quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Ora aí está o debate ideológico no interior do PS


Estranhamente deselegante, Francisco Assis ao não mencionar o autor do texto, Tiago Barbosa Ribeiro, que escolheu para encimar o seu artigo de hoje no Público. A condescendência, de tipo paternalista, que usa quando fala do "jovem" ou dos "jovens", em sucessivas colunas de opinião, em que responde a remoques que lhe chegam da esfera pública, do interior socialista, a posicionamentos ideológicos seus, também me parece que seria dispensável. Dito isto, não vejo na entrevista de ontem ao Observador, por parte de Assis, qualquer tipo de ziguezague (como aponta Tiago Ribeiro): bem ao invés, este tem sustentado, coerentemente, que a haver uma coligação, por parte do PS, ela deve ser realizada com o PSD. Concorde, ou não, a maioria do PS com esta postura; acompanhe-a, ou não, o novo secretário-geral, ela vem sendo reiteradamente assumida pelo entrevistado de ontem do jornal referido on-line. Propôs, aliás, o eurodeputado, na disputa interna entre António Costa e António José Seguro, que o tema das coligações pudesse funcionar como factor distintivo (do ponto de vista político, que não pessoal ou pessoalizado).
Todavia, o texto de Tiago Barbosa Ribeiro - com o qual Assis, manifestamente, se irritou - tem como principal mérito o deslocar a discussão de qualquer plano (puramente) táctico para o das concretas políticas perante as quais há que tomar posição. E aí, Francisco Assis, quando, p.ex., fala em "capitalismo desregulado" terá que dizer, por exemplo, se entende que as alterações à legislação laboral, nos últimos anos - a revisão do Código de Trabalho é preconizada por Tiago Ribeiro - entra ou não nesse âmbito - e por que é que o PS, na AR, votou como votou algumas das alterações legislativas. Não basta um genérico "há coisas com que concordo" nas mutações preconizadas, em termos políticos, pela esquerda do/no PS.
O argumento da saída do euro, das claras diferenças de posicionamento face à Europa é, no entanto, forte e, a meu ver, convincente para se recusar, como Assis faz, uma coligação PS-PCP (as últimas europeias, por exemplo, foram muito reveladoras quanto à incompatibilidade de projectos). 
Se, todavia, a discussão se centrar no posicionamento face a grandes políticas - Pacto Orçamental, Código de Trabalho, dívida, reforma fiscal -, então o PS terá o tal debate ideológico que muitos assinalaram não ter existido entre Costa e Seguro. 
Costa que, diga-se, se aproximou mais de Tiago Ribeiro, julgo, ao rasgar o acordo para o IRC, que Seguro estabelecera com a maioria governativa, mas que ao inventar, tacticamente, um sebastianismo social-democrata em Rui Rio (potentado social-democrata, ali, até há um/dois anos pouco identificado, mas, entretanto, tornado unanimidade) parece, estruturalmente, em matéria de coligações, mais próximo de Assis.

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