Louis-Ferdinand Céline, Entrevistas à Paris Review, 2, p.68-69.


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