segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

O cérebro adolescente




Embora, não raramente, considere bastante exagerado o modo como se fala da idade adolescente - não a recordo como idade de crise nem de grandes "anormalidades" -, não deixo de estar atento ao que a ciência vai trazendo sobre a matéria.
Hoje o Público traz uma entrevista com a neuro-cientista Sarah-Jayne Blackemore, que deixa os seguintes dados:

a) não existem diferenças de género, nos cérebros adolescentes, que sejam evidentes;

b) assim, em realidade não há provas científicas que provem que as mulheres (adolescentes) amadureçam mais depressa do que os homens (adolescentes);

c) os adolescentes não conseguem evitar as mudanças que estão a ocorrer no seu cérebro; não são "culpados" dessas mudanças (se é que elas podem traduzir-se em algo menos positivo, como uma maior impulsividade);

d) somos mais pacientes com as crianças, mas muito menos com os adolescentes, em quem colocamos pressão bastante;

e) o ambiente muda o cérebro, pelo que é natural que o mundo super-tecnológico molde diferentemente os cérebros em formação. Diferentemente, não significa necessariamente pior (ou melhor). E mudanças tecnológicas que mudaram cérebros houve imensas, a começar com a invenção da escrita (que deixou de obrigar a tanta memorização, como se queixava Platão);

f) a esquizofrenia é mais comum em jovens que são emigrantes, mudando, sucessivamente, de cultura e de sociedades;

g) os adolescentes estão mais ligados, nesta idade, ao grupo de pares, aos amigos, ganham nova liberdade, estão a experimentar e a ter mais consciência de si mesmos e da sua identidade. É natural que aqui e ali possa apresentar alguma rebeldia para com os pais, neste ganho de autonomia e preparação de futura independência.





*Esta cientista tinha estado a dar conferência na FFMS: eis, acima, o vídeo integral. 

sábado, 9 de dezembro de 2017

DA "HISTÓRIA NATURAL DO FUTEBOL"

Resultado de imagem para bola de futebol


Os jogos com bola vêm do fundo dos tempos e a sua génese confunde-se com a da humanidade. Se percorrermos a história das civilizações humanas, encontramos quase sempre uma bola e um jogo. Um homem e uma bola é uma relação tão ancestral, tão natural e tão fatal que podemos considerá-la intrínseca à cultura humana, de que é um elemento permanente. Jogar com uma bola corresponde a um dos nossos instintos mais básicos. (...) Quase todos os povos do planeta jogaram à bola, em quase todas as épocas, embora com diferentes motivações. (...)
O futebol, assim designado pela primeira vez em 1486, em Inglaterra, por se jogar a pé e não a cavalo, como outros desportos da época (era, então, o "jogo a pé" e ainda não o "jogo com o pé") tem a sua história concreta, a qual se iniciou há cerca de cinco mil anos, nas primeiras sociedades agrícolas da Europa (...) Na altura da viagem de Colombo [cerca de 1500], jogava-se nas ilhas britânicas com uma bola pesada de couro recheada dos mais diversos materiais, ou então com bexigas de animais insufladas, que eram pouco resistentes aos pontapés (...) A borracha só começaria a ser manufacturada na Europa no início do século XIX (...) Os povos americanos, com a sua bola de borracha, saltitante, beneficiaram de muitas centenas de anos prévios ao aperfeiçoamento, o que iria gerar uma espécie de memória filogenética que estaria na origem da frequente excepcional qualidade técnica dos jogadores oriundos desse continente. Quando a equipa nacional do Uruguai, em 1920, se apresentou em Inglaterra e ganhou por 5-3, o orgulhoso país que acabara de inventar o futebol passou a interrogar-se sobre a origem de tais qualidades técnicas. Sim, eles tinham inventado o futebol, mas os outros tinham inventado a bola saltitante muitos séculos antes (...) O poeta Rainer Maria Rilke descreveu esta bola, hesitando eternamente entre a queda e o voo, à procura do seu ponto culminante antes de se inclinar na direcção do jogador. Era uma bola que servia para ser jogada, mas que também jogava com os jogadores, indicando-lhes sempre um novo movimento, uma nova atitude ou posição (...) Apesar de ser um objecto produzido industrialmente, fruto da tecnologia mais avançada da época, essa bola era um elemento orgânico, natural, sem artifício, com o seu simbolismo vegetal do caoutchouc, que reenviava à seiva, ao sangue e ao esperma (...) Em 1863 nascia oficialmente o futebol moderno, um jogo com bola que ainda hoje é o único a prescindir do uso das mãos. Por volta de 1876, 13 anos depois depois do nascimento oficial do futebol moderno, a manifestação das "habilidades" individuais daria lugar a uma série de passes e combinações no que era, finalmente, um jogo colectivo: o passing game. A partir daí, o futebol sofreria poucas mudanças estruturais.(...) E é verdade que os pés desenvolvem quase todo o jogo, com os seus golpes rápidos e inesperados, mesmo porque só eles, como diz Jean Giraudoux, podem dar à bola o máximo de possibilidades e efeitos. Porém, o jogo é um ofício de todo o corpo, já que não incita apenas ao uso dos pés mas, também, de todas as superfícies das pernas, do peito, da cabeça, do tronco, das coxas, dos joelhos (...) Ou seja, o que de início tinha a aparência de uma limitação, a privação das mãos, mesmo de uma violação da nossa natureza, acabaria por se revelar como a saudável libertação de um constrangimento, pois o corpo foi democratizado, liberto, e recuperou um saber instintivo ancestral. (...) A privação das mãos produz um claríssimo apelo ao apuramento dos sentidos (não se elogia "o cheiro" do golo de certos avançados, ou a "visão" de jogo do organizador?) e, sobretudo, ao gesto instintivo. O jogador, cujos pés são inteligentes, cujos joelhos são inteligentes, como dizia Henry de Montherlant, readquire com a prática do futebol, um instinto primitivo que estava sepultado muito fundo, dentro de si, e que a realidade não solicitava. Criou-se, assim, um vínculo ao natural e a uma certa forma de animalidade de que o futebol é depositário e que torna maravilhosamente presente uma certa liberdade infra-humana. E isso, como disse Jacques Ferran, "é regressar à natureza e mergulhar de novo na grande noite da espécie". (...)
Um sentido do destino plana sobre os jogos, lembrando por vezes com brutalidade que o mérito não é suficiente e torna-se necessário conjugá-lo com a sorte. (...)
É pois nessa complexidade e não na sua suposta simplicidade que repousa, em parte, o encanto do futebol, o qual continua a ser imprevisível e irregulável, apesar de todos os esforços que ao longo da sua história moderna têm sido feitos para extirpar essa saudável margem de impertinência. A dificuldade gera a incerteza e a irresolução, ou seja, a emergência da "música" do acaso, que continua a fazer de cada jogo um encadeamento aleatório e fulgurante de acontecimentos mal previstos: a ordem natural das coisas.
Por sua vez, a incerteza, consequência da dificuldade [em jogar com os pés], gerou a expectativa e a ansiedade, bem como a superstição e a simpatia mágico-religiosa que domina secretamente o jogo, e é o seu "tenebroso coração". (...) Apesar da sua aura científica, gestos como o aquecimento, as concentrações antes dos jogos, e mesmo certos aspectos do treino, têm a sua boa porção de rituais mágicos para atrair a boa energia e os favores dos deuses. Os jogadores não são "aqueles que vão morrer", como os antigos gladiadores, mas são "aqueles que se vão expor à sorte". (...)
Mais: [além de não poderes jogar com as mãos] abdicarás também de dons humanos como a linguagem e o pensamento conceptual, que, juntamente com a aquisição das mãos, fundaram a tradição e a cultura e nos elevaram a um nível superior ao dos outros animais. De facto, o futebol alheia-se da tradição e da cultura, isto é, dos domínios do consciente, operando uma regressão para os dons físicos naturais. Ele não se dirige ao que há de humano em nós, isto é, ao que resulta da nossa evolução civilizada. Pelo contrário, nele tudo remete para a nossa irracionalidade (seja a do praticante, ou a do espectador). Por isso é uma tão vibrante celebração da animalidade, a nossa, naturalmente: "esse simples prazer do corpo que se lança na aventura interdita da liberdade", como disse Eduardo Galeano. (...) Acontece que a essa recuperação instintiva corresponde uma diminuição da consciência, já que, na verdade, o futebol devolve o homem que o joga a um estado menor, elementar, fulgurante, ou seja, a uma primeira natureza que se opõe à segunda natureza do pensamento e da consciência. Assim, privado das mãos e da linguagem, o jogador regride a níveis muito baixos de consciência. E para que precisa ele dessa consciência se a sua função consiste justamente em encontrar acessos e vias para os quais ela não contribui? Mais: essa perda acentuada de consciência encontra a sua compensação num acréscimo de instinto; e o que é o instinto senão uma inteligência natural e nata, que é suposto o homem também ter possuído em idades mais recuadas? (...) A sua acção em campo, sarabanda de músculos e nervos a cada momento mobilizados por choques de alta tensão resulta de um comportamento que está enraizado na apreensão perceptual de cada situação. Por isso, ele integra qualidades da vida animal e surge muitas vezes aos nossos olhos como se estivesse possuído pela sua energia e pelos seus poderes físicos. (...) Ele encarna o que há de sensitivamente humano no animal e ao mesmo tempo de silenciosamente animal no homem, o que lhe permite aceder diretamente à totalidade originária, participar dela. É ainda o homem, evidentemente, mas sem a defesa da racionalidade, exercendo o direito ao seu instinto primitivo e, por isso, exprimindo o que há de puramente animal no homem. É o animal humano. (...) De um modo mais genérico, e enquanto os guarda-redes são felinos, os defesas são mulas, os médios potros ou cavalos e os avançados vivos e expeditos são ratos ou ratas. Há países da América Latina que chamam pescadinhas aos extremos fugidios, perdizes aos extremos rápidos e pasto ao terreno de jogo. Aos jogadores que se comportam com bravura extrema também se dá a elogiosa designação de "feras". (...) Os próprios clubes adoptam uma espécie animal como encarnação do espírito ancestral e exibem de bom grado a sua identificação com esse animal totémico. (...)
Concluindo: o futebol é uma vibrante celebração da animalidade, incluindo, naturalmente, a nossa. Não admira, por isso, que seja uma fonte de consolo para o homem moderno, esse animal evoluído mas desnaturado. Inesgotável fonte de vida irracional e inconsciente, ele continua a cumprir a sua última finalidade: (re) ligar o homem à Natureza. E o que é a Natureza senão o homem sem a defesa do conceito e da racionalidade?
Embora o desporto, na sua semântica actual, se constitua e regulamente como um fenómeno derivado da revolução industrial, as suas diferentes modalidades repartem-se entre as que são de inspiração industrial e base urbana, como é o caso do basquetebol, por exemplo, e as que tiveram uma origem mais longínqua e rural (futebol, râguebi, hóquei em campo, golfe, críquete) e cujas regras se foram obtendo a partir de uma vasta e anónima genealogia. A do futebol desenvolveu-se ao longo de cerca de cinco milhares de anos, dos quais apenas cento e poucos correspondem à sua fase moderna, iniciada em 1863, e pós-moderna, que ainda decorre. Os restantes pertencem às suas fases cultual, tradicional e pré-moderna, todas perfeitamente interpenetradas e articuladas, e ao longo das quais foi recebendo a sua substância e estrutura.
Culto ligado ao trabalho, reflectiu os sistemas de produção de cada época (tal como aconteceria, de resto, ao longo das três idades da sua vida moderna e tal como ainda hoje acontece). Foi-se articulando com a atitude do homem perante a natureza, o mito, a história, o sagrado, ou seja, com as diferentes mentalidades e concepções de vida, e também, naturalmente, com as diferentes noções de tempo e espaço, funcionando como uma micro-representação de cada uma dessas épocas. (...)
Manifestação coerente e regulada da vida colectiva, o futebol ainda hoje nos dá indicações sobre uma mentalidade desaparecida e de que ele é ainda uma expressão estilizada. Por um lado, é um elemento permanente da cultura dos homens, da qual se encarrega de projectar um reflexo, e, por outro, transporta em si uma realidade que subjaz ao tempo e corresponde a um esforço rude, residual, para manter a antiga visão das coisas. Como se a sua missão fosse preservar algo que é essencial ao homem, um tesouro mitológico, precioso, acumulado à custa de esforços infinitos.

Álvaro Magalhães, O futebol. Uma história natural, suplemento História, Jornal de Notícias, nº10, Outubro de 2017, pp.10-25.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Apoiar os meninos


A apoiar o Afonso, no Diogo Cão-Mesão Frio, sub15, campus da UTAD, (esta) manhã de nevoeiro, jogo retardado. No papel de duplo-pivot, interior esquerdo, no 4x2x3x1 da equipa, o camisola 13, mais delicado que agressivo, gostando de dar na bola com a parte posterior da bota direita, parando e rodopiando à Lucho, abeirando-se da área adversária, marcando da meia-lua, invalidado o golaço em mais um fora de jogo inexistente.

Dale Dover



Para a geração portista, anterior à minha, uma lenda: Dale Dover.

Pais e filhos


António Lobo Antunes: Falo de pessoas normais com qualidades e defeitos como somos todos nós. Dentro de nós há muita violência como há muita ternura, há muita maldade como há muita bondade. Nós somos muito complexos enquanto pessoas. Dentro de nós coexistem sentimentos às vezes contraditórios. Às vezes se um filho nos chateia muito, apetece dar-lhe duas chapadas e fazê-lo desaparecer, mas ao mesmo tempo não queremos que ele desapareça, porque temos muito amor pelos filhos.

Jornal de Negócios: Neste caso, aparentemente, a crueldade da tragédia ganha ao amor.

António Lobo Antunes: É a tragédia da relação de um pai com um filho. É sempre um tribunal inesperado, o julgamento de um pai pelo filho, do filho pelo pai, as incompreensões, etc. e depois ficamos em paz quando os pais se vão embora. Eu agora tenho imensas saudades do meu pai. Nunca me passou pela cabeça ter saudades quando ele estava vivo. E dei-me conta de que o amava. Depois vem sempre o remorso. Mas é um julgamento terrível. Nós estamos constantemente a julgar os pais, os nossos, que por sua vez também nos estão constantemente a julgar. E é cheio de incompreensões. Eu estou a falar em geral.

entrevista concedida por António Lobo Antunes a Celso Filipe, no Jornal de NegóciosWeekend, 07-12-2017, pp.4-9.

A guerra


Resultado de imagem para apocalypse now

Jornal de Negócios: Neste livro, há desumanidade. Orelhas cortadas, violações, decapitações. Inevitabilidades da guerra são omitidas por vergonha ou medo. É um assunto mal resolvido em Portugal. 

António Lobo Antunes: Isso não sei dizer. Dentro de mim é mal resolvido porque continua a atormentar-me. As outras pessoas, não sei. Acho que agora as pessoas já nem pensam nisso, a maior parte nasceu depois [da guerra colonial].
Uma guerra não é um chá da Cruz Vermelha. Tem de ser eficaz, tem de vencer e aterrorizar o inimigo. Sempre aconteceu. Uma guerra é isto. Não são abraços, beijinhos, um chazinho. Dentro de nós existe uma grande crueldade. Quem não é capaz de matar? Toda a gente é capaz de matar, temos é medo. E ali, de repente, matar era porreiro porque não havia consequências. Não estou a dizer que era assim que se passava, ou que não se passava assim, isso não interessa, mas entre nós existe muita crueldade.
A cena de violação do major, isso vi eu.

entrevista concedida por António Lobo Antunes a Celso Filipe, no Jornal de Negócios, Weekend, 07-12-2017, pp.4-9.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

A importância da tradição judaico-cristã


Frei Fernando Ventura, em Raízes, em conjunto com José Pedro Serra, sobre a herança do judeo-cristianismo. Falando de um tempo sem memória, do cristianismo como uma relação e não uma religião, do modo como somos amputados da dimensão emocional e sentimental remetida para uma espécie de fraqueza na qual não deveremos entrar. As pessoas não vão de cara alegre nos transportes públicos, nem, tão-pouco, assim vão às missas, nas quais entram com cara de enterro e parecem suportar todo o peso do mundo quando deveriam beber ali para o transformar. A importância a dar ao cristianismo não pode derivar somente de uma posição confessional privada, no que seria um grande erro. Por vezes, o respeito pela antiguidade clássica, e nomeadamente a sua arte, exprime-se em uma reverência - mesmo que, por vezes, postiça - que o judeo-cristianismo parece não alcançar em muitas das nossas comunidades. O judeo-cristianismo não é um elemento que possamos negar na nossa tradição. O cristianismo perdeu muito o sentido da festa - ritualmente e na vida. Tomar o cristianismo como uma moralidade é completamente fatal. Regras, exterioridade, ritos sobre estas. No paganismo, sentia-se uma alegria que às vezes falta aqui. E o cristianismo nasce na maior explosão de festa - que é a manhã de Páscoa. O Deus de Jacob não é um Deus distante: é um Deus da estrada, um Deus-cigano. De tal maneira Deus que se faz um de nós. "O contributo do judeo-cristianismo para a humanidade não tenho nenhuma dificuldade em aceitar" (José Pedro Serra). Independentemente da adesão existencial ao Deus-vivo, há duas ideias que nos embebem completamente e da qual não podemos já sair: a ideia da Transcendência (o Deus da Aliança) e a própria ideia de História (a história como ideia/concepção é uma coisa judaica; não conheço nenhuma concepção anterior aos judeus que conhecesse a ideia de história; durante séculos e séculos, em função do mito, via-se o tempo como circular, o que significava um terror na abertura ao tempo, e o medo do futuro com aquilo que ele tem de novo; era um horror à história, e com a consequência de uma segurança existir). Para os judeus, a história é lugar da revelação de Deus: o tempo e a história têm um sentido. Devemos ver com preocupação o afastamento da compreensão - da inteligibilidade, por parte de tantos contemporâneos - destas categorias. Um texto tão afastado, à partida poder-se-ia pensar, da fé judaico-cristã, e típico daquilo que viria a ser uma dada sensibilidade do séc.XX, como À espera de Godot, na verdade não se compreende sem as categorias judaico-cristãs da espera, da esperança (apesar dos jogos semânticos, a propósito da peça, com a palavra God, Godot seria, afinal, um mero ciclista que não teria jeito para andar de bicicleta e terminava sempre no mesmo lugar). Um aluno fantástico de Filosofia, na Universidade, perguntou a José Pedro Serra o que era/é um Evangelho. A nossa experiência desta memória judaico-cristã é, em realidade, muito marcada pela ignorância dos textos originais. Frei Fernando Ventura corrige a palavra Testamento para traduzir o original das duas grandes partes que compõe a Bíblia e traduz por Aliança (Antiga Aliança e Nova Aliança, respectivamente). O que está em crise no nosso tempo não é a fé, é a vida: a minha relação com o outro. O mito autodestrutivo de hoje: a autorrealização (tudo o que está para além de mim não me interessa). Temos relações com o outro, mas não somos com os outro. 
Dizer que a condição humana é trágica não é negar a Transcendência: é a emergência de um momento indomável onde tudo pode acontecer. Onde não temos muletas morais, onde não temos códigos de bom comportamento, onde ficamos a sós com a sombra da Transcendência. E tudo pode terminar bem se eu aspiro a um Absoluto (e toco), ou pode terminar mal no sentido de uma ferida enorme que não é sarada. 
No esquecimento da tradição judaico-cristã - uma ignorância indesculpável! - não estará, porventura, o anti-semitismo? No sentido de que tu (judeu) reclamas/exiges o que eu não consigo reclamar/exigir (a Transcendência)? Tu mostras-me um caminho que eu consigo apenas raspar. Mostras-me uma Transcendência que se calhar é mais cómodo eu não sondar. 
O outro deixa de ser alguém com quem eu me construo, mas alguém contra com quem me construo. 

"A QUE ESPÉCIE PERTENCEMOS?" (II)

Resultado de imagem para livre-arbítrio

Vou agora considerar outra característica da condição humana que nos distingue dos nossos parentes simiescos: a responsabilidade. Consideramo-nos mutuamente responsáveis pelo que fazemos e, em resultado disso, entendemos o mundo de formas que não têm paralelo nas vidas das outras espécies. O nosso mundo, diversamente do ambiente de um animal, contém direitos, méritos e deveres; é um mundo de sujeitos conscientes de si mesmos, no qual os eventos são divididos entre livres e não livres, os que têm razões e os que são meramente causados, os que têm origem num sujeito racional e os que irrompem no fluxo de objectos sem qualquer desígnio consciente. Pensando no mundo desta forma, reagimos a ele com emoções que estão para lá do reportório dos outros animais: indignação, ressentimento, e inveja; admiração, compromisso e elogio - todas estas implicando pensar nos outros como sujeitos responsáveis, com direitos e deveres e uma visão autoconsciente do seu futuro e do seu passado. Só seres responsáveis conseguem sentir estas emoções e, ao senti-las, situar-se de certa forma fora da ordem natural, distanciando-se dela para emitir julgamento. De Platão a Sartre, os filósofos divergiram radicalmente nas suas tentativas para descrever estas características peculiares da condição humana - mas quase todos concordaram em intentar uma descrição filosófica, em vez de científica. (...) A condição humana, seja em que forma primitiva se imagine, é a condição de «criaturas como nós», que riem e choram, elogiam e culpam, recompensam e castigam - ou seja, que vivem como seres responsáveis, que respondem pelas suas acções.
Há outras verdades marcantes acerca da condição humana que, embora muitas vezes desvalorizadas ou ignoradas pelos pensadores de orientação biológica, ocupam um lugar central na perspectiva das pessoas comuns: por exemplo, há o facto de sermos pessoas que regulam as suas comunidades com recurso a leis que atribuem deveres e direitos. Alguns filósofos - nomeadamente Tomás de Aquino, mas também Locke e Kant - defendem que é «pessoa», e não «ser humano», o que constitui o nome verdadeiro da nossa espécie. E isso dá origem a uma questão metafísica que foi trazida para a ribalta por Locke e ainda hoje é discutida - a questão da identidade pessoal. Qual é a relação entre «mesma pessoa» e «mesmo ser humano» quando ambas se referem a Jill? (...) Para sublinhar as dificuldades com que se depara a perspectiva de que Jill é, de certa forma, reduzível aos processos biológicos que a explicam. Em que circunstâncias esses processos reproduzem a pessoa que Jill é?
Há também a divisão que separa criaturas meramente conscientes de criaturas conscientes de si próprias como nós. Apenas as segundas têm uma perspectiva genuinamente na «primeira pessoa», a partir da qual distinguem como as coisas me parecem de como as coisas te parecem. As criaturas com pensamentos de «eu» têm uma capacidade para se relacionar com outras da sua espécie que as distingue do resto da natureza, e muitos pensadores (Kant, Fichte e Hegel entre os mais importantes) acreditam ser este facto - e não o facto da consciência per se - que cria ou revela os mistérios centrais da condição humana. Embora os cães sejam conscientes, não reflectem na sua própria consciência como nós - vivem, como Schopenhauer afirmou, num «mundo de percepção», com os seus pensamentos e desejos voltados para fora, para o mundo perceptível.
Tentei ilustrar o modo como, a fim de elaborar explicações biológicas vívidas da nossa vida mental, somos tentados a atribuir à biologia todas as coisas que ela deveria estar a tentar explicar. Se queremos chegar a uma teoria plausível da natureza humana, teremos, antes do mais, de resistir a essa tentação. E teremos de estar preparados para admitir que leis de ser-espécie como as que estabelecemos - as leis da genética e a descrição funcional das características hereditárias - não são ainda adequadas para descrever ou para explicar o nosso comportamento normal. Ficam aquém do que se pretende pela simples razão de que aquilo que somos não é aquilo que elas supõem que somos.
Somos certamente animais, mas também somos pessoas incarnadas, com capacidades cognitivas não partilhadas com outros animais que nos dotam de uma vida emocional completamente distinta - dependente dos processos do pensamento autoconsciente que é único à nossa espécie.

Roger Scruton, A natureza humana, Gradiva, 2017, pp.33 e ss.

Análise política

Resultado de imagem para freitas do amaral

Visão: Já não há diferenças entre a esquerda e a direita?

Freitas do Amaral: Há. A diferença é que a direita, quer lhe custe quer não, aceita impor sacrifícios aos mais fracos, mantendo ajudas às empresas que dizem que criam empregos, ao passo que a esquerda não aceita isto. Essa é a grande diferença. Eu sempre me afirmei centrista.


Visão: Ainda há centro? 

Freitas do Amaral: Não. Há direita e esquerda.


Visão: Mas afirma-se centrista. O que é isso de ser de centro? 

Freitas do Amaral: Tendo partido da direita, é ter percebido que a situação económica e social contrastante com o resto da Europa, que já conseguiu erradicar a pobreza, quando nós temos 25% das pessoas a viver abaixo do limiar de pobreza. Choca-me profundamente.


Visão: É ter partido da direita e ser sensível aos ideais de esquerda?

Freitas do Amaral: Exatamente. Desde que o que se fizer no plano social não prejudique o cumprimento das regras de Bruxelas e não atrase muito o reembolso da dívida. Houve um momento em que o PSD do dr.Passos passa para a minha direita, arrastando consigo o CDS. Eu, tendo ficado exatamente no mesmo sítio, quem tenho à minha esquerda? O PS. Com o PS e o PSD demasiado à direita, aproximei-me do PS, votei no PS.


entrevista concedida por Freitas do Amaral a Inês Rapazote, na Visão nº1291, de 30/11 a 06/12/2017, pp.52 e ss.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Convocar leituras/conhecimento à cidadania (V)

Resultado de imagem para Eutanásia, Suicídio Ajudado, Barrigas de Aluguer

Na crónica na ufm, nesta segunda feira:

Sob o manto da indiferença

O médico e Professor da Faculdade de Medicina de Lisboa, Miguel Oliveira e Silva, ex-Presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, acaba de dar um excelente contributo cívico com a publicação do muito informado e documentado Eutanásia, Suicídio Ajudado, Barrigas de Aluguer, editado pela Caminho. Neste conjunto de fortes dilemas éticos, que de imediato nos surgem por título desta significativa obra, somos, pois, brindados com uma problematização que procura ser, também, um grito contra um manto de indiferença que rodeia estes temas, em muitas latitudes. Assim, tomemos renovada consciência, com o médico-ensaísta que, hoje, e cito, “fabricam-se crianças [nuns casos sem pai genético conhecido (doação anónima de sémen), sem progenitora conhecida («barriga de aluguer») ou com duas mães biológicas (inseminação anónima num par sáfico, em que uma mulher dá o óvulo, outra dá o útero e amamenta: «maternidade biológica partilhada»]. E, em desigualdade de direitos, não se lhes reconhece nem a dignidade nem os direitos humanos fundamentais - direito à identidade e à historicidade pessoal - que se exigem e atribuem aos adultos”. Em segundo lugar, uma relevante nota de experiência comparada:  o recurso a barrigas de aluguer, em França, em nome da segurança e estabilidade das crianças perante incertezas suscitadas, voltou a ser rejeitada em Junho de 2017; um terceiro ponto muito importante: a suspensão do anonimato na doação de gâmetas não tem merecido qualquer debate, no nosso país. E isto quando, como assegura o investigador, “é hoje eticamente inaceitável, à luz de estudos e relatórios entretanto divulgados nos países europeus em que este fenómeno foi e é estudado e debatido. E é lamentável que, mantendo-se a doação de gâmetas anónima, e por isso eticamente inaceitável, em Portugal, Espanha, França, Bélgica, tenha que vir a ser, não a Ética, mas a tecnologia de identificação de DNA, cada vez mais acessível, menos dispendiosa e, dentro em breve, prática quase corrente no domicílio e realizada até pelos próprios adolescentes - com a descoberta que algo «não encaixa» entre pais e filhos...- a anunciar o fim inelutável de tal anonimato”. Um quarto destaque, neste contexto, se quisermos mais de ordem filosófica, continuando a escutar o académico em causa: “A natureza humana não é certamente imutável nem perfeita, e a humanidade tem o direito e o dever de intervir na correcção das suas imperfeições. Em que condições, com que limites, e o que são imperfeições? (…) Talvez já num futuro não distante, a gravidez e o parto poderão vir a decorrer fora do organismo feminino, em «úteros» artificiais (ectogénese), já hoje estudados na prevenção do parto pré-termo em ovelhas. A tecnocracia cria a sua própria normatividade, uma nova heteronomia da vontade, impondo as suas regras no mercado em novos e velhos costumes. É a tecnociência, subtraída ao controlo da Ética e da regulação política, a ditar as regras desde o início até ao final da pessoa humana. Tecnociência que, de algo constitutivo, intrínseco, libertador do ser humano, se subtrai a qualquer influência externa e passa, ela mesma, a ser a própria normatividade da acção humana: a técnica a ditar as normas à Ética (…) Pensar bioeticamente supõe, nas ciências da vida, estar informado e informar com profundidade, participar, remar contra a apatia e anestesia geral que recusa ou evita o debate público de cidadãos e aceita um seu simulacro institucional. É tomar como ponto de partida a capacidade de espanto, a permanente inquietação e tensão das dissensões na biomedicina e suas tecnociências, estar atento às consonâncias e dissonâncias entre o tecnicamente possível, o moralmente desejável e o juridicamente aceitável e praticável - da lei à prática vai um grande passo -, numa moral que se deixa interrogar, não de semáforos e interditos, e que recusa a violência mediática e lógica dicotómica, binária e bivalente do pró e do contra”.
Em quinto lugar, os extremos a que já se chegou e a necessidade de uma regulação muito cuidada nas situações de barrigas de aluguer: houve, já, 4 casos de crianças, nascidas através de barrigas de aluguer, no Canadá, que tiveram de ser dadas para adopção, já que nem a grávida de substituição, nem o casal beneficiário as quiseram.
Em sexto e último lugar, dados os limites de tempo deste reparo do dia: “em França, o primeiro país europeu com um Conselho Nacional de Bioética, nomeado por François Mitterrand em 1983, as chamadas leis de Bioética eram inicial e obrigatoriamente revistas todos os cinco anos e actualmente são-no todos os sete anos, tal a consciência da respectiva sensibilidade e do efémero que nelas se pode plasmar - a próxima revisão está prevista para 2018 e qualquer projecto de reforma é objecto de um debate”.
Estamos muito a tempo de aprender.

Boa semana.

Pedro Miranda

Centeno


Quando a troika chegou, Carlos Costa e Vítor Gaspar indicaram Centeno para as negociações por ser o quadro mais qualificado do Banco de Portugal. Quando Cavaco Silva tentou um acordo de regime entre Passos Coelho e António José Seguro na sequência da crise política de 2013, Centeno foi chamado às negociações (...) Centeno passará a ser um rosto do inimigo, que torna impossível a utilização de argumentos tipo 'a culpa é de Bruxelas'.

Ricardo Costa, Expresso, nº2353, 1 de Dezembro de 2017, p.2

Filosofia


Raízes, de Maria João Seixas e José Pedro Serra, com Maria Filomena Molder.

Filosofia como género literário grego, sucedâneo das discussões vivas (e inimitáveis), com diferentes registos - diálogos (Platão), aforismos/poesia (Nietzsche), discurso catedrático (Kant); e a Summa Theológica é, ainda, uma coisa outra - enquanto suporte de algo substantivamente diverso também. Nós já não podemos escapar à filosofia.

A cultura grega é uma cultura agónica: tudo se faz (resolve) através do combate (combate-se na poesia, nos jogos desportivos, na tragédia). O uso da ironia é cruel porque visa enganar o adversário.

Sócrates é uma boa escolha, como paradigma da filosofia (grega), pela ligação entre a reflexão e a atitude filosófica. E continua a ser uma figura obscura. Com várias tradições e escolas de pensamento que o reclamam, e escreveram sobre Sócrates, muito diferentes e contraditórias entre si. O mesmo se diga de apreciações e juízes posteriores sobre Sócrates, como as de Erasmo ou Nietzsche.  

Antes de Platão, a Filosofia era a busca de um regime de vida.

"No segundo ano do curso, o Professor perguntou-nos qual o filósofo de que mais gostávamos. Respondi Heraclito". A ideia de "não desprezes nada", nada é indigno da tua atenção.

Vários Sócrates em Platão: a) o que se defende, na Apologia, e faz os adversários contradizerem-se e o poder evadir-se da prisão e não o fazer; b) a acusação de perverter os jovens e não acreditar nos deuses: a filosofia é uma das formas de tornar comunicável uma certa forma de desadaptação e desencaminhar os jovens e não acreditar nos deuses ou introduzir outros deuses é uma forma de desadaptação; c) no Fédon, o condenado ao morte, não temos o discurso direto apenas. O sonho. Um deus que lhe dizia: compõe música. Nietzsche, fala disto, no parágrafo 14 de A Origem da Tragédia: alguém que olha para trás, à beira da morte, e alguém que não distinguiu música de filosofia; d) no Fedro, um Sócrates enebriado, embriagado, enfeitiçado pelas ninfas. Aí Sócrates, que era anti-lírico, tem aí um momento de grande lirismo. A razão (logos) humana está ligada a formas de loucura (manias); d) o Sócrates do Banquete é aquele homem que se recusa a falar do amor e recorre a uma mulher, Diotima; e) o Sócrates jovem, Parménides, a discutir com Parménides.

Não há diferença entre o Logos que ordena a realidade (que a torna inteligível) e o Logos que a pensa. Não há separação entre a ordem mental e a ordem do real.

Quando se diz: "aquele indivíduo é um lírico", isso significa que deixou de ser uma prática comunitária; não se lê, nem se pratica, logo é extravagante e supérfluo.
Aristóteles é o primeiro filósofo a defender os poetas contra os críticos no âmbito da filosofia.

Os gregos entendiam-se como um enigma para si próprios - o que foi muito singular. E, assim também, a capacidade de espanto, ficar tocado por aquilo que há. Uma experiência que não se gasta, apenas se aprofunda. Experiência intransmissível. Reconhecimento da capacidade da pessoa se espantar com as coisas pequenas (vento, partes de animais, etc.). A nossa experiência é muito limitada pelo carácter mecânico das coisas. A filosofia requer audácia. Ser fiel ao toque misterioso dos momentos.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Convocar leituras/conhecimento à cidadania (IV)

Resultado de imagem para sheila fitzpatrick a revolução russa


Num dos reparos do dia da actual temporada na ufm:

100 anos da Revolução Russa

Agora que o termo populismo anda muito em voga, a propósito e a despropósito, interessa ver o que significou ele nos debates no interior das classes cultivadas na Rússia de finais do século XIX, preâmbulo das opções que no quadro revolucionário que se abrir depois – estamos nos 100 anos dessa mesma Revolução – se revelaram muito importantes. Pois bem, uma das grandes discussões então em debate era a industrialização da Europa Ocidental e as suas consequências sociais e políticas.
Uma das perspectivas defendidas, como relata a especialista neste período histórico, Sheila Fitzpatrick, era a de que a industrialização capitalista conduzira à degradação, ao empobrecimento das massas e à destruição do tecido social no Ocidente, pelo que a Rússia devia evitá-lo a todo o custo. Os intelectuais radicais que sustentavam este ponto de vista foram, retrospetivamente, designados por «populistas», embora a denominação remeta para um nível de organização coeso que, de facto, não existia. O populismo constitui, essencialmente, a corrente dominante do pensamento radical russo, entre as décadas de 1860 e 1880. A linha de pensamento intelectual denominada populismo combinava uma objecção à industrialização capitalista e uma idealização dos camponeses russos. Diferentemente, no interior de uma intelligentsia que tinha em comum o socialismo mas com diferenças claras no seio deste (para muitos um socialismo compatível com a democracia, pelo que os caminhos entre Fevereiro e Outubro de 1917 desiludiram tantos, dentro e fora da Rússia), os marxistas consideravam a industrialização capitalista um processo inevitável, sublinhando, inclusive, que o capitalismo era a única via possível para o socialismo, e que o proletariado industrial, gerado pelo desenvolvimento capitalista, era a única classe com capacidade para levar por diante a verdadeira revolução socialista. De acordo com a historiadora Fitzpatrick, “na Rússia - como na China, na índia e noutros países em desenvolvimento -, o marxismo tinha um significado muito diferente do que lhe era atribuído nos países industrializados da Europa Ocidental. Era, simultaneamente, uma ideologia de modernização e uma ideologia revolucionária e poderá constituir uma surpresa para o leitor moderno  que apenas conhece Lenine na sua faceta de revolucionário anticapitalista. Todavia, o capitalismo era um fenómeno «progressivo» para os marxistas da Rússia de finais do século XIX. No plano ideológico, os marxistas eram a favor do capitalismo por se tratar de uma etapa necessária no caminho para o socialismo. Emocionalmente, porém, o compromisso era mais profundo: os marxistas russos admiravam o mundo urbano, moderno e industrial e sentiam-se indignados pelo atraso da velha Rússia rural”. Este paradoxo, para muitos, de perceber como para os marxistas o capitalismo era o caminho necessário – ainda que a superar – para o comunismo (incluindo, até, uma admiração pelo mundo moderno urbano e industrial e ocidental), pode, ainda, ser completado por um outro dado que se pode apresentar, para alguns, como contra-intuitivo, mas do qual convém tomar nota: as três décadas anteriores à revolução de 1917 não foram marcadas por um empobrecimento, mas por um aumento da criação de riqueza, na Rússia (pp.35-36), ainda que os camponeses, 80% da população, não tenham registado nenhuma melhoria de vida significativa (embora a não tivessem deteriorado também). "O progresso existira de facto, mas o mesmo contribuíra em grande medida para a instabilidade social e para a probabilidade de convulsões políticas: quanto mais rápida é a mudança de uma sociedade (seja ela entendida como progressiva ou regressiva), mais reduzidas são as probabilidades de estabilidade. Se pensarmos na grande literatura da Rússia pré-revolucionária, concluiremos que as imagens mais vívidas são as da deslocação, alienação e ausência de controlo sobre o destino" (pp.36-37). Na revisitação deste período histórico é especialmente interessante registar as interrogações que se oferecem aos que se debruçam, profissionalmente, sobre este campo de análise:
"As revoluções são convulsões sociais e políticas complexas, sendo, por isso, natural que surjam entre os historiadores que sobre elas escrevem divergências quanto a aspectos tão elementares como as causas, as metas revolucionárias, as repercussões na sociedade, o resultado político e até o calendário da própria revolução. No caso da Revolução Russa, o momento inicial não suscita dúvidas, sendo referida de forma quase unânime como a «Revolução de Fevereiro» de 1917, que conduziu à abdicação do Imperador Nicolau II e à formação do Governo Provisório. No entanto, quando terá terminado? Em Outubro de 1917, quando da tomada do poder pelos bolcheviques? Ou em 1920, com a vitória destes últimos na Guerra Civil? Poder-se-á afirmar que a «revolução feita a partir de cima», liderada por Estaline, fez parte da Revolução Russa? Ou dever-se-á antes defender que a Revolução prosseguiu durante o período de vigência do estado soviético? (...) Os indícios típicos de um Termidor apenas se tornaram visíveis no início da década de 1930, quando a agitação serenou: a beligerância e o fervor revolucionários esmoreceram, adoptaram-se novas políticas destinadas ao restabelecimento da ordem e da estabilidade, assistiu-se a um ressurgimento da cultura e dos valores tradicionais. Este Termidor, porém, não marcou o fim definitivo da sublevação revolucionária. Numa derradeira convulsão interna, ainda mais devastadora do que os anteriores surtos de terror revolucionário, as Grandes Purgas de 1937-8 eliminaram muitos dos Velhos Bolcheviques revolucionários ainda vivos, operaram uma renovação generalizada na composição das elites políticas, administrativas e militares e condenaram mais de um milhão de pessoas à morte ou ao gulag". Comentando este livro, Revolução Russa, José Milhazes inscreveu-se entre aqueles que entendem que o carácter revolucionário do regime se manteve até 1989.

Boa semana.
Pedro Miranda


domingo, 3 de dezembro de 2017

A sequela de Gore

Resultado de imagem para uma sequela inconveniente

Al Gore foi vice-presidente de uma Administração norte-americana que, de um modo global, pareceu, à época pelo menos, bastante bem sucedida (ainda que se percebesse também, bastante tempo depois, é certo, que nem tudo o que reluzia era ouro, como o caso do fim da lei, durante aquele Executivo, que obrigava à separação da banca comercial da puramente especulativa e cujas consequências larvar na crise incubada a partir dos anos 2007-2008 foram dramáticas, como aliás não deixou de sublinhar a negro um homem como Robert B. Reich, secretário de estado de então, em AfterSchock). Não tenho quaisquer dúvidas, seja como for, de que o mundo teria ficado bem melhor entregue se a Presidência lhe tivesse sido confiada, na polémica eleição no início do século, nos EUA. Um homem muito preparado e sólido (leiam-se alguns dos livros traduzidos para português). E, também é certo, alguém que muito sistemática e consistentemente se dedica, desde os anos 80, às grandes questões ambientais. 
Dito isto, ontem estive a ver Uma sequela inconveniente (tal como vira, há dez anos, Uma verdade inconveniente). Tendo lido, na edição de Dezembro do Courrier Internacional, os elogios do L.A.Times e a crítica demolidora do The Guardian ao documentário, concluí, após o visionamento da fita que, em querendo apresentar o filme a adolescentes e trazer a debate as questões que AlGore teve o mérito enorme de introduzir no debate público (mediático), à escala global, desde há muito, necessário seria - ou será - uma contextualização biográfico-política nada negligenciável, porque, às tantas, o espectador pode ser tentado a perguntar-se se o documentário é sobre as questões climáticas, ou sobre o político Al Gore (a dedicação de Gore à causa e o seu impacto na melhoria e nos acordos sobre ela não necessitavam de tanta pessoalização no filme). A omnipresença de Al Gore chega, mesmo, a ser embaraçante - que sentido tem estarmos a ver Gore a descalçar as meias, depois de uma ida de galochas ao centro de Miami, com as cheias provocadas, já, pelas tais alterações climáticas? Ou o momento em que, estando em Paris, acompanha as informações sobre os atentados terroristas ali ocorridos e de seguida endossa as condolências ao povo francês (que tinha isso a ver com o aquecimento global?). Ou quando se recorda o que foi a eleição frente a Bush e a decisão final na Justiça (sem background, não se percebem, verdadeiramente, aquelas cenas). Ou quando dá entrevistas sobre o seu futuro político. Ou.
A presença permanente de Gore neste documentário como que desvia, aqui e ali, o foco, e, bem assim, ao expor o político a críticas de propaganda em seu favor - em última instância, quanto a um futuro político que não estaria, ou não estará, completamente fechado -, acaba por prejudicar o próprio (quando, repita-se, esta tem sido uma preocupação muito coerente e consequente na sua acção, com mais de três décadas por parte do personagem principal das filmagens).
Gore, no filme, denuncia, como aliás o vai fazendo em sucessivas entrevistas, o lobi do financiamento partidário que condicionou a agenda política e evitou mudanças mais claras nestes dez anos, no que à protecção do planeta diz respeito (nomeadamente, nos EUA); denuncia - num dos pontos mais interessantes, a meu  ver - a falta de conexão e interligação que os media (não) fazem quando há um incêndio de proporções gigantescas no Chile e outro em Espanha, etc. (porque as agendas mediáticas são muito internas/nacionais, não permitindo, assim, descobrir causas mais fundas de fenómenos que não se esgotam na escala nacional/regional/local; e no que, assim, falta de um media que conseguisse essa reputação internacional; nós, aliás, nem à escala europeia, o conseguimos divisar), ou o processo intenso e complexo de negociação - e a sua grande vitória, no que aos compromissos assinados pela Índia diz respeito - para os Acordos da Cimeira de Paris. Os mais de 4 milhões de refugiados climáticos. A referência à Laudato Si e ao modo nela se indica que são os mais pobre os principais afectados pelas alterações climáticas. Como tais alterações podem mexer com a paz global.
Mas não há dúvida de que, genericamente, o documentário, sobre o qual tinha mais expectativas, ficou bastante aquém do que poderia impactar, com um olho no clima e um outro - não se sabe qual dos dois mais aberto - em Al Gore.

P.S.: por exemplo, o documentário de Di Caprio para a National Geographic, há um ano, e no mesmo contexto, teve uma dinâmica, uma força, uma eficácia que claramente supera a do deste documentário de Gore, a quem não falta a ideia de "missão" - até nisto, exacerbada - e de "treino" com slides para outros prosseguirem na transmissão da mensagem.

David Grossman - memória primordial

A relação entre o riso e a morte

sábado, 2 de dezembro de 2017

Puskas, 2017-2018


O campeonato do...


Não jogam nada, são medíocres, humilham o futebol português com goleadas trazidas, ano sim, ano sim, ora de colossos israelitas, ora de supra-sumos da Suiça. 16 participações na Champions, 5 vezes a passarem de grupo. Nem na Liga Europa têm lugar, num grupo com Basileias e CSKA's. Saem eufóricos do Dragão por não terem sido goleados por uma equipa que mandam os Aguilares, os Brás e a televisão tabelóide dizer que é intervencionado. Perseguiram pessoal e profissionalmente Jorge Sousa, como os tribunais provaram. Vivem numa mentira permanente, tendo transformado o futebol português num lamaçal, cujo dolo diário não poderia ser mais evidente. Não manipulam imagens: manipulam tudo e todos. Ganham campeonatos como Américo Thomaz ganhou as eleições de 58; depois, há uns figurantes que fingem acreditar que não são semanais as chapeladas. Na sexta, Jorge Coroado dizia em OJogo que talvez fosse nomeado para o Dragão Bruno Paixão, ou em alternativa João Capela ou Nuno Almeida. A história, no futebol português, repete-se, de facto, ano após ano, apenas como farsa.


Ricardo Araújo Pereira a pressão da eficácia no humor

Como funciona o processo criativo de Ricardo Araújo Pereira

Quem são as "cobaias" de Ricardo Araújo Pereira - o novo livro

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Serenidade


No entanto, antes de dar início à minha peregrinação, preciso de analisar uma pergunta explosiva que espreita nas sombras dos estudos sobre o Jesus histórico: será possível que Jesus Cristo nunca tenha existido, que toda esta história reproduzida nos vitrais seja pura invenção? É uma afirmação defendida por alguns cépticos assumidos, mas não, como vim a descobrir, pelos académicos, sobretudo os arqueólogos, cujo trabalho tende a deitar literalmente por terra os voos da imaginação.
"Não conheço nenhum investigador convencional que duvide da historicidade de Jesus", disse Eric Meyers, arqueólogo e professor emérito de Estudos Judaicos na Universidade de Duke. "Os pormenores são discutidos há séculos, mas ninguém tem dúvidas sérias sobre a sua identidade como figura histórica".
Ouvi praticamente o mesmo de Byron McCane, arqueólogo e professor de história. "Não consigo lembrar-me de mais nenhum exemplo que se enquadre tão bem no seu tempo e no seu espaço e que, mesmo assim, suscite dúvidas sobre a sua existência", afirmou.
Até John Dominic Crossan, antigo sacerdote e co-presidente de um polémico fórum académico, acredita que os cépticos radicais vão longe de mais. É verdade que as histórias sobre os feitos milagrosos de Cristo são difíceis de aceitar pela mente contemporânea. Mas isso não é razão para concluir que Jesus de Nazaré tenha sido uma fábula religiosa.

Kristin Romey, arqueóloga, Em busca do autêntico Jesus, in National Geographic, nº201, Edição portuguesa, Dezembro 2007, pp.5-34

[o que aqui se regista, de novo, é um fascínio (cultural) que permanece pela figura de Jesus de Nazaré (há um ano, nas publicações à venda nos quiosques nacionais, foi a vez da Super Interessante fazer uma capa e tema de fundo idênticos); depois, o meu interesse pelo modo como essa divulgação é feita: reprodução de dados genericamente aceites, naturalmente em moldes de um artigo de imprensa, com a leveza que não é a de um artigo ou livro académico, evidentemente; de qualquer modo, suponho que os dados que este passo - para mim, o mais importante do artigo em causa - volta a sublinhar, não farão as delícias nem gerarão as partilhas que outros que tinham o charme da disrupção mas sem grande fundamento a ancorá-los, gerou, por exemplo, num texto que o Público partilhou, há alguns meses: aqui fica, pois, a sugestão para o jornal dirigido por David Dinis

Riso


Resultado de imagem para riso

Considere-se uma das características das pessoas que as distinguem das outras espécies: o riso. Nenhum outro animal ri. (...) Mas em que consiste o divertimento? Nenhum filósofo, estou em crer, conseguiu alguma vez responder cabalmente. A descrição de riso de Hobbes como «glória súbita» tem uma certa qualidade mágica, mas «glória» sugere que todo o riso é uma forma de triunfo, o que está longe da verdade. Schopenhauer, Bergson e Freud tentaram identificar o pensamento peculiar que se encontre no cerne do riso - nenhum deles, creio, com mais do que um sucesso parcial. Helmuth Plessner viu o riso e o choro como chaves da condição humana, características que tipificam a nossa distinção. Mas esta linguagem fenomenológica é opaca e não conduz a uma análise clara do riso e das lágrimas.
Contudo, uma opinião razoável poderá ser afirmar que o riso exprime uma capacidade para aceitar as nossas inadequações muito humanas: rindo, podemos atrair a comunidade de sentimento que nos vacina contra o desespero. Este facto sobre o riso - apontar para uma comunidade de sentimento - foi bem apontado por Frank Buckley. Todavia, dessa sugestão segue-se outra: só um ser que faz juízos pode rir. De um modo geral, rimos de coisas que ficam aquém das expectativas ou de gracejos que põem as nossas acções lado a lado com as aspirações que ridicularizam. (...)
Por conseguinte, para explicar o riso temos de explicar os processos peculiares de pensamento envolvidos no nosso julgamento dos outros: temos de explicar o prazer que sentimos quando o ideal e o real entram em conflito e também a intencionalidade social peculiar deste prazer. Claro que podemos intentar este tipo de explicação, postulando programas cognitivos no cérebro humano e na «mente física» nos quais são impressos. Mas por enquanto a explicação será pura especulação, com pouco ou nenhum contributo da genética.

Roger Scruton, A natureza humana, Gradiva, 2017, pp.27-29

Desemprego de longa duração


30% (134 mil) dos desempregados portugueses são desempregados de longa duração. Estão há mais de três anos à procura de emprego. São pessoas que, no máximo, têm o 9ºano de escolaridade.

Prognóstico antes do jogo


Rui Vitória fez um bom mind game quando, no final do slb-V.Setúbal, disse ir ao Dragão para ganhar os três pontos: a ideia é meter o medo no corpo (cabeça) do FCP. Se este tiver mais medo de passar a segundo classificado - se essa hipótese for omnipresente na cabeça do grupo de trabalho - do que de passar para 6 de avanço sobre o seu opositor desta noite, Vitória ganha o jogo. Não me admiraria que os encarnados entrassem ao ataque - ou, se se preferir, mais ao ataque do que se suporia - no Dragão na tentativa de gerar um certo pânico no seu adversário. Do ponto de vista estratégico - no continuum psicológico-tático - creio que assistimos a um remake, da parte visitante, do elaborado para Alvalade, há dois anos, num jogo muito importante da Liga (até para detetar estas semelhanças, penso que é importante no banco do meu clube alguém que conheça bem o campeonato português, e sua história e histórias recentes). Talvez que se o FCP, caso esta leitura não estiver errada, não se deixar abalar nessa meia hora inicial - onde, repito, creio que haverá tentativa de surpresa e de assustar -, terá renovadas hipóteses de ir mais longe. 
Com o que vai da época julgo que tem provado ser mais avisado o FCP jogar com três médios e sem Maxi em campo. Gostava que Conceição fosse mais incisivo no discurso, mais motivador do que foi. Eleger a exibição com o Leipzig como modelo e ao fazer um discurso contido, creio que apontou a um jogo mais "racional" (do que propriamente o "vamos comê-los").
Do ponto de vista da ligação ao clube, e pese o clamor acrítico gerado, as declarações das últimas semanas não correspondem, de modo algum, ao património imaterial que permitiu que o FCP fosse tão forte.

Lendas vivas do Far West

Resultado de imagem para Ricardo Costa

Os democratas do respeitinho 

O professor da Faculdade de Direito de Coimbra Ricardo Costa, que exerceu vários cargos na justiça desportiva, tem uma noção bizarra da liberdade de imprensa, da liberdade de expressão e da própria democracia. Incomodado com perguntas da Sábado sobre uma notícia que o refere, não se lembrou de melhor maneira de reagir do que queixar-se aos accionistas deste título. Não respondeu mas queixou-se a quem, na sua visão do jornalismo, nos pode repreender. Para quem passa a vida a escrever nos jornais sobre justiça, democracia e política, para quem ostenta uma sólida formação jurídica e é consultor da Abreu Advogados, uma das maiores sociedades nacionais, Ricardo Costa chumba no mais elementar teste ao seu espírito democrático. (...) É importante porque evidencia uma tendência crescente em sectores que convivem mal com a liberdade de imprensa e julgam que tudo se pode tratar na relação com os proprietários dos títulos. Esses democratas do respeitinho não nos travarão.

Eduardo Dâmaso, Editorial, Sábado nº 709, 29 de Novembro a 5 de Dezembro de 2017, p.8 

Cheias de 1967 (II)


P.S.2: Era impossível, além de tolo, tentar esconder a devastação material e humana. Doze anos mais tarde investiguei o assunto para uma cadeira universitária. Passei noites em arquivos. Soube da contribuição da Gulbenkian, imediata, para uma percentagem importante das reparações. A solidariedade de próximos (havia vizinhança nas cidades), amigos, empresas, agremiações. Os "párias" e aviadores da Ota a darem as refeições aos desalojados. A PSP, GNR, bombeiros, semanas sem folgas nem dormida.
P.S.3: concluí que, durante 10 dias, todos os jornais e revistas de 1967 ocuparam 90% das primeiras páginas com o acontecido. Acompanharam, registaram e publicaram o evoluir do número de mortos (de 100 a quase 500), com base nas informações municipais. E a Life moveu-se por onde quis, a trazer aos americanos o rosto do desastre português.
P.S.4: O regime era o que era, o exame prévio foi uma vergonha, mas a ideia do silêncio público é um mito urbano de hoje. Ofensivo para uma geração martirizada.

Nuno Rogeiro, Restauradores, in Relatório Minoritário, Sábado nº709, 29 de Novembro a 5 de Dezembro de 2017, p.68.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Cheias de 1967

Resultado de imagem para cheias de 1967

A maioria das pessoas dos sectores mais politizados da universidade, num momento de transição e radicalização que acabava com o refluxo da crise das prisões de 1965, conhecia muito mal o país. O inquérito da JUC [Juventude Universitária Católica] feito nesses anos revelava que apenas 4% dos estudantes universitários vinham de meios operários e camponeses e, no caso de Lisboa, não havia o forte recrutamento da província que existia em Coimbra pelo que a maioria tinha, quando muito, uma experiência urbana e mesmo essa parava à porta da Lisboa dos bairros de lata. A politização, por muito que fizesse as pessoas falar dos "operários e dos camponeses", esses entes, como aliás a maioria dos portugueses pobres, passava ao lado de uma sociedade desigual e fortemente classista
Em certos cursos esse acantonamento social era ainda mais evidente, como era o caso de Direito. Recordo-me de Marcelo Caetano na aula de apresentação nomear os alunos um a um e comentar "não foi o seu tio que esteve aqui há uns anos?", e "conheço muito bem o seu pai", "já cá teve um irmão, não é verdade?" e por aí adiante. A elite do país reproduzia-se em sossego naquelas salas e anfiteatros
As cheias de 1967 foram um choque neste mundo estofado e confortável e arrastaram uma aliança entre estudantes católicos e ferozes ateus marxistas-leninistas para irem para a zona da tragédia fazer o que podiam. Nem sequer os rodriguinhos de "ir ao povo" funcionavam, nem sequer o desprezo pela "caridadezinha" - era pura e simplesmente ir ajudar a parte de trás de Portugal, que era afinal quase todo o Portugal, representado naqueles mortos enlameados e nos sobreviventes igualmente enlameados das margens do Tejo. O choque foi brutal, até porque ali se percebia tudo sobre um Portugal que muitos viam apenas na retórica política e agora percebiam justificar ainda mais a revolta, sem ser pelos livros, mas pela realidade. Aquele país de mortos por contar, aquele país de vivos miseráveis, aquele país que deliberadamente se tentou esconder por todos os meios, era o Portugal imperial que terminava no ponto mais alto de "Portugal", o monte Ramelau em Timor. Se era assim cá, a meia dúzia de quilómetros de S.Bento, como seria tudo o resto? Eu vi

José Pacheco Pereira, As cheias de Lisboa, in Sábado nº709, 29 de Novembro a 5 de Dezembro de 2017, p.16.

Ousadia face ao aquecimento global

Resultado de imagem para grandes ideias

Na mais recente edição do GPS, o registo de que os três americanos mais ricos têm mais dinheiro do que 160 milhões de seus concidadãos (sendo que, pelo menos, um deles, Warren Buffet se mostra desagradado com a situação, sendo subscritor de um manifesto, com outros milionários, contra a baixa de impostos aos mais ricos que faz parte do programa de Trump); a noção de que os países, segundo o mais recente relatório da ONU, vão ter que reduzir muito mais do que estava previsto as suas emissões de dióxido de carbono se não queremos que a temperatura aumente mais de 2ºC até 2100; uma ideia tecnológica, decorrente ou por analogia com o que sucede com as emissões vulcânicas, foi apresentada por um reputado Professor de Física e Política Pública de Harvard, David Keith: o dióxido de enxofre enviado para a estratosfera que passa a gotículas de ácido sulfúrico que refletem luz solar. Ao ajudarem a refletir luz solar, as partículas ajudam a arrefecer o planeta. Com a erupção no monte Pinatubo (1991), o mundo arrefeceu durante um ano. A produtividade das plantas e dos ecossistemas aumentou. O desafio é como colocar partículas na atmosfera que tenham o mesmo efeito. Keith quer utilizar aviões para libertar um aerossol para o conseguir. A ideia era enviar aviões de um ou dois aeródromos perto dos trópicos e acumular-se-iam na estratosfera essas partículas que reflectiriam essa luz solar. Não seria uma solução milagrosa, mas reduziria os riscos do dióxido de carbono acumulado. David Keith considera que é provável que as temperaturas se reduzissem mesmo. A intensidade das tempestades extremas, a nível regional, poderia ser contida, como os ciclones tropicais que prejudicam muito os mais pobres. Também reduz as ondas de calor e o degelo. "As provas científicas de que estas tecnologias podem reduzir os riscos são muito fortes", afirma o académico. Todavia, não se conhecem as consequências de colocar essas partículas na atmosfera. Há muitas incertezas, efeitos secundários que poderiam advir, problemas. Conclui o responsável pelo programa da CNN, Fareed Zakaria, com tantas incertezas, seria de tentar, mesmo que principiando por experiências em zonas delimitadas.

P.S. Além de Buffet, estão no pódio dos americanos mais ricos Bill Gates e Jeff Bezos. Entre os 60% mais pobres nos EUA, a mortalidade tem aumentado; os 40% mais ricos tendem a apostar o quádruplo em educação. Gastam o quádruplo em educação, perpetuando desigualdades. 

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

"A que espécie pertencemos?"


Quando Darwin e Wallace apresentaram a ideia de selecção natural, foi discutido se algumas das nossas características «superiores», como a moral, a consciência de nós mesmos, o simbolismo, a arte e as emoções interpessoais, cavavam um tal fosso entre nós e os animais «inferiores» a ponto de exigirem uma explicação de outro tipo. Inicialmente, Wallace pensou que não, mas depois mudou de ideias, chegando à conclusão de que existe um salto qualitativo na ordem das coisas que situa as faculdades mais elevadas da espécie humana numa categoria diferente da categoria daquelas características que partilhamos com os nossos vizinhos de evolução. Nas suas palavras: «somos dotados de capacidades intelectuais e morais não necessárias à luz dos requisitos da evolução», e a existência dessas capacidades não podia, por conseguinte, ser explicada pela selecção natural dos mais aptos.  (...)
Reflectindo nisto, parece-me claro que Wallace tinha razão ao colocar a ênfase nas características que pareciam pôr a Humanidade num mundo à parte, embora estivesse certamente errado ao pensar nessas características como «não necessárias à luz dos requisitos da evolução», pois se temos atributos adaptativos, a racionalidade é com certeza um deles. Por outro lado, a racionalidade está, num certo sentido dessa difícil expressão, «na nossa essência». Por conseguinte, Wallace apontava para o facto de nós, seres humanos, mesmo sendo animais, pertencermos a uma espécie que não ocupa um lugar no esquema das coisas comparável ao ocupado pelos outros animais. Aqui a controvérsia filosófica - uma controvérsia paralela à existente entre biólogos e psicólogos evolutivos relativa à importância da cultura - é precisamente uma controvérsia acerca da natureza humana: a que espécie pertencemos?

Roger Scruton, A natureza humana, Gradiva, 2017, pp.11-12 e 22.

Atual


No seu mais recente livro, A natureza humana (Gradiva, 2017), o filósofo Roger Scruton escreve (p.27): "Não nego que sejamos animais; também não discordo da doutrina teológica que afirma que as nossas funções biológicas fazem parte integrante da nossa natureza enquanto pessoas humanas e também são objecto de escolhas morais fundamentais". Neste passo, remete para a seguinte nota de rodapé do fim de página: "esta perspectiva foi defendida de forma eloquente pelo papa João Paulo II na encíclica Veritatis Splendor, 6 de Agosto de 1993, secções 47 e segs.".
Serve esta brevíssima anotação para mostrar como - tal como registáramos, no último livro de Luc Ferry, 7 lições para ser feliz, também publicado este ano, e no qual o filósofo mostrara ter um conhecimento claro da encíclica Deus Caritas Est, de Bento XVI - relevantes pensadores, destes nossos dias de finais da segunda década do século XXI, mesmo partindo de mundividências divergentes entre si, continuam atentos, lendo e estudando, o que a partir do Magistério católico se oferece como reflexão sobre o humano. Neste caso muito particular a que se refere Scruton, à indivisibilidade alma-corpo, à recusa do esquema dualista (antropológico) e, por consequência, pois, do corpo - "Uma doutrina que separe o acto moral das dimensões corpóreas do seu exercício, é contrária aos ensinamentos da Sagrada Escritura e da Tradição: essa doutrina faz reviver, sob novas formas, alguns velhos erros sempre combatidos pela Igreja, porquanto reduzem a pessoa humana a uma liberdade «espiritual», puramente formal" [nº49, Veritatis Splendor] como lugar de escolhas morais, pois que a «alma (...) se exprime no corpo e [o] corpo [é] informado por um espírito imortal» [nº50, da Veritatis Splendor]. 
Se de outras àreas do saber, muitas vezes sem qualquer ponderação, se coloca fora uma tradição, uma mundividência absolutamente marcante e decisiva a Ocidente, com a alegação de religiosa - como se isso significasse capitis deminutio na cidade -, partindo de compreensões obsoletas dos principais significados que uma comunidade atribui ao que acredita, há quem não se deixe  impressionar com preconceitos que nada devem a uma busca de um olhar sempre ampliado sobre as coisas e o mundo. E, neste sentido, também para o interior dessas comunidades se pode aqui falar, de modo analógico, com o que Ratzinger dizia, quando dizia que não deviam ser os crentes a viver etsi Deus non daretur, mas os descrentes a viver etsi Deus daretur. Nada raramente, há mais interesse, pelos textos provindos desta mesma Tradição, fora da mesma, do que eles são lidos e conhecidos no seu interior (pelos que enformam esse interior).