domingo, 5 de outubro de 2014

Política (III)





Piketty não apenas sublinha que a reprodução social é muito maior nos EUA do que nos países nórdicos – sendo que Alemanha, França e Inglaterra estão em postos intermédios a este respeito -, colocando em causa o mito de que a mobilidade social seria o grande atractivo americano – uma constatação que já Stiglitz fizera em O preço da desigualdade -, como, adicionalmente, estabelece uma relação entre essa ausência de mobilidade social nos EUA com os fortíssimos valores de propinas no acesso às melhores universidades daquele país, como, a partir daqui, prognostica, baseando-se no brutal aumento destas propinas nos anos 1990-2010, um agravamento da situação de reprodução social. Mais: a admissão às universidades norte-americanas assenta, por vezes, na capacidade prevista dos pais dos futuros alunos daquelas instituições de ensino de fazerem doações às universidades (“um estudo revelou mesmo que as doações feitas pelos antigos alunos à sua universidade eram estranhamente concentradas nos períodos em que os filhos estavam em idade de se candidatar à universidade”, p.727). Note-se que “confrontando as diferentes fontes disponíveis, podemos, aliás, estimar que o rendimento médio dos pais dos estudantes de Harvard é actualmente da ordem dos 450 000 dólares, ou seja, aproximadamente o rendimento médio dos 2% das famílias norte-americanas mais ricas. O que parece pouco compatível com a ideia da selecção unicamente fundada no mérito. O contraste entre o discurso meritocrático oficial e a realidade parece aqui particularmente extremo”.
O investigador francês considera, no entanto, que longe de esgotar-se nos EUA, a questão do acesso à universidade é um dos problemas centrais para o Estado Social no século XXI.
Quando, no Quebeque, em 2012 se avançou para o aumento das propinas à americana, a revolta estudantil veio para a rua, o governo caiu, a medida desapareceu.
Não existindo um sistema ideal, para Piketty nem sistemas de empréstimos, nem propinas adaptadas ao rendimento dos pais: o que tem provado melhor – vide países nórdicos – é um forte financiamento público, tal como sucede na saúde, p.ex., embora os tempos de dificuldades no Estado Social tendam a criar empecilhos a tal solução.


* “As propinas elevam-se a 54000 dólares por ano para um estudante universitário em Harvard em 2012-2013, incluindo alojamento e outras despesas (de que 38000 dólares para as propinas em sentido estrito”(p.741, nota de rodapé 30)

* “As propinas máximas que podem ser exigidas pelas universidades britânicas ascenderam a 1000 libras em 1998, 3000 libras em 2004, e 9000 libras em 2012. A parte das propinas nos recursos totais das universidades britânicas parece estar em vias de recuperar nos anos de 2010 o seu nível dos anos de 1920 e de igualar o nível norte-americano” (p.742, nota de rodapé 35)

* “A Baviera e a Baixa Saxónia acabaram de decidir no início de 2013 pela supressão das propinas de 500 euros por semestre e pela aplicação, tal como no resto da Alemanha, da gratuitidade total. Nos países nórdicos as propinas não ultrapassam umas poucas centenas de euros, tal como em França” (p.742, nota de rodapé 36)


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