domingo, 22 de janeiro de 2017

Da impossibilidade da redenção


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Lee é um daqueles homens simples e bons, contente com a família que contribuiu para construir, amável e paciente com os pequenos rebentos. Lee, o homem dos sete ofícios, o polivalente que é electricista, carpinteiro, picheleiro, faz tudo. Numa noite, na cave do apartamento no qual vive, prolonga o jogo de ténis de mesa e de álcool partilhado com amigos. Madrugada dentro, numa cena típica, a mulher irrompe para acabar com o barulho. Ainda sem sono, demasiado bebido, Lee vê televisão, com os filhos na sala; o tempo está frio, mas a sede aperta. Sem condições para conduzir, a noite já não era uma criança, a loja que pode fornecer as cervejas que faltam a vinte minutos a pé, Lee reforça a lareira com uns tocos adicionais. A meio da viagem, casa-loja, a dúvida acerca da protecção à lareira ter sido, por si, colocada, assalta-o. A casa arde e, apesar da volta em sentido inverso a caminho do lar, já não há regresso. Lee é, ali, sepultado. Lee (Casey Affleck imenso), vê-mo-lo e senti-mo-lo ao longo de todo o filme, experimenta-mo-lo no imenso bloqueio, na palavra que não diz, no supérfluo que esta representa, na zanga com os outros e o mundo - uma espécie de projeção na impossibilidade da reconciliação consigo próprio - no irrepresentável da sua situação, na cruz que o pai não consegue carregar, na incapacidade de exprimir o que não tem redenção, a falha, a negligência, o azar, a culpa tão densa e tão sombria, nunca superada. Irreversível. Irremediável.  

Duas cenas, imensas, no filme, sempre acompanhadas de uma banda sonora (um violino no primeiro caso) que iluminam a tortura interior, a chama que consome o homem que, a partir daquele evento trágico, desliga a ficha da inteligência emocional: é só isto?! pergunta Lee, na esquadra da polícia, quando o deixam ir embora, solto, afirmando, afinal, o carácter tantas vezes aleatório, misterioso, que nos ultrapassa da existência: não colocar protecção na lareira. Dos milhares de pessoas que na última noite cometeram milhares de pequenas falhas, infelizmente coube-lhe a si este desfecho terrível. E o é só isto?! como que nos comunicando que o homem, incapaz de se perdoar, sendo impossível de aceitar o que lhe sucedera, esperara, porventura, fora de si, o castigo, a pena que, afinal, consistirá no não consigo que dirá ao sobrinho que se vê (praticamente) compelido a adoptar/tutelar, após a morte do irmão. A narrativa de Manchester by the sea, de Kenneth Lonergan, é, pois, a da debilidade, da fragilidade humana, de um falhanço (insuperado).

A segunda cena: Patrick, o sobrinho que Lee tutela, adolescente em fase de relacionamentos múltiplos, solicita ao tio o favor de entreter a mãe de uma das girlfriend que seduz, esperando, com isso, ter o tempo necessário para concretizar os desejos mais efervescentes, no quarto da rapariga. Acontece que Lee, o tio, nem a conversa mais banal consegue manter. Não que ele não queira satisfazer o pedido do sobrinho, mas nem o tempo - não sabias falar dos juros, como qualquer adulto normal?! -, nem nenhum tópico é capaz de resgatar 5 minutos em conjunto com a mãe da jovem. O silêncio, entre não íntimos, é sempre constrangedor, e esse bloqueio, insista-se, esse poço em que Lee se mantém sitiado, esse laço apertadíssimo junto à garganta, não pode ser desfeito: vejam se se despacham porque eu já não consigo aguentar o silêncio do tio do Patrick, diz a mãe, exasperada, na irónica visita ao quarto dos adolescentes em namoro.

Carregado com o acidente mortal, o tesouro perdido à incúria e à concentração de todo o terror do mundo, mea culpa mea máxima culpa, posto entre a espada e a parede para ser tutor de Patrick - o irmão tudo planeara, dada a doença que o afactara determinantemente, e com uma cunhada profundamente alcoólica e sem família por perto, quase impossível deixar o sobrinho ao deus-dará -, Lee escuta do outro lado do telefone a mulher de quem se separou - imagina-se, em função da tragédia pela qual os dois passam - a contar que vai ser, de novo, mãe. E, numa outra cena, sóbria, esta evoca uma conversa - a que não nos é dado assistir, mas percebemos, facilmente, a violência que continha - tida após a morte dos filhos, e pede desculpa a Lee pelo que então lhe disse: além de interna e eterna, a culpabilização outra, ademais vinda da mãe das crianças, a tornar a humilhação e o fracasso totais.

Se a nova paternidade (no contexto, adoptiva), por banda de Lee, poderia sugerir uma dupla leitura - ele é confrontado, simultaneamente, como novo pai, com o pai que havia tido o destino brutal que vimos de recordar, mas, por outro prisma, ao ser convocado, de novo à paternidade, o resgate, a redenção, desde logo na confiança por outros em si depositada -, contudo, em momento algum, Lee sempre contrariado, sempre avesso a assumir o encargo, a dizer sim e pensar que não, exasperado, desesperado, Lee em momento algum se liberta - ou, sequer, pretende libertar-se - da culpa bebida até ao fim do cálice. E nunca há hipótese de lamber as feridas.

P.S. Em certo momento do filme, a quando da cena na esquadra de polícia, recordei uma frase do Papa Francisco, creio que após, ou durante, uma visita a reclusos: "Senhor, porquê eles e não eu?". 
Basta não fecharmos a protecção de uma lareira (uma vez mais, o "match point").

P.S.1. A mãe de Patrick, alcoólica, convida o filho para um almoço, com o seu companheiro. Na mesa, orações antes da refeição. Um quadro de Jesus na parede. Um homem à cabeceira. Um tom profundamente "conservador". Uma América profunda, dos "cristãos renascidos" ecoa nesta cena.

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