domingo, 19 de outubro de 2014

O Brasil decide


Foi por se desligar das sugestões dos marketeiros e ser mais espontâneo que Aécio Neves recuperou terreno, entre os eleitores, segundo o próprio, em entrevista à Veja. Além disso, a sua candidatura, apostando em uma lógica racional, naufragou após a onda emocional provocada pela morte de Eduardo Campos. Realizado o luto, muito do eleitorado - paradoxalmente, até, devido aos ataques do PT a Marina, que conseguiram colocá-la em cheque face aos eleitores - regressou ao PSDB (o debate na Globo foi, igualmente, muito importante). Feitas as contas, Marina Silva acabou com o eleitorado já conquistado nas últimas eleições, que, segundo o cientista político entrevistado por aquela publicação, é, em grande medida, pós-materialista e tem preocupações - ambientalistas, de qualidade de vida, reforma do sistema político...- que o fazem votar sem pensar, primordialmente, na carteira. 
Que problemas os brasileiros hoje mais sentem? Se quisesse dar uma resposta de marketeiro, assume Aécio na entrevista à referida newsmagazine, diria que era a corrupção. Mas não: é a qualidade, as insuficiências, ou degradação dos serviços públicos que mais ocupam os brasileiros. E, todavia, nos dois debates televisivos do segundo turno, o mesmo Aécio assentou todas as baterias na questão da corrupção. Talvez porque é aquilo que mais rende - aquilo que seria o foco do marketeiro -, talvez porque, como o tucano reconhece, será altura de, além da razão, dar um toque de emoção à sua campanha (quanto à espontaneidade, quando se vêem ambos os candidatos, nos debates televisivos, a responderem ao adversário, mas virados para a câmara televisiva e não olhando, sequer, o parceiro de frente-a-frente, estamos conversados). 
Os dados das primeiras sondagens desta segunda volta mostram que 66% do eleitorado de Marina se deixou cativar por Aécio (que, embora mediaticamente, e a milhares de quilómetros, não seja dito, recebeu, igualmente, apoio de outros partidos, nomeadamente os situados mais à direita). Embora se possa referir que há um empate técnico, a verdade é que são já quatro as sondagens, conhecidas neste segundo turno, que dão a vitória a Aécio (o que, somado à dinâmica de vitória que vem da primeira volta, pode ser um indicador relevante). A disputa final pelo eleitorado indeciso constitui a dúvida que resiste. Há uma classe média que entre pretender passar para o patamar de rendimento e consumo seguintes - que achará mais possível com uma dinâmica económica que percebe mais conseguida em Aécio - ou regredir socialmente - também, aqui, é Aécio que polariza, mas no sentido em que se questiona até que ponto os amortecedores sociais serão tão importantes como no governo PT - hesita. O suspense da eleição poderá ser o suspense em torno do desenlace desta hesitação. 
Em todo o caso, Aécio promete manter, "melhorar" e "ampliar, se necessário" o Bolsa Família - um programa social emblemático dos anos PT, apesar da controvérsia acerca da sua génese - e diz que quer ser conhecido, "daqui a 100 anos", pela "revolução na educação", a saber, "universalizar uma educação de qualidade" (o que o seu congénere português do PSD, líder de um governo que se propõe cortar mais 700 milhões na Educação, não subscreveria, muito provavelmente). 

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