sábado, 17 de dezembro de 2016

História da Ética (II)


Uma ética filosófica pode ou não pode encontrar o seu fundamento último na abordagem filosófica de Deus? A maior parte das filosofias ocidentais até ao século XVIII concordaram com a tese da fundamentação da ética no Deus encoberto pela razão. Esta tese não implicava uma confusão entre o discurso filosófico e discurso da fé. Significativo a esse respeito foi o caso de Tomás de Aquino (1224-1274), que soube muito bem distinguir discurso filosófico e discurso de fé. Com certeza Tomás de Aquino incorporava a filosofia como auxiliar - ou serva - da teologia (ancilla theologiae), mas não caía na confusão dos géneros, tanto mais que sentiu como sua tarefa primordial e como ponto de partida da sua reflexão a necessidade de assumir o pensamento de Aristóteles. A novidade da ética filosófica em Tomás de Aquino consistiu assim em mostrar filosoficamente que a finalidade última do agir humano reside em Deus; Deus é criador e causa final suprema, de tal modo que o sentido da existência humana e cósmica é o regresso (reditus) a Deus. A sua argumentação repousa na metafísica aristotélica do acto e da potência, graças à qual descobre que a tensão da busca humana para a verdade e para o bem não pode explicar-se se não existe efectivamente um Deus infinito que atrai a si todo o universo finito. (...)
Muitos pensadores cristãos - entre os quais Paul Ricoeur - consideram, com efeito, que a ética filosófica pode encontrar uma fundamentação independentemente da sua fé. Consideram que a fé não invalida nada da ética filosófica, de tal modo que esta, do ponto de vista puramente racional, deve desenvolver-se, segundo a expressão do teólogo luterano Dietrich Bonhoeffer, etsi Deus non daretur, como se Deus não existisse. Esta expressão não é confissão de ateísmo, mas tem uma significação meramente metodológica: mesmo para um cristão, uma ética filosófica deve procurar nela própria a sua consistência e a sua fundamentação, de tal modo que possa ser partilhada por não crentes. Nesta perspectiva, diferente da posição escolástica, o suplemento que a fé traz à ética filosófica não retira a esta nada da sua autonomia

Michel Renaud, A evolução histórica da ética, in Ética. Dos fundamentos às práticas, Edições 70, 2016, pp.129-131


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