segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Inferno (II)

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A única verdade que se deduz dos Evangelhos é a inexcedível vontade do Deus de Jesus Cristo de salvar todos os seus filhos: 

*«Deus, nosso salvador, que quer que todos os homens sejam salvos» (1 Tm 2,3-4);
* «Jesus Cristo, aquele que morreu, mais, que ressuscitou, que está à direita de Deus é quem intercede por nós (Rm 8,34)
* «Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele» (Jo 3,17)

O Inferno existe, certamente, mas dentro de nós.

O Inferno existe, mas não é um lugar criado por Deus para punir, no termo da vida, quem se tiver portado mal. É uma condição de infelicidade e desespero criada pelo pecado. Contudo, é possível sair do inferno do pecado: se formos libertados por Cristo e pelo seu juízo de salvação (Fernando Armellini)

(...)

Onde está o Inferno? Está em nós. Em cada um de nós estão os infernos, e nos infernos estão os demónios, e os demónios não vêm de fora, mas do nosso interior, constituem uma parte importante do nosso ser, são a sombra do nosso ser (Giovanni Vannucci)

O Inferno não tem sentido, nem em Deus, que cria, gerando para a vida, nem no homem criado para ser filho de Deus. É um absurdo [...] Nenhum pecado se equipara à vontade de salvação trazida por Cristo. O sim de Deus é maior do que o não do pecador; é de uma ordem dife-rente, e divina. Como poderia o não da criatura prevalecer sobre esse sim infinito? [...] A santidade de Jesus é maior do que todos os pecados da humanidade juntos (François-Xavier Durwell, La parola di Dio e l'Aldilà)

Paolo Squizzato, Por último virá a morte...e depois?, Paulinas, 2016, pp.68-69

Inferno


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Sobre o Inferno:


Para compreender como se chegou a pensar e definir o Inferno, como - infelizmente - se continua a conceber ainda hoje, devemos remeter-nos para a Bíblia e aprofundar um termo fundamental da tradição teológico-escriturística do antigo Israel: o sheol. Trata-se de uma palavra hebraica cuja raíz não é muito clara; significa, provavelmente, «aquele que engole».
Para a teologia bíblica do antigo Israel, a este sheol estavam destinados todos os homens depois de mortos, independentemente do seu comportamento sobre a Terra; por isso, tanto maus como bons, santos ou pecadores, acabavam todos juntos nessa espécie de depósito onde estavam destinados a mover-se como sombras por toda a eternidade, mas sobretudo afastados da presença de Deus porque, como já foi afirmado acima, o Deus de Israel é o Deus que só se ocupa dos vivos, e apenas com eles se preocupa.
Depois da diáspora, que levou os judeus a espalharem-se pelo mundo, surgiu a necessidade de traduzir a Bíblia para grego, para aqueles que vivendo, precisamente, longe de Israel, já não conheciam o hebraico. Os tradutores tentaram traduzir o termo sheol pensando na realidade da cultura grega mais próxima do mesmo. Na mitologia grega, Zeus era o deus do céu, Poseidon, o deus dos mares, Hades, o deus reinante no Além. Daí a utilização do termo hades para dar a ideia do sheol hebraico. Ora, os problemas surgiram quando se começou a falar latim e os tradutores da Bíblia, do grego para o latim, depararam com o termo hades. O procedimento foi o que já se adotara anteriormente: olhou-se para a mitologia romana, procurando nela uma imagem que se pudesse equiparar ao hades grego, e encontrou-se aquele termo que viria a ter tanto sucesso nos séculos seguintes, ou seja, inferi, nome do mundo das divindades que habitam o reino subterrâneo dos mortos. Por isso devemos esclarecer, desde já, que os termos sheol, inferi (e não Inferno!), traduzem todos a mesma realidade: reino dos mortos e nada mais!
Na antiga profissão de fé cristã, denominada Credo apostólico, lê-se: «Jesus morreu, foi sepultado e desceu à mansão dos mortos», e não ao Inferno! E o que significa, portanto, desceu à mansão dos mortos [inferi]? Significa, simplesmente, que a ressurreição de Jesus foi um acontecimento de um alcance tão grande que tocou, com a energia que dele brotou, todos os mortos, inclusive os que estavam encerrados no sheol, no hades e, portanto, na mansão dos mortos. Tenhamos presente que a palavra inferno, com todo o imaginário colectivo que ainda hoje lhe atribuímos, não existe no Evangelho! (...) A palavra inferno aparece pela primeira vez num documento oficial da Igreja em 359 d.C., numa profissão de fé denominada Quarta Fórmula de Sírmio, da autoria do sírio Marcos de Aretusa, século IV depois de Cristo! Nesse documento, fala-se de Jesus «descensus ad Inferna», que desceu ao Inferno, e não aos inferi, como se diz no Símbolo dos Apóstolos.  Neste ponto começa-se a afirmar a imagem do Inferno como «lugar físico», criado pelo próprio Deus para castigo dos malvados, com a presença do fogo (extraído dos textos citados acima [Mt 25,41; Mt 5,30; Mt 11,23; 16, 18] ) que vai sendo pouco a pouco povoado de personagens demoníacos tremendos. Tudo isso se agrava nos séculos XIII a XVIII. Na Idade Média, acaba por se formar um imaginário colectivo que se arrastará - desgraçadamente - até aos nossos dias. Um imaginário que tem influenciado poetas (pensemos em Dante, na Divina Comédia), e artistas, como Miguel Ângelo, que introduziu esse imaginário no sublime e tremendo Juízo universal da Capela Sistina, em Roma.
Continuando na arte figurativa, pensemos noutros juízos universais como aquele - grandioso e magnífico - da Catedral de Santa Cecília em Albi, França, ou naqueloutro da autoria de Luca Signorelli, na Capela de São Brísio, na catedral de Orvieto. As imagens são tremendas: corpos dilacerados por terríveis suplícios, esquartejados, feridos, queimados, esfolados, aguilhoados por várias fileiras de anjos. Sim, porque a mensagem que deve passar é que tudo aquilo que o fiel contempla naqueles frescos é o suplício que Deus reserva a quantos morrem em pecado mortal, sem se terem reconciliado com Ele, ou que optaram de forma consciente por uma vida afastada dele. 

Paolo Scquizzato, Por último virá a morte...e depois?, Paulinas, 2016, pp.53-63.

Para o Dia de todos os santos


Onde estão, portanto, os nossos mortos?

Não estão no céu, mas em Deus, no qual uma pessoa se insere, no decorrer da história, mediante o amor vivido.  Quando tivermos deixado o corpo, continuaremos a existir como pessoas em Deus!

O «céu» [...] não é um lugar sem história, «aonde» se chega; a existência do «céu» tem por fundamento o facto de Jesus Cristo, enquanto Deus, também ser homem e ter dado ao ser humano um lugar na própria essência de Deus. O homem está no céu quando e na medida em que está com Cristo, e encontra, portanto, o lugar do seu ser homem no ser de Deus. Por isso o céu é, primeiro que tudo, uma realidade pessoal (Joseph Ratzinger, Escatologia).

Compreendemos, assim, que expressões tais como regressou à casa do Pai, subiu ao Céu, foram abertas de par em par para ele as portas do Paraíso, na prática não fazem sentido. Não há uma solução de continuidade, é um continuum. Não se entra no Paraíso, já se está lá. Não se sai do Amado, já se está imerso no Amor. É uma questão de cumprimento.

Paolo Scquizzato, Por último virá a morte...e depois?, Paulinas, 2016, pp.53-54

domingo, 30 de outubro de 2016

Telejornais


Imagine que é editor do Telejornal. Pode começar o noticiário com a questão do Tratado Transatlântico. Sabe que para fornecer alguma chave de leitura para o que se está a passar, necessita de entrar em cena com conceitos como proteccionismo, livre-comércio, globalização, reforma laboral. E pensa: com tanto conceito abstracto, há muito que o pessoal bocejou, mudou para a TVI - ou, com tvcabo, para a CMTV - e está nos incêndios  no Pedro Dias. Mas como editor experiente, sabe que os reallity shows são péssimos e que a questão do Tratado de Comércio Livre terá um impacto fortíssimo na vida das pessoas nas próximas décadas. E como leitor de Sartori há muito aprendeu que só evoluímos quando passamos de vocábulos muito concretizáveis - mesas, cadeiras, camas -, para conceitos abstractos como Estado, democracia, proteccionismo ou comércio livre. É adepto do "dar às pessoas o que elas querem" (mas que na verdade foi você, o editor, que lhe impingiu em doses industriais), ou assume ser um homenzinho, acredita seriamente no que faz, assume a sua responsabilidade (aceita o seu poder de editar, e não se aliena, nem ajuda a alienar)? Mas perceba: ainda temos muito que nos qualificar - e nem a "qualificação" é garante, ainda assim - para nos propormos a seguir o tratado transatlântico em vez do voyeurismo, o gosto pelo escândalo, o sensacional, o crime. Perguntam-me, de resto, se ainda existe o jornal Crime. Confesso que não faço ideia, mas não me recordo de o ver das últimas vezes que olhei para os jornais, no quiosque. E, logo, respondo: se um partido de direita avocar a si as causas de um partido de extrema direita, admiras-te que este último fique sem freguesia? Das intervenções mais corajosas de Francisco Assis foi chamar as coisas pelos nomes aos Correios da Manhã desta vida. Falo com um amigo ligado a um força de segurança das redondezas: o telefone não pára, mesmo madrugada dentro. Três da manhã: "senhor agente da autoridade, os cães estão a ladrar muito, isto não é normal!"; houve arbustos a mexer-se de modo esquisito e trinta mil do arco da velha. Pior é difícil.


sábado, 29 de outubro de 2016

Pedagogia


Passando a documentário muito do que se tem escrito acerca de - da republicação de - Mein Kampf, e as diversas recepções que vai merecendo, com mais comentário, ou menos edição crítica, nos mais diversos países, a RTP1 transmitiu, na última segunda-feira, uma síntese muito razoável do que esteve (e está) em causa com o livro em questão. Do muito que já sabíamos - das escassas vendas iniciais, à cegueira das elites com o programa político nele descrito, as teorias raciais pseudo-científicas de cientistas que faziam, então, opinião e nas quais pôde apoiar-se o autor, até vendas esmagadoras quando Hitler chega ao poder, tornando-o milionário (com autarquias e empresas a oferecerem-no em festas de anos, ou casamentos, bem como bónus de produtividade), passando-se pelo questionamento acerca de até que ponto foi mesmo lido, dadas as suas 700 páginas e aridez panfletária, culminando, ainda assim, na sua recitação, em excertos pelas ondas magnéticas da propaganda (de Goebbels) que colocava transístores de baixo custo para vencer a batalha das ideias junto do povo, até essa questão extraordinária, a quando da venda, em França, por Sorlot, do livro escrito na cadeia pelo futuro fuhrer, de se colocar, em tribunal (de Comércio, de Paris) a disputa entre o direito a alertar uma comunidade (para o perigo que enfrentava; 30 a 40% da obra era anti-gaulesa, com Hitler a nunca perdoar o Tratado de Versailles) e os direitos de autor (o tribunal deu razão à parte alemã; mas, a Polícia fecharia os olhos, e a obra continuaria a ser distribuída, perante a cegueira dos que, wishful thinking, quiseram crer que os anúncios eram maus de mais para a obra poder ganhar operatividade) - ficámos, ainda, com a curiosidade do record de vendas, em 2005, na Turquia (de regresso ao nacionalismo) e do modo como, na Índia, este livro - queimado, por muitos alemães, em 1945, após a guerra, por os ligar ao terror e tragédia acabados de suceder - é apontado, não raramente, como exemplo de uma gestão bem sucedida (de quem o congeminou e subiu, com ele e suas ideias, ao poder; o livro, o objecto livro, enquanto tal, ajudar a credibilizar o autor, agora não apenas um agitador de cervejarias, mas um, aparentemente respeitável, escritor). O fascínio - ainda que aquele exercido pelo mal em estado puro - pelo período da história em que o nazismo irrompeu em cena, bem como o carácter proibido da obra - em alguns países, e, muito especialmente, durante muito tempo na Alemanha, onde surge acompanhado de minuciosos comentários críticos que visam auxiliar a desconstrução das fantasiosas elaborações hitlerianas - explicarão, em boa medida, a procura que o livro tem, um pouco por todo o globo, de modo incessante, (mesmo) desde o final da II Guerra Mundial.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

O olho profético

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A condição de incompletude, tornada dramática pela doença, a sua pessoal e a de Mary Ann, não é, para Flannery O'Connor, motivo de angústia nem ocasião propícia para meditações lamentosas - embora legítimas - sobre a debilidade e a fragilidade da existência.
Mas o que mais impressiona é o facto de que não haja espaço nem para naturais e profundas perguntas sobre a dor inocente nem para reflexões sobre a morte, que caracterizaram o século XX literário em algumas das suas altíssimas expressões. A cifra do mal não é a détresse nem a angústia, nem a «dejeção» - termo heideggeriano - do homem no mundo, mas a incompletude, a condição de estar à espera de adimplemento, que mobiliza uma acção criativa (creative action) e contínua (continuous action) para a qual tudo, bem e mal, são recursos. (...) Flannery está de tal modo consciente do que está a dizer que cita os autores que, mais e melhor do que outros, souberam talvez interrogar-se de modo visceral com o drama da dor, ou seja, Camus e Dostoievsky.

Uma das tendências da nossa época - escreve ela - é utilizar o sofrimento das crianças para desacreditar a bondade de Deus, e uma vez desacreditada a sua bondade, desfazer-se dele. [...] Ocupados em diminuir a imperfeição humana, fazem também progressos na matéria-prima do bem. Ivan Karamazov não consegue crer, enquanto houver uma criança que sofre; o herói não pode aceitar a divindade de Cristo, por causa da matança dos inocentes de Camus.

A reflexão que se segue talvez seja desconcertante, mas é de rara coragem, expressa com o estilo essencial, claro, imediato e direto que caracteriza a prosa da escritora:

Nesta piedade popular, assinalamos o nosso ganho em sensibilidade e a nossa perda em visão. Se outras épocas foram menos sensíveis, embora vissem mais com o olho cego, profético e insensível da aceitação, ou seja, com o olho da fé. Agora, na ausência desta fé, governamos pela ternura. Uma ternura que, já há muito separada da pessoa de Cristo, está envolta na teoria. Quando a ternura está separada da fonte da ternura, a sua consequência lógica é o terror. Acaba nos campos de trabalho forçado e nos fumos das câmaras de gás

Lidas estas linhas, estremecem as veias e os pulsos, fica-se com a respiração suspensa e nota-se a necessidade de relê-las, pois parecem óbvias e, ao mesmo tempo, desconcertantes. Talvez demasiado. Pergunta-se se elas são fruto de um frio cinismo ou de uma fé de tal modo ardente que queima. Nem sequer uma palavra é dedicada à «justificação» de Deus, da sua imobilidade perante a dor inocente e incompreensível: nenhuma rebelião, nenhuma fácil teodiceia. Não se buscam (e não se encontram) respostas para o problema do mal, nem sequer se faz referência à responsabilidade do homem como álibi para «absolver» Deus e para ajudar o homem a ser mais responsável. Nada disso. Flannery O'Connor chega mesmo a polemizar de modo subtil, mas evidente, com o bispo D.Hayland que, ao celebrar os funerais da menina, se interrogou porque é que ela morrera? Segundo a escritora, pelo contrário, deveria antes perguntar-se porque é que ela nasceu, ou seja, questionar-se sobre o mistério da sua existência! (...) [O'Connor] não intenta negar que o calor do sentimento e da sensibilidade seja importante e deva ter o seu espaço. No entanto, a fraternidade, a solidariedade de Flannery é de todo não sentimental. Mais ainda, ela quer acrescentar que a alta temperatura do sentimento, paradoxalmente, corre o risco de ofuscar os olhos e de diminuir a «visão». Só uma grande capacidade de visão consegue, de algum modo, focar a perspectiva longínqua das imperfeições e das absurdidades humanas, decifrando-as como incompletudes à espera de reintegração e de pleno restabelecimento. Mas sem esta visão resta o absurdo da incompreensão e do sentimento trágico: não há vias de saída. Este olho capaz de «visão» pode ser rude, primitivo, insensível, cego e, no entanto, é «profético». (...)
Nem todos os crentes são escritores (...), mas quem tem fé tem o olho justo para ser escritor. Só assim é possível compreender a fundo o rigor com que se há-de entender Flannery quando afirma: «Escrevo como escrevo, porque sou (não apesar de ser) católica»; e ainda «[...] justamente porque sou católica, não posso permitir-me ser menos do que uma artista» (...)
Porquê esta afirmação tão drástica [de que a caridade, fora de Cristo, conduz ao terror] (...)? Porque o risco é a transformação da caridade em ideia ou, melhor, em ideologia do bem pela humanidade. A caridade que não sabe aceitar a incompletude (e não apenas a debilidade) da condição humana, como a conhecemos, arrisca-se a permanecer cega, enredada num confronto com a utopia de um homem e de um mundo perfeito e ideal, em que já não há dor e mal.

Antonio Spadaro, O baptismo da imaginação, Paulinas, 2016, pp.138-143

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Eternos



Precioso


recebi coisas preciosas: o amor de um irmão, o Ernesto [Melo Antunes], inteligente, lúcido, sereno. bom e de um valor exemplar, que uma ocasião me escreveu uma coisa que ainda hoje me ajuda.
Começava com um excerto de Platão:
"- De que te serve, Sócrates, aprender a tocar lira visto que vais morrer?
- A tocar lira antes de morrer"

António Lobo Antunes, Visão, nº1233, 20/10 a 26/10/2016, p.9

Nessun dorma


O pior de tudo são as reuniões - longas, longuíssimas, intermináveis, ilimitadas, áridas, enfadonhas. Num dos cantos da sala, um tema; no outro, em petit comité, outro assunto. Assomam detalhes pessoais, minudências que acrescentam minutos e cansaço, sem que se perceba o proveito da observação; às tantas, a DT enerva-se, eleva a voz como se falasse para os meninos que se atrasaram no recreio. Quando tempo demoram estas reuniões? 1h30 - pergunta-se, e responde-se, em tom burocrático, como se fosse indiferente a agenda, e o tempo estivesse declarado por uma administração. Mas não, chega-se a demorar 1 hora mais, duas, sai-se tardíssimo, sem lanche, jantar, ou qualquer satisfação de ordem espiritual.
Detenho-me, contudo, nos dados sociológicos que são apresentados: numa turma de 27 alunos, 26 encarregados de educação são mães e um é pai. Na estação seguinte, com 25 alunos, a relação é de 19/6. Elas, por norma, têm uma maior preparação académica - mostram, ainda, as estatísticas. Uma outra questão surge, com importância, face à constatação de ausência de background com que surgem os discentes àquele ano de escolaridade: sem o exame nacional, deixaram de ser dadas certas matérias - relativamente às quais os alunos aparecem tão impreparados - que são urgentes para se compreender o ano (lectivo) seguinte? (aquele em que agora se encontram) Ou, pela inversa: com o exame, os alunos teriam tido aquela matéria (leccionada), porque não se ousaria não a leccionar devido à verificação em final de ano? Há, também, no meio daquelas quatro horas consecutivas em que um homem não pode levantar-se da cadeira, a indicação de que em muitas das explicações que estão aí no mercado se recorre a fichas de livros de actividades que os alunos têm e já resolvem na escola (pelo que ou o plus da explicação não é propriamente um plus; ou a desmotivação surge na escola: a explicação tem obrigação de encontrar outros exercícios); a recomendação, aos pais, de que rasguem as folhas de soluções em exercícios de fichas de actividades, dado que a presença destas resulta, não raro, em o aluno ter completado um exercício para registo formal, mas nada ter entendido, nem conhecimento tendo, pois, adquirido; nas escolas, noto, ainda, que se tende a reivindicar aulas matinais - diferentes docentes lutando por elas -, dado considerar-se (ou, aparentemente, constatando-se) que neste período do dia há uma maior atenção/concentração no que é leccionado, por banda dos alunos.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Da psiquiatrização do mal

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Muito interessante a entrevista da neurologista Teresa Paiva, conceituada especialista em sono, ontem publicada pelo I, tendo como pretexto o caso de Pedro Dias, mas levando-nos a reflectir sobre os conceitos de determinismo, responsabilidade penal, psiquiatrização do mal, relação entre entre a secundarização do religioso e esta mesma psiquiatrização (como que se esta partisse sempre do pressuposto de que não há forma alguma de livre-arbítrio, escolha mínima ainda que condicionada -responsabilidade e dignidade -, e tudo fosse redutível a uma biologização exclusiva do indivíduo, assim medicamentado; como se se passasse de um extremo em que tudo tinha uma regulação moral exacerbada, de decisão e vontade, ignorando o "corpo", para um outro em que nada destas sobra):


Naturalmente que tem havido casos nestes últimos anos que nos levam para a mesma questão que foi muito discutida com o Vítor Jorge, que é saber se as pessoas que cometem estes atos de grande violência serão doentes psiquiátricos, pouco responsabilizáveis ou mesmo inimputáveis, ou se pelo contrário estão conscientes do que fazem. Até em crimes de grande dimensão. Quando aquele indivíduo de extrema-direita matou 70 pessoas na Noruega, apareceram logo psiquiatras a dizer que ele tinha uma doença psiquiátrica grave e era inimputável.

Já agora... Eu acho que não se mata por amor. Quando se mata não se ama. Mas os crimes passionais podem não ser por amor, são emoções erradas que não são exatamente amor. Matar uma pessoa é de uma violência extrema.
Podem não ser desculpas, podem ser as circunstâncias, mas não são justificação e não atenuam a violência. A questão que se pode colocar é se existia uma doença psiquiátrica ou não e a meu ver tem havido muita tendência de psiquiatrizar o mal, de fazer do mal uma doença psiquiátrica, o que me parece errado.

É um problema muito complicado quer do ponto de vista filosófico, quer do ponto de vista das neurociências e até social. Não é algo que possamos responder sim ou não. Mas o que vemos é que parece haver sempre uma tentativa da defesa de usar esse argumento. Quando houve aquele crime em Nova Iorque...
Também se disse que o Renato tinha um quadro psiquiátrico e depois foi condenado. É difícil estabelecer se no momento do crime havia ou não um estado psiquiátrico que retire toda a responsabilidade à pessoa. Isso pode acontecer, mas só em casos muito específicos, numa esquizofrenia talvez.

O problema que se põe é saber se, efetivamente, aquilo é uma coisa do cérebro mas, mesmo havendo algo no cérebro, se a pessoa pode ter ou não responsabilidade moral. Sabemos que há regiões do cérebro que funcionam em situações violentas e as pessoas criminosas podem ter alterações, agora isso não as torna necessariamente inimputáveis. Se não, repare: com o crescendo de entidades psiquiátricas nunca ninguém seria julgado. No último Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais (DMS-5), há uma série de perturbações psiquiátricas que podem ser associadas ao crime: perturbação de conduta, personalidade antissocial, distúrbio de cleptomania, o distúrbio explosivo intermitente, perturbação voyeurista, sadismo sexual e pedofilia. Reconhece-se que isto são alterações psiquiátricas mas isso não significa que as pessoas não sejam capazes de decidir.

Sim, mas também porque algumas alterações psiquiátricas e crimes têm factores de risco semelhantes, como o abuso sexual na infância, baixas condições socioeconómicas, ter tido traumas na infância ou ter presenciado agressões graves. De uma forma ou de outra, temos de encarar os factores de risco de uma forma não determinista. Mas não só nesta área da violência. Quando ouvimos dizer que um doente tem uma depressão porque a mãe o abandonou, quantas pessoas foram abandonadas pela mãe e fazem a sua vida?

Na sua opinião por que há esse movimento de excessiva psiquiatrização?Se metade da população tiver um distúrbio psiquiátrico, há aqui um enorme campo de intervenção.

A nomenclatura psiquiátrica é uma área ainda em grande estudo e a psiquiatria é uma ciência muito difícil, em que continua a não ser muito fácil de medir. Mesmo na neurologia, quando estudamos dores de cabeça ou insónias, se não conseguimos fazer uma medição objetiva de alguma coisa como fazemos na diabetes, do colesterol na tensão e temos de entrar com fatores de vida, do passado e do presente, é mais complicado dar uma resposta.
Tem-se entrado num extremo em que o risco é não punir, o que pode ter um impacto devastador nas vítimas. Se aceitarmos que um tipo mata a mulher porque teve um distúrbio explosivo intermitente, então desgraçadas das mulheres vítimas de violência, nunca tinham justiça. Idem para a pedofilia. São crimes com consequências terríveis ao longo da vida e que têm de ser punidos.

Temos de arranjar um sistema prisional que leve as pessoas a melhorar os seus comportamentos no futuro. Mas penso que, em termos mundiais, tem de haver uma reflexão séria se não qualquer dia tudo é uma doença. E sobretudo uma maior atenção às vítimas, que também precisam de apoio e tornam-se pessoas mais vulneráveis. Parece que nunca se analisa a perspetiva da vítima, quando ser vítima é uma coisa terrível. Andar-se anos à espera de justiça, um sofrer e reviver constante do que se passou e ver que a pessoa que lhe fez tanto mal não sofre consequências é uma coisa horrível.

Mas voltando à questão da psiquiatrização do mal. Temos de nos lembrar que houve grandes alterações das conceções filosóficas no último século, um abandono dos critérios religiosos que veio quebrar o maniqueísmo que existia entre bem e mal. Tentou-se acabar com isso, e com grandes avanços sociais – basta lembrar que depois da II Guerra os homossexuais ainda iam para a cadeia em Inglaterra. Agora tudo isso levou a uma certa relegação para segundo plano da importância da moralidade na condução das nossas vidas.

entrevista realizada por Marta F.Reis, I nº2293, pp.18-21.

Aprendemos alguma coisa?


Paul De Grauwe recorda, no suplemento de Economia do Expresso, que a quando do rebentamento da (interminável) crise que vivemos, o papel das agências foi claramente denunciado, evidenciou-se como haviam tido um papel pernicioso e fundamental na gestação da mesma, e prometeu-se alterar o statu quo a este respeito. Mas, passados todos estes anos, a inusitada confiança, e a outorga de um papel-charneira a uma agência de notação como a DRBS, por parte do BCE, continua a verificar-se em todo o seu esplendor. De Grauwe, de resto, vai mais longe: não é, apenas (e não era pouco), pelo que tinham contribuído para o descalabro em que nos situámos de 2008 em diante que deveria afastar-se a importância das agências de notação nas nossas decisões colectivas; é que, considerando o caso particular da DRBS, o Banco Central Europeu possui economistas mais do que qualificados e conhecedores (da situação concreta de cada país) para emitir um parecer muito abalizado acerca do posicionamento económico-financeiro de um país da Zona Euro (parecer muito mais seguro, por certo, do que a doxa de economistas de copy-paste, como lhes chama). Sucede, todavia, que o BCE preferiu não ter que arcar com as consequências políticas da sua decisão (quanto a um dado país), recusando-se a ficar com a responsabilidade (mesmo que a sua decisão contivesse uma qualidade, um conhecimento superior a quem é confiada a decisão). Ao ler o texto de opinião de De Grauwe lembrei-me de um livrinho de Michel Wieviorka, A nova primavera do político, no qual o autor denunciava o auto-enfraquecimento da política, quando esta tinha medo do poder (ou do povo), passando, sucessivamente, responsabilidades para comissões técnicas ou, em larga medida, tribunais (e sobre a função política destes, muito teoriza Paulo Rangel, entre nós). Desde que o escreveu, até aos nossos dias, a realidade só corroborou a asserção.

Economia, ou cultura?


Ainda no GPS, Bill Maher considerava um mito a explicação do apoio a Trump (basear-se) no operariado branco desindustrializado, pobre (ou pouco remediado), insatisfeito com a globalização: não, Trump irrompe, segundo a perspectiva do apresentador de um conhecido talk-show da HBO, porque, nos EUA, a celebridade é tudo, o que conta é o Amarican Idol, e a corrida ganha (ou quase) por um homem vindo directamente de um reallity show, contando mais o número de seguidores do twitter do que a preparação, o conhecimento, ou um conjunto de contactos ao mais alto nível estava a germinar. Isto, e o problema de os media, com uma suposta objectividade (ou julgando, assim, estar lançar mão dela) tratarem, como coisa séria, debaterem, repetirem o que Trump diz (conferindo-lhe alguma credibilidade). Como se fosse exactamente o mesmo (ao nível da seriedade) do que diz a sua opositora. Para os media, quanto mais renhida a eleição, maior a audiência. 
Esta explicação para o sucesso (ainda que não absoluto de Trump) está, igualmente, plasmada no artigo de Clara Ferreira Alves no Expresso deste fim de semana (cronologicamente posterior à emissão daquele programa da CNN, estação na qual a comentadora bate). A economia não seria o maior dos factores, antes residindo na cultura/ambiente o elemento decisivo desta eleição presidencial. Sobre isto, duas notas: 15 anos de sucessivos Big Brothers, de emergência das CMTV's deste mundo, de tablodização dos telejornais, de crime a toda a hora e instante, dos Portuguese Idol, da falta de leitores de jornais sérios, da crença na ausência de mediação como coisa boa, de caixas de comentários de jornais online, ou uso de redes sociais sem critério não levarão a que um dia a arrogância da ignorância também se derrame por estas bandas (portuguesas), com algum sucesso? Por outro lado, observadores há que, relativamente aos media norte-americanos assumem um ponto de vista diverso do enunciado por Maher: contundência de editoriais, tomada de posição, muitos fact chec, muita denúncia de mentiras do candidato republicano, assunção de apoio claro à candidata democrata mesmo por jornais que durante mais de cem anos (sempre) apoiaram o candidato republicano e, assim, o jornalismo como tendo encontrado ocasião de mostrar a sua valia em uma democracia (robustecendo-a, sendo-lhe essencial).

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Causa sui


Todavia, essa experiência é a do ser na sua ambiguidade, causando-nos, por isso, espanto positivo e negativo e levando-nos à pergunta: o que é verdadeiramente? Outra experiência fundamental, explicitando esta, tem que ver com o aparente e o real. Há sempre aquele encontro com o que nos parecia real e era apenas aparente: alguém, por exemplo, parecia cheio de saúde e, afinal, estava doente. Daqui, a pergunta: o que é verdadeiramente? Qual a realidade última? Como escreve o filósofo João Carlos Correia, a religião é, numa primeira abordagem essencial, um fenómeno cultural, de natureza pessoal e social, que engloba um conjunto de crenças, acções e emoções organizadas em torno da ideia do que se poderia designar, em termos filosóficos, como uma «realidade última e fundamental». Esta realidade última remete-nos e liga-nos ao incondicionado ou, se se quiser, ao Absoluto. De facto, o contingente, o efémero, tem como sua condição de possibilidade uma realidade necessária prévia, o incondicionado.
Aqui, pode surgir uma crítica semelhante à que Bertrand Russell fazia a uma causa primeira, a Deus enquanto causa sui, causa de si, causa incausada: se tudo tem uma causa, qual é a causa de Deus?, se o incondicionado é condição de todo o condicionado, qual é a sua causa? Simon Blackburn mostrou que a argumentação de Russell não convence: «Russell terá notado que o argumento da causa primeira era mau, mas excepcionalmente, terrivelmente mau, uma vez que a conclusão não só não se segue das premissas, como na realidade as contradiz. A sua ideia era que o argumento parte da premissa 'tudo tem uma causa (prévia e distinta)', mas acaba na conclusão de que tem de haver algo que não tem uma causa prévia e distinta, mas 'que tem em si a razão da sua própria existência'. Logo, a conclusão nega o que as premissas afirmam. A rejeição de Russell é um pouco fraca, pois o objectivo do argumento, da perspectiva teológica, é mostrar que, apesar de as coisas materiais ou físicas terem uma causa prévia distinta, este mesmo facto nos leva a postular que há algo de diferente que não tem uma causa prévia distinta. No jargão teológico, isso seria algo que é 'necessário' ou 'causa sui': algo que é 'causa de si', a sua própria causa. E, uma vez que isto não se verifica no caso das coisas comuns que nos rodeiam, precisamos de postular a existência de algo extraordinário, uma Divindade, como titular desta extraordinária auto-suficiência». A questão é realmente a de um ser auto-suficiente.
É raro tematizarmos esta questão essencial, mas ela está sempre presente. Carlos João Correia acrescenta: o acaso, o efémero, o possível supõem sempre «uma realidade necessária que lhe seja prévia, um princípio incondicionado. [...] Mesmo que não quiséssemos, a percepção da nossa mortalidade far-nos-ia relembrar a sua presença silenciosa, pois a morte, enquanto nadificação das nossas possibilidades, faz emergir a própria questão de se ser».

Anselmo Borges, Deus religiões (in) felicidade, Gradiva, 2016, p.19-21

Os pais e a Escola



Só se chamam os pais à escola por maus motivos; por isso, ainda hoje, há muitos pais que ficam contentes por não irem à escola de seus filhos (tal seria “bom sinal”), pelo que há que mudar de mentalidades nos registos de motivação das chamadas à escola dos encarregados de educação; por outro lado, pais que vêem apenas o “sucesso” dos filhos, na escola, pelo prisma do “sucesso classificativo” (e não procuram a escola, visitando outros aspectos do “sucesso”); e as salas ainda não estão, em muitas construções (mesmo recentes), dispostas de modo bidirecional (não acompanhando os recursos e capacidades dos discentes, susceptíveis de, em algumas áreas, estarem com níveis de conhecimento muito avançados, relativamente aos docentes). Em termos legais, em Portugal temos uma lei de associações de pais, o que não acontece em muitos países. Ao nível da participação podemos estar, pois, em lugares cimeiros, em todo o caso. E busca-se, ainda, como que entender uma espécie de Projecto Educativo da Criança (se não comer, não vai aprender) e nele poder vir a intervir. A participação dos pais é desigual no país, e o factor direcção de escola (e ligação com associação de pais) é determinante (até para haver menores problemas na escola). A participação dos pais pode estar associada à sua cultura de civismo e cidadania (a participação, ao longo do seu percurso de vida, até serem pais e os filhos estarem na escola, em grupos de jovens de paróquias, associações desportivas, culturais, recreativas).

Mas afinal o que é a participação dos pais numa escola? É participarem em reuniões? É opinarem? É falarem com o director? Todos os dias, muitos directores da escola têm feedback de pais. Às vezes, há, contudo, grandes dificuldades em se eleger um representante dos pais, numa turma. Não faz sentido usar a caderneta do aluno apenas para mandar queixas para casa. Também devem ser usadas para elogio e louvor, quando for caso disso. Os pais que pertencem ao movimento associativo deviam ter incentivos para participarem em reuniões fundamentais (por exemplo, alguém que vai do Norte a Lisboa a uma reunião perde o seu dia de férias, o que não tem grande senso). O director da escola presente neste debate disse que não se recorda de uma colocação de professores tão conseguida como no presente ano lectivo. Mas continuam a faltar assistentes operacionais – que por não terem força corporativa não adquirem visibilidade e capacidade reivindicativa. Mas Tiago Brandão Rodrigues tem ouvido muito os directores da escola (Nuno Crato só o fez no último ano de mandato).

Para pais que intervieram neste debate, o problema da compatibilização do emprego com a ida à escola (a questão da falta) acaba por ser um dos principais constrangimentos para os pais não irem mais à escola. Uma mãe, com graça, ainda sobre a questão das cadernetas, observa que já disse aos filhos que “a caderneta é o livro de reclamações do restaurante”. “Nunca vi” um elogio numa caderneta!, assevera. Do lado de cá do ecrã sorrio. Mas coloco o dedo no ar: já enviei elogios em cadernetas. Sempre há umas almas piedosas para contrariar o habitual livro de ponto.
Mas os pais também não vão à escola para elogiar. Não chegam ao portão senão para se queixarem. Não vão elogiar os professores – aduz outra encarregada de educação. E os pais, elogiam os filhos? A inteligência começa em casa.

Jorge Ascensão (representante de Associações de Pais e Filinto Lima (director de escola), moderados por Carlos Fiolhais

domingo, 23 de outubro de 2016

Praça Global


No GPS desta semana debateu-se a questão do Rendimento Básico Incondicional (com a presença, em estúdio, de um co-fundador do Facebook, favorável ao dito RBI, e um colunista, da área da economia, do New York Times, com claras reservas à introdução de tal aparato político). Um dos dados que mais atenção me chamou, na argumentação esgrimida pelo defensor da introdução de uma medida deste género, foi o facto de que 50% dos americanos não disporem de 400 euros se surgir uma necessidade de despesa extraordinária (saúde, necessidades relativas a habitação, problemas com eventual automóvel pessoal...). Na sua perspectiva, ademais, a questão do RBI não se coloca para futuro - nas imagens do programa da CNN passa a entrevista da Wired a Barack Obama, na qual o presidente cessante afirma que essa será uma discussão a ter ao longo dos próximos 10 anos -, mas presente, justamente porque o presente é o de empregos precários, a tempo parcial, sub-emprego, desemprego. Remunerações escassas e irregulares. Do lado oposto da barricada da discussão, faz-se notar que 1,4% da riqueza produzida nos EUA seria consagrada ao RBI caso este se cifrasse em 1000 dólares ano, o que significaria o triplo gasto em senhas hoje entregues aos mais necessitados (e sobre as quais existe "uma grande pressão política"). E que a 10 000 dólares anos por cada RBI, então seria 16% do PIB a serem gastos em tais medidas. O que transformaria os EUA na Noruega (ao nível de impostos; e "nunca fomos assim tão generosos com impostos e despesas"). E, se há intervencionismo estatal, onde gastar as senhas, e que fazer para as obter (a contra-prestação do trabalho, ou disponibilidade para trabalhar), contrariando-se, assim, a dimensão libertária da medida - e, em realidade, poucas medidas haverá que, de forma tão nítida, mesclam, simultaneamente, elementos queridos, e detestados, de diferentes àreas ideológicas -, esta terá promovida não apenas o trabalho, mas o trabalhador que se livrou de ficar entregue, em exclusivamente, ao assistencialismo da medida e nesse sentido passou a possuir instrumentos de emancipação (de resto, assinala-se, aqui, de novo, o principal argumento esgrimido por Martim Avillez Figueiredo no livro que dedicou ao assunto, via tese de mestrado, e de que aqui, no jas-mim, nos ocupámos em 2013). Na discussão ora gerada no GPS, concordaram as partes em como adivinhar o futuro será tarefa ingrata - e as discussões sobre o fim do emprego não são novas. Mas Fareed Zakaria lembrou que a principal ocupação (profissional) do homem norte-americano passa mesmo pela condução (camiões, transportes públicos, etc.). E que há mesmo séria ameaça a estes trabalhadores no carro autónomo da google.

A semana política

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Glória Teixeira abandona o grupo que negociava o Orçamento, nomeadamente as questões fiscais (a convite do BE), entre outros motivos porque considerou que o Governo não apresentava esforços (sérios) de combate à fraude em sede de IRC; Jerónimo de Sousa, sem deixar de sublinhar "a franqueza e seriedade" com que Costa negoceia com os partidos que servem de suporte parlamentar ao Executivo que lidera, e de o distinguir de Mário Centeno (com Costa há "outra produtividade", nas reuniões, "para o bem, ou para o mal"), avisa que a Função Pública vai à rua (pelo descongelamento das carreiras). E revela que a proposta de aumento do subsídio de alimentação, para a função pública, se cifrava em 4 cêntimos, tendo o PCP proposto 50 cêntimos de acréscimo diário (pelo que os 25 cêntimos a que, finalmente, se chegou teriam a sua impressão digital; e o conteúdo das negociações, de algum modo, assim revelados; isso, e a conturbada relação do PCP com o BE, agora assumida na entrevista ao Expresso). Jerónimo mostra-se disposto a vir a aceitar a introdução de condição de recursos nas pensões mínimas, mas o problema, para Centeno, é que poucas são as novas pensões mínimas solicitadas nos anos mais recentes, pelo que a poupança para futuro, para o Estado, pode não ter o significado que se poderia esperar. Já poupar com as pensões mínimas em pagamento poderia valer mais de 1000 milhões, só que os parceiros (de coligação; pelo menos estes) não aceitam. Pergunto-me, entretanto, se tal seria, ainda, constitucionalmente aceitável. O BE solicitou a Vieira da Silva a alteração das regras relativas ao Complemento Social para Idosos (CSI), que obrigam a que se entre em consideração com o rendimento do agregado familiar, incluindo aqui filhos, de quem solicita o CSI - com efeito, regras controvertidas que mereceriam uma maior discussão. Sem a demagogia de ser mais crítico com quem não é mais generoso nesta prestação social, do que com quem nunca quis meter a mão na massa para a poder criar, ou, tendo tido essa possibilidade, não entendeu oportuna. Vieira da Silva recusou liminarmente essa possibilidade. Ângela Silva dá conta que, em Belém, Marcelo confidenciou que da sua observação resulta a ideia de que as hipóteses deste Governo chegar ao fim da legislatura estarão agora nos 50% (quando, há um ano, se inclinava para os 10%). Mas notou que estas negociações mexeram com as elites - que não o povo - negociadoras dos diferentes partidos (e Marques Mendes havia chamado a este o "princípio do fim da Geringonça"). Na semana em que Louçã escreveu um texto duro a chamar a atenção do Governo: "cuidado com as pensões". Numa entrevista à solta, Isaltino Morais não percebe a viragem "neoliberal" de Passos Coelho (num governo que considera ter sido "uma calamidade") depois de anos a criticar os governos Cavaco pela esquerda, à época, pois, Passos um verdadeiro social-democrata - referência que ainda não tinha lido, ou escutado, a quem quer que fosse. E o ex-presidente da Câmara de Oeiras vê José Eduardo Martins - com a vantagem de "ser um tipo culto" - como possível candidato a uma sucessão de Passos. Se, há algumas semanas, Pedro Santos Guerreiro escrevia, em editorial, aliás com toda a razão, que "quando Luís Montenegro ou Rui Rio são o melhor que pode aparecer, confirma-se a desintelectualização que assola a direita (...) Essa é a desintelectualização do pensamento político. Querer ganhar eleições não é em si mesmo pensamento nenhum", Isaltino considera, agora, que se havia pessoas que pensavam, há 15 ou 10 anos, que Rio "era um tipo nazi" (sic), ele mudou muito e agora estará melhor preparado do que nunca.

sábado, 22 de outubro de 2016

O futuro (e o passado) do Trabalho


“El trabajo es previo a, e independiente de, el capital. El capital es tan solo el fruto del trabajo, y nunca podría haber existido si no hubiera existido antes el trabajo. El trabajo es superior al capital y merece un reconocimiento mucho mayor”. Con estas palabras, Abraham Lincoln, en su primer discurso al Senado de EE UU desde su toma de posesión en 1861, enfatizó que una sociedad no tenía por qué estructurarse en la división empleadores versus empleados, anclada en una supeditación al capital, sino que aquel que alguna vez había sido un empleado podía unirse, gracias a su esfuerzo, a la “mayoría autosuficiente”: aquellos pequeños propietarios que trabajaban en sus granjas, talleres y tiendas sin contratar ni acudir a préstamos o créditos para ganarse la vida dignamente.





Estamos empezando a experimentar las consecuencias de convertir el desarrollo científico y tecnológico en una fuerza invencible dentro de la economía de mercado. Es, al fin y al cabo, un resultado de la desideologización fomentada por un racionalismo tecnológico mistificado. Entre las consecuencias esperables, el desempleo seguirá siendo un resorte principal dentro de esta nueva fase de la racionalización técnica. Pero no nos engañemos, cada persona y generación viven sus problemas como un fenómeno original que se da por primera vez, y pese a ello necesitamos practicar el historicismo. Si somos capaces de adoptar una visión global de cómo ha evolucionado la relación entre trabajo y capital a lo largo de los siglos, veremos que el hombre ha ido saltando de crisis en crisis, de revolución en revolución, entre el miedo y la esperanza.

Retomando la frase de Lincoln: el capital no es sino el fruto del trabajo y, por lo tanto, este nunca desaparecerá. El modelo de trabajo deberá evolucionar y, una vez más, adaptarse al progreso científico y técnico. Pero siempre deberán existir esfuerzos por mejorar nuestro Estado social, la situación de aquellos que nos rodean o la calidad de nuestro entorno, sin que las máquinas decidan por nosotros. Y una vez más, el nacimiento de un modelo económico alternativo deberá permitir crear más riqueza y de forma más eficiente. ¿Por qué asumir que es imprescindible sacrificar millones de puestos de trabajo durante el proceso? Dejemos de creer que las crisis son inevitables y reflexionemos sobre el cambio permanente y las nuevas oportunidades. Si somos conscientes de cómo la historia se repite cíclicamente, estaremos mejor preparados para hacer frente a los problemas a los que nos enfrentamos y a los que vendrán. ¿Visionarios? No, esa no es la palabra.

Na íntegra, aqui

Alberto González Pascual, director de Transformação, na direcção de Recursos Humanos da Prisa, ELPAIS, 22/10/2016

Que comunidades?


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A partir desta entrevista de Gilles Lipovetsky podemos retirar o seguinte diagnóstico (de mutação) cultural (a Ocidente): a uma fase em que o predomínio das comunidades, das instituições (família, Igreja, Exército...) sobre o indivíduo, em que a segurança (sabia-se a orientação precisa, detalhada, a pauta quotidiana a seguir, e esta era indiscutida) era enorme, ainda que sacrificando-se a liberdade (a pessoa não se divorciava, ainda que o pretendesse, porque o divórcio não era recurso a que se pudesse, digamos culturalmente, deitar mão), sucedeu um estádio emancipado, de liberdade, ou libertário, em que é certo que as instituições, as comunidades não primam já sobre o indivíduo, mas este fica completamente entregue a si, sem qualquer segurança, portanto, como se de puro constructo se tratasse, carecendo de qualquer orientação ou mapa que seguir (no que se tem desaguado em níveis de angústia, stress, ansiedade, etc. inauditos). Pelo que, minha conclusão, sem que restauracionismos sejam possíveis, ou, sequer, desejáveis, a reponderação, individual e colectiva da importância dos sistemas de sentido, a aposta nestes (nos termos, ilustrados com certeza, do séc.XXI), a reconsideração do que dizemos com "razão" e a sua não subsunção a acepções extremamente redutoras, a aposta - que significa uma não errância à deriva contínua - na vida como dom e com sentido, tem hoje uma pertinência completa.
Na literatura que surge como pano de fundo norte-americano no qual as eleições presidenciais de Novembro terão lugar, a noção, partilhada à esquerda e à direita, de comunidades desestruturadas, fundidas, repletas de brechas é clara e com consequências - individualismo, desregulação, desprezo pela importância do Estado, ou desagregação familiar e perda de importância do religioso - que não agradam a nenhum dos lados do hemisfério político. 

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Este Mundo não é Conclusão.
Um outro, mais além, existe -
Invisível, como a Música -
Mas real, como o Som -
Acena, e gera perplexidade -
A Filosofia nada sabe. -
E por fim, no meio do Enigma
Volteia, forçada, a Argúcia -
Resolvê-lo embaraça os estudiosos -
Para obtê-lo, homens sofreram
O desprezo de gerações
E apontaram para a Crucifixão -
A Fé resvala - e ri, e de novo se levanta -
Cora, se alguém vê -
Agarra-se a um galho de Prova
E pergunta o caminho a um Catavento -
Muitos Gestos, do alto do púlpito -
Troam, como rufos, fortes Aleluias -
Narcóticos não podem aquietar o Dente
Que mordisca a alma.

Emily Dickinson (citada por António Spadaro, em O baptismo da imaginação, 2016, p.86; "é possível evitar o problema recorrendo a narcóticos, e, entre estes, o principal reside justamente em não levantar o problema, em confiar-se a um divertido fatalismo. Mas a pergunta acerca do destino vive na vida de cada dia, joga-se dia a dia na relação concreta e limitada com as coisas. O destino nunca é evasão deste limite: é, quando muito, uma grande visão que abarca cada gesto nosso. O espaço das coisas é o lugar em que se joga e decide o sentido e o destino. Cada gesto, cada objecto está, se virmos bem, repleto e atulhado de destino. Se viver significa estabelecer uma relação com as coisas, então a pergunta que se segue é justamente esta: que relação entre mim e os objectos que estão diante de mim? Vejo-os dentro de um horizonte mais amplo de sentido e de «destino»? Como é que «habito» o mundo?")

A derrota do pensamento


Fui ler atentamente a entrevista de Alain Juppé a um conjunto de diários europeus de referência, sabendo-o favorito nas próximas Presidenciais francesas. E o que se retira do conjunto de precipitados que ofereceu? Basicamente, mais do mesmo, a receita sem tirar nem pôr do que temos visto: as duas apostas principais, por si sublinhadas, passam por "uma reforma laboral dura" e por uma drástica redução de impostos para as empresas (uma baixa de 8% no IRC). "Reforma" e "dura" tem o significado que se imagina para os que trabalham; e a baixa radical de impostos leva a que a receita do Estado, sempre à espera de resultar num mirífico brutal aumento de investimento, fique substancialmente reduzida, o que, como é óbvio, se traduz, posteriormente, em funções do Estado que têm que ficar em causa (ou verem a sua prestação diminuída, ou perder qualidade). A lógica, business as usual, dos últimos anos, de menos direitos para os que trabalham, menos impostos, menos receita, redução dos serviços prestados pelo Estado. O facto de isto ser praticado por Presidentes, ou governos, oriundos de diferentes partidos, ou áreas ideológicas, não deixa de relevar de uma efectiva derrota do pensamento. A lógica concorrencial, entendida nesta acepção - porque outras acepções há -, de diminuir, constantemente, os padrões laborais ou estatais, que limites conhecerá? Juppé cita a Irlanda, como por cá se disse, também, in illo tempore, o do vivemos acima das nossas possibilidades e outras grandes tiradas das luminárias de então, que era preciso ver o que oferece a Roménia, isto sem descurar o que a China, a Índia, o Bangladesh ou sabe-se lá que outro país (a identificar como bom para comparar) poderá proporcionar. Sempre a descer, como convém. 
É verdade que Juppé não propõe o paraíso (ou, pelo menos, não outro que o liberalismo de sebenta de sempre). E que não alinha, é justo dizê-lo, no radicalismo de extrema-direita a que a alguns dos seus opositores nos Republicanos - e Juppé lembra Churchill, na primeira pergunta - parecem querer alçar-se, em matéria de imigração. O travo a requentado surge na sugestão de uma cimeira para discutir a identidade europeia, cuja força matriz que lhe deu o travo, e o melhor que nos ofereceu, nestes 2000 anos, foi simplesmente apagado do célebre Preâmbulo da não menos promissora Constituição Europeia. Mas quem não quis ratificar a Carta de Direitos Fundamentais como teria cara para se regozijar com essa ecologia cultural que nos marcou, a Ocidente, pelas mais nobres preocupações, nos dois últimos milénios? 

Do jogo



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- Vamos jogar PlayStation - disse o meu irmão.
- Estou farto disso - respondi. - Futebol jogado com as mãos e onde se chuta com a ponta dos dedos? É o contrário do futebol.
Nem de propósito, chegou uma bola, uma bola a sério, vinda não se sabia de onde. Parecia uma dádiva do céu. E quem resiste a uma bola?

in Álvaro Magalhães, Os Indomáveis F.C., p.20.

"Estados pós-nacionais"


Já nos anos 1990, Appudari falava de Estados pós-nacionais, nos quais as comunidades diaspóricas deixavam de ser ocorrências ocasionais ou temporárias, para se tornarem duradouras e estruturadas em sistemas, parte integrante da cultura e história do país. O termo "pós-nacional" define melhor os conceitos anteriores de "multinacional" e "internacional", que continuam muito fortemente ligados à noção de dependência económica, legal e prática em relação ao Estado de referência, até o sistema inteiro estar enfraquecido.

Carlo Bordoni, em Estado de crise, p.43

Política(s)


Depois da entrevista de António Costa, ao Público, ter escancarado essa possibilidade; após Vieira da Silva, ao DN/TSF, ter incrementado essa opção, hoje, o que retiro, de essencial, da (primeira parte da) entrevista do Passos Coelho ao Público é concordância em matéria de introdução de condição de recursos para futuras pensões mínimas (em se tendo verificado que uma clara maioria daqueles que hoje auferem de tais pensões não são pobres). A dúvida que me ficou da entrevista de Passos foi a de se o actual líder do PSD aceitaria uma negociação ad hoc desta medida, ou se apenas estaria disposto a subscrevê-la num quadro mais amplo de concertação quanto aos nossos sistemas sociais. Por outro lado, Marcelo Rebelo de Sousa pode, tudo o indica, exultar com um consenso político (que desague em uma concreta alteração substantiva para futuro; nas pensões a pagar não se mexe). Sendo que, em Portugal, é a liderança da oposição que, normalmente, tende a ficar mais desgastada quando chega a um acordo (político, com o Governo funções). Por parecer estar a endossar um ponto político - como se tudo fosse um jogo - ao Executivo assente em um partido adversário. Ponto para Passos, pois. Diferentemente, os que sustentam universalidade de medidas, em contexto de um apoio social, o mais amplo possível, ao Estado Social - não tendo este sido criado exactamente para socorrer apenas aos desvalidos, e sendo necessário o dito suporte até para benefício destes últimos - não deviam esquecer os princípios, e ser mais prudentes num momento de conveniência. Pode (e provavelmente deve) argumentar-se pela situação do país, e por um tipo-ideal que não pode cumprir-se, mas ver a advogar a justiça intrínseca da correcção ora sindicada por várias forças políticas por quem sustenta a universalidade de medidas - com base nas justificações aludidas - é outra coisa.


sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Justiça social


Nunca foi tema para parangonas, mas dos mais importantes em termos de justiça social. Nunca o Estado, a política quis intervir, num absentismo inaceitável. Finalmente, mas veremos até que ponto, parece haver vontade de acabar com muitas das injustiças no acesso ao ensino superior. Claro que cada caso é um caso, tem que haver muito cuidado no modo como se regulamenta a matéria, mas não pode beneficiar-se o prevaricador (e não ignoramos como muitos encarregados de educação recorriam a muitos destes estabelecimentos de ensino com o fito de uma subida artificial de notas, garantindo, com o seu poder económico, o que o estudo, ou diferentes capacidades de cada aluno, por si mesmas, não garantiriam, quanto aos resultados finais do Secundário e acesso ao Ensino Superior). Mais anos sem nada se mexer nesta matéria é colaborar e ser complacente com uma das mais conhecidas distorções à igualdade (mínima) de oportunidades neste país.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Por um canudo

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Há uma semana, ficou a conhecer-se o horário do próximo Barcelona-Real Madrid para La Liga (3 de dezembro, 15h15). E observou-se, não sem surpresa, que o Reino Unido possui uma legislação proteccionista (para as tv's que adquiriram os direitos de transmissão da Premier League, ou, se se preferir, do campeonato como um todo), não permitindo transmissões televisivas de outros campeonatos, durante um período de tempo que engloba, neste caso concreto, o horário do grande clássico jogado a 3 de Dezembro. Isso motivou, de imediato, um artigo do treinador do Vitória de Setúbal, José Couceiro, em ABola, a sustentar que em Portugal não se protege suficientemente as competições, nomeadamente no que concerne a levar gente aos estádios, ilustrando com o "bom" exemplo inglês, de que o proteccionismo acima exposto seria demonstração. Discordo, claramente, deste ponto de vista, no que respeita à transmissão televisiva de jogos de outros campeonatos que concorram com o nosso - principal alegação e leit-motiv do texto de Couceiro, ainda que não exclusivo tópico, pois no artigo se referia, também, a pouca pro-actividade dos clubes para levarem espectadores aos estádios -, porque (e os dois motivos iniciais são, para mim, preponderantes):

a) medida idêntica já esteve inscrita na nossa "legislação desportiva", e não assim há tantos anos, e o deserto de muitos estádios não era diferente daquele hoje verificado (a protecção não levava mais gente aos estádios);

b) os meios tecnológicos hoje existentes - e, como se tem visto, muito difíceis de controlar (por completo) - permitem que, mesmo sem transmissão televisiva (no próprio país), as pessoas possam aceder ao visionamento dos jogos, em directo, através de outras fontes;

c) se a vinculação a um clube cede perante um jogo internacional de maior envergadura, o que falha é esse tipo de vinculação (emocional, afectiva, etc.) e não o grande jogo ser transmitido (vejam, se um dos grandes jogar em casa, no mesmo horário que o Barça-Real se não tem, de qualquer modo, uma grande plateia, a não ser que a classificação desse grande seja claramente má);

d) ainda a quando da fixação de um horário de proibição de transmissões televisivas de outros campeonatos, muitas vezes terminando esta (proibição) a quando do fim de jogos de um dado período do dia (imaginemos 18h, porque os jogos da tarde se iniciaram às 16h), na prática quem quisesse ver o desafio em diferido ou não podia ir ao jogo (do seu campeonato), ou teria que sair bastante mais cedo do desafio, pelo que as vantagens em conseguir levar mais gente, por via dessa proibição, também seriam discutíveis.