terça-feira, 27 de dezembro de 2016

"Agnus Dei - as inocentes"


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O cântico em latim, as laudes da aurora que preenchem o convento, parecem querer sobrepôr-se e abafar os gritos que chegam do quarto: desde um dos momentos iniciais de Agnus Dei - As inocentes, de Anne Fontaine, que parece assinalar-se o quadro de fundo em que o filme mergulha, a saber, a tremenda dificuldade em lidar, num convento, com o nascimento de crianças advindas de violações a freiras, pelas tropas russas, que logo a seguir ao final da II Guerra Mundial, tomam tudo de assalto.

Da cruz vermelha francesa, estacionada na região, chega, de uma filha de comunistas, ateia, uma ajuda que uma das madres, mais "humana", solicita. "Casadas com Deus" como aceitarem, as monjas beneditinas, serem mães (humanas)? Ainda que vítimas de estupro, como consentir, como (absolutas) devotas, qualquer tipo de aborto? Como mães, como assentir em desprender-se das suas crias, permanecendo no convento como se nada fosse, entregando-as para outrem delas tratar? Como fiéis ao seu voto de castidade, como lidar com a desonra, como lidar consigo/com seu corpo (e aceitar que outros lidem com este)? E que ideia de fé: em nome da dignidade do convento, sacrificar as crianças? A madre superior (Agata Kulesza, que víramos em Ida), na sua gélida e temível determinação, oferece os bebés à Providência ("você não acredita na Providência?", dirigindo-se à mais terna das responsáveis do convento, representada por Agata Buzek), embora, no ocaso da narrativa, ela mesma carregada a sífilis, derrame que em nome da honra dos bebés, "perdi-me". 

Em crianças vamos seguros, guiados pela mão materna. Confiança, segurança. Largada esta é como que se a escuridão sobreviesse, e o silêncio a resposta a todas as demandas, a qualquer grito. Assim a fé, com a sua cruz. Os diálogos chegam a ser intensos, entre a médica da cruz vermelha - Mathilde, a soberba Lou de Lâage - e a madre Ana. Então e essa segurança, a fé como consolo? Que nada: 24 horas de dúvidas por um minuto de esperança.

As reacções das diferentes freiras tantas como as próprias presentes no Convento: desde quem entrou naquela casa com escassa fé, levada por um familiar, e entretanto a perdeu por completo, até quem se mantém no limite do racional, recusando tratamento, como mártir a oferecer a Deus (o título, Agnus Dei, cordeiro de Deus, já o sugerindo); desde quem quer ficar com o filho, até quem o confia aos demais para tratar deste. Tudo,envolto em uma grande sobriedade, nunca a realização encenando a violência e os abusos, como se a estética (o não mostrar) estivesse, ainda, ao serviço de uma ética (a do convento, no que este procura encobrir).

Baseado em uma história real, e a partir dos diários de uma médica francesa da cruz vermelha, na Polónia de 1945, com uma realizadora que antes de passar à acção esteve não apenas em retiros para perceber e conceber o quotidiano do convento, como assistindo a conferências sobre o significado da fé. Um dos melhores filmes que vi em 2016.

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