segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

A escola no proscénio


Resultado de imagem para o inimigo da turma

O mais recente filme sobre a escola (sistema educativo) que vi, em 2016 (altura em que chegou às salas portuguesas, embora se trate de um filme esloveno de 2013), da autoria de Rok Bicek (de 31 anos), tem, como principal mérito, a meu ver, a forma distanciada como se coloca face às razões dos diferentes actores da/na escola, sem pretender dar, propriamente, uma (unívoca) lição de moral (ou uma escolha de campo), optando por expôr os diferentes ângulos a partir dos quais pode a mesma escola (hodierna) ser olhada.

Pode um professor impôr uma metodologia radicalmente diversa da que encontra na escola para a qual é contratado, para substituir uma colega? Não arrisca tornar-se num D.Quixote, ineficaz, incapaz de mobilizar um só dos seus alunos? Deve ser o Professor complacente com o que considera ser um clima de desordem e disciplina, sem exigência, que não prepara os alunos? Faz sentido uma liderança autoritária e austera em tempos horizontalizados? ("Bem-vindo ao século XXI", diz-lhe a diretora) Nenhum limite deve ser colocado à horizontalidade

Não é pueril (para lá de desrespeitoso) os alunos tratarem, em virtude da menor proximidade e maior austeridade do novo professor, o docente como nazi? Que argamassa de uma turma que não se encontra uma vez unida para falar sobre o caso da colega (Sabina) que se suicida? Não estão os alunos a desrespeitar tanto a colega (falecida) como alegam que o professor o faz, na medida em que dela (da sua morte) se aproveitam para erguer, a partir de aí, uma luta contra o sistema (educativo)? Mas não erra, de facto, o professor quando imediatamente após a morte da aluna diz "a vida continua", numa frieza brutal? Não haverá espaço a emoções na escola? Como se faz o luto, se se pretende ignorar a morte ("não temos tempo para o terceiro momento do luto [a tristeza]", afirma um aluno, em tom de constatação).

E a diretora da escola, complacente com a arrogância do novo professor - autoritário e no limite da impassibilidade e indiferença para com os outros (interpretação notável de Igor Samobor) -, ou algo temerária face à rebelião dos alunos? E que cultura, na escola, que referentes? "De que música clássica estás a falar? Afinal, o que está em cena? Mozart, música clássica, ou "El Clássico", Messi?, Xavi?" (atira, no tom empertigado e altivo de sempre, para uma colega de Educação Física, o professor de Alemão). Um professor que não julga que na escola há o direito à felicidade, o Secundário não é um direito, mas um dever e um privilégio, a escola não deve estar forrada a sentimentalismo e deve elevar até ao limite, está errado? Mas, por outra: ensinar não com, mas, no fundo, contra os alunos dá algum resultado? E aos alunos, mesmo não gostando, desde logo, da abordagem inicial do novo teacher, não terão obrigação de procurar superar estados de alma e concentrar-se na aprendizagem e no conhecimento? Que relacionamento (humano) mínimo será exigível entre professor e alunos para que a transmissão do conhecimento possa ocorrer? Não é uma condição prévia (necessária) a qualquer ensino, a qualquer transmissão de conhecimento, um laço que una de algum modo?

E que decisão é essa a do suicídio? A certa altura, a melhor amiga de Sabina, na composição, em alemão, comentando uma afirmação de Thomas Mann, o mais lídimo representante do humanismo - que, ainda que de um modo porventura paradoxal, pretenda ser assumido pela figura do Mestre todo-poderoso, ele que apenas parece enlevar-se e deixar-se ir pela música de Mozart - que afirmava que pior do que aquele que se suicida ficam os que permanecem (à sua morte, e permanecem com a sua morte), assinala como Sabina não quis pensar na família, nos amigos, na gata. Deixamos, neste momento da narrativa, de estar centrados no modo rude, severo, injusto até do professor - para com Sabina - identificado, sem complexidade de formulação (e veja-se que a falta de empatia mútua é enorme, e a incapacidade de se colocar no lugar do outro é de tal ordem que quando a diretora conta a um dos líderes da insurreição que Sabina era adoptada e que certamente teria interiorizado negativamente as palavras que este lhe dissera sobre o que são famílias normais na aula de ginástica, embora não sabendo este aluno da situação familiar da colega, ele não aguenta e vomita como somatização de um estádio de culpa que entretanto passa a assumir, apesar da diretora ser clara ao sublinhar que não foi certamente por isso que a colega se suicidou: como quem diz, não há uma causa exata, única, para o trágico desenlace), como o responsável pela morte da aluna (pelos colegas de Sabina), para passarmos à culpabilização da própria suicida, mas talvez aqui lembrando que nenhuma morte é estritamente individual (dado que somos seres de relação; e ("só") porque morreu o Alves da tabacaria, a cidade mudou).

E os colegas do Professor de Alemão, o dr.Robert Zupan? Corporativistas? A ver o que lhes sucederá a eles se a rebelião dos alunos não for travada? Preocupados com os alunos, ou, sobretudo, consigo mesmos? Desconfiados do colega? Com medo do que virão a dizer os jornalistas, ou centrados no percurso de uma juventude que surge a navegar, como que perdida, na viagem de finalistas? Bem ou mal, a vossa colega tomou uma decisão (aqui, Zupan assume o carácter filosófico, uma não psiquiatrização, da decisão de Sabina; a única questão da filosofia é o suicídio, dirá o Camus, de Sísifo; vocês, nem o que querem comer decidem). A pressão das expectativas - da escola, dos pais -, a vontade de liberdade quando a dependência dos progenitores ainda está para durar, eis o desafio explicado pela psicóloga da escola, ela mesma, às tantas, sem o antídoto para um outro comportamento dos alunos. E, pelo meio, na reunião de pais, para se perceber que medidas a adoptar em função da indisciplina da turma, uma espécie de salve-se quem puder, cada um a olhar por si, como se a fragmentação e os estilhaços, nunca uma visão de uma comunidade (próxima), fossem a única realidade da educação que aí vai.

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