sábado, 31 de dezembro de 2016

Sentido


Gostava de encontrar diante de mim um desses sabichões que me chamam obscurantista. Dir-lhe-ia: não tenho culpa de trazer vestidos uns trajos de cangalheiro. A verdade é que o Papa se veste de branco e os cardeais de vermelho. Eu tinha o direito de me vestir como a rainha de Sabá, porque a alegria anda comigo. Dar-ta-ia por uma tuta-e-meia se ma pedisses. A Igreja dispõe da alegria, de toda a alegria reservada a este triste mundo. O que fizeste contra ela, contra a alegria o fizeste. Imperdir-te-ei porventura de calculares a precessão dos equinócios ou de desintegrares o átomo? Mas de que te teria servido fabricares a própria vida quando tu perdeste o próprio sentido dela? Não terias outra coisa a fazer senão estourares os miolos diante das tuas retortas. Fabrica vida para aí enquanto isso te dá prazer! A imagem que tu dás da morte envenena pouco a pouco o pensamento dos miseráveis, ensombra e descolora lentamente as suas derradeiras alegrias. A coisa aguenta-se enquanto a tua indústria e os teus capitais te consentirem que faças do mundo uma autêntica feira, com mecanismos que giram a velocidades vertiginosas no meio do estrondo dos metais e a explosão de fogos-de-artifício. Mas espera, espera pelo primeiro quarto de hora de silêncio. Então hão-de ouvir a palavra - não aquela que se recusaram a ouvir, e que dizia tranquilamente: Eu sou o Caminho, a Verdade, a Vida - mas a que sobe do abismo: eu sou a porta fechada para sempre, o caminho sem saída, a mentira e a perdição.

Georges Bernanos, Diário de um pároco de aldeia, Paulinas, p.25

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