sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

No enxame (II)


Tornadas consumíveis, as imagens destroem a semântica e a poética particulares da imagem, que é mais do que uma simples cópia do real. As imagens, quando passam a ser consumíveis, são também domesticadas. Esta domesticação das imagens faz com que a sua loucura desapareça. E priva-as, assim, da sua verdade (...). Ao contrário do que se passa com a janela das traseiras, nas janelas digitais não existe o perigo de irrupção do real, nem - sobretudo - do outro. As janelas digitais blindam-nos perante o real (real) mais eficazmente do que uma janela das traseiras (rear window). Conformam-se com o imaginário generalizado. O meio digital cria perante o real uma distância maior do que os meios analógicos. Com efeito, a analogia entre o digital e o real é menor do que nos meios analógicos (...) Agir é o verbo que convém à história. Hannah Arendt entende a acção como a capacidade de 'dar início', quer dizer, o poder de fazer começar alguma coisa, completamente diferente. Assim, eleva a natalidade a condição de possibilidade da acção. Cada nascimento traz consigo a promessa de um novo começo (...) Segundo Arendt, esta dimensão soteriológica da acção tem a sua formulação  'mais bela e concisa' nas palavras com que o texto litúrgico do Natal 'anuncia a Boa Nova: nasceu-nos um menino'. Continuará a ser hoje possível a acção neste sentido pleno? Não estará o nosso agir subordinado a processos automáticos, como os referidos por Arendt, sem que já nem o milagre de um novo começo radical possa interrompê-los, o que significa que deixámos de ser sujeitos das nossas decisões? Não terão construído a máquina digital e a máquina do capital uma aliança terrível, que aniquila a nossa liberdade de acção?
Não viveremos hoje um tempo do não morto, em que se tornou impossível não só o nascer, mas também o morrer? A natalidade constitui o fundamento do pensamento político, enquanto a mortalidade é o facto que impele o pensamento metafísico. A era do digital do não-morto, deste ponto de vista, não é política nem metafísica. É, antes, pós-política e pós-metafísica. O mero viver, que se trata de prolongar a todo o preço, não tem nascimento nem morte. O tempo do digital é uma era pós-natal e pós-mortal. (...)
O 'homem sem mãos que clica o teclado' não é o homo ludens, ao contrário do que pensa Flusser. O próprio jogo se vê submetido à coacção do rendimento. À atrofia das mãos, segue-se uma artrose digital dos dedos. A utopia do jogo e do ócio em Flusser revela-se como 'distopia' do rendimento e da exploração. O ócio começa onde o trabalho cessa de facto. O tempo do ócio é outro tempo. O imperativo do rendimento neoliberal transforma o tempo em tempo de trabalho. Totaliza o tempo de trabalho. A pausa é somente uma fase do tempo de trabalho. Hoje, não temos outro tempo, senão o do trabalho. O trabalho acompanha-nos nas férias, e até mesmo, durante o sono. É assim que hoje dormimos de um sono inquieto. Os sujeitos exaustos do rendimento dormem da mesma maneira que uma perna se entorpece. E a relaxação não é mais do que uma modalidade de trabalho, na medida em que serve para regenerar a força de trabalho. A diversão não é o outro do trabalho, mas o seu produto (...) Com efeito, hoje, encontramo-nos livres das máquinas da era industrial, que nos escravizavam e exploravam, mas os aparelhos digitais trazem com eles uma nova coação, uma nova escravatura. Exploram-nos em termos mais eficazes, porque, dada a sua mobilidade, transformam qualquer lugar num posto de trabalho e fazem de todo o tempo um tempo de trabalho. A liberdade da mobilidade paga-se por meio da coação fatal de termos de trabalhar em toda a parte. Na era das máquinas, o trabalho distinguia-se do não-trabalho pela imobilidade das máquinas. O local de trabalho, até ao qual tínhamos de nos deslocar, podia separar-se com facilidade dos espaços de não-trabalho.

Byung-Chul Han, No enxame. Reflexões sobre o digital, Relógio D'Água, 2016, pp.43-46


Sem comentários:

Enviar um comentário