domingo, 16 de novembro de 2014

Guardas a dor no cofre/no olhar o gelo quente



A banda sonora do fim de semana. Gostei mais do que esperava do concerto, comentei, no fim. Escolhi esta canção, que na sexta passou pelo Grande Auditório, do Teatro vilarealense, escrita pelo Carlos Tê e interpretada pela genuinidade, alma imensa, garra, autenticidade, fibra, verdade de Manuela Azevedo. Provavelmente, não por acaso fez lembrar-me, descobri-lhe analogias com "nesse teu jeito fechado/de quem mói um sentimento", do Porto sentido, do Rui Veloso ou ainda "ai de quem nunca guardou/um pouco da sua alma/no fundo de uma gaveta" - que poderia, assim, ser o cofre onde a dor se guarda - do repertório do mesmo autor. Bom público tiveram os Clã, e disse-lhes que sim, mas que esperava casa totalmente cheia e que me lembrava ainda da loucura com Abrunhosa no Calvário, quando todos os temas sabidos de cor e cantados a plenos pulmões por 6 mil almas, davam lugar a verdadeiro êxtase que, de resto, o espírito deste tempo nem consente.

Tu nunca choras ao ver sangue
Tu nunca sangras quando sofres
Guardas a dor dentro do cofre


Se alguém decifra o segredo
E se pica no teu ferrão azedo
Tu lambes-lhe o sangue do dedo
Tu nunca choras ao ver sangue
Tu nunca ficas transparente
És daquela raça tão rara
Que tem no olhar o gelo quente


Se alguém te atinge o coração
Aguentas o baque
De frente
E sentes uma oscilação


Defendes-te com uma paixão competente
E encarnas tão impunemente
A pele de um animal de sangue quente
Que ama a sangue frio 

Tu nunca choras ao ver sangue
Tu nunca ficas transparente
És daquela raça tão rara
Que tem no olhar o gelo quente
Gelo quente
Quente e frio
Carlos Tê, cantado por Manuela Azevedo

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