terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Ensinar e educar


Que se quer dizer quando se fala em «ensinar»? [De acordo com] Israel Scheffler (...): teaching that, ensinar que, teaching how to, ensinar a (fazer), teaching to, ensinar porquê. Vejamos, por exemplo, estes dois enunciados que correspondem a «ensinar que»: 1) Pedro aprendeu que Colombo descobriu a América em 1492; 2) Pedro aprendeu que é preciso ser honesto. 1) tem apenas um sentido, enquanto 2) é ambíguo, pois pretende dizer que Pedro se tornou honesto, e que ele sabe que é preciso sê-lo sempre que o não é. Assim, na educação moral, mas também na educação física e mesmo intelectual, prefere-se o «ensinar a», o ensino que forma àquele que informa; 3) Pedro aprendeu a ser honesto; logo, é-o. Só que, atendendo a 3), pode sê-lo sem saber porquê; por hábito cego ou por temor. O mesmo acontece, evidentemente, noutros domínios. Pode muito bem saber-se - saber de cor, mas também saber falar uma língua, calcular, etc. - sem compreender o que se faz. Na verdade, «ensinar a» é uma formação; mas uma formação que fosse conseguida só com certezas e apressadamente seria ainda uma educação? É por isso que é preciso levar a sério o terceiro sentido, «ensinar porquê», e que se pode ilustrar em 4) - Pedro compreendeu que é preciso ser honesto

(...)

No francês do século XIX, «educação» tem sobretudo o sentido de saber-viver, o que implica a adaptação às normas da classe «superior», aos seus símbolos, aos seus valores, ás suas convenções, mas também um real domínio de si; educado é o homem que sabe conter-se, no duplo sentido de guardar o seu lugar e guardar o sangue-frio. De todo diferente é a palavra inglesa education, palavra enganadora, cujo sentido se introduziu sub-repticiamente entre nós. Education significa o ensino como instituição, o sistema escolar e universitário; an educated person é alguém instruído, o que não quer dizer bem educado.

Olivier Reboul, A filosofia da educação, Edições 70, pp.13-14 e 20.

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