terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Conferência PISA. Mesa redonda com ex-ministros da educação



David Justino: em primeiro lugar, estes resultados devem-se aos alunos. Logo, temos hoje melhores alunos, em média, do que há 15 anos. Podem dizer o que quiserem, mas os resultados são estes. Em segundo lugar, estes resultados devem-se aos professores. Foram eles que ensinaram estes alunos. Em terceiro lugar, as escolas. E há, também, políticas a sustentar tudo isto.
O projeto Aqueduto identificou as variáveis que mais tinham explicado a progressão verificada: [por ordem, na hierarquia de importância dos factores] a) número significativo de escolas, de meios desfavorecidos, a melhorar os seus resultados (diminuindo o número dos low performers). Isto é, melhorámos com os melhores alunos, melhorámos com os alunos médios, mas melhorámos mais com os alunos menos bons (vindos de escolas com meios e estatuto sócio-económico mais desfavorecido). Estas escolas conseguiram mobilizar melhor para as aprendizagens. b) hoje o nível de escolaridade dos pais de hoje é bem maior do que em 2000. Há hoje um background familiar mais favorável para um melhor desempenho; c) formação inicial e formação pedagógica dos professores muito superiores do que em 2000 (a formação de base e formação posterior são hoje bem superiores); d) hoje temos mais professores motivados (para a aprendizagem) do que em 2000.
O principal problema que ainda temos hoje é a taxa de insucesso escolar, do qual resulta uma grande destruição de capital humano.

Maria do Carmo Seabra: todos os portugueses “estão contentíssimos com os resultados do PISA”. Os resultados melhoraram imenso nos últimos 16 anos. Os PISA começaram há cerca de 50 anos. A correlação dos resultados do PISA com o TIMMS é enorme (sempre superior a 90%). Portanto, são resultados muito credíveis e consistentes. O desempenho dos alunos portugueses efectivamente melhorou. Uma das grandes conquistas destes testes é possibilitar-nos observar a multiplicidade de experiências internacionais, e como podemos aprender através de uma diversidade de políticas à escala global, práticas, políticas, caminhos (que podem ter iguais bons resultados, mas serem diversos entre si) e experiências de que não tínhamos nota há 15 anos. Uma outra vantagem destes testes teve que ver com a discussão, que trouxeram (para a ribalta, para as primeiras páginas) dos temas educativos. O desempenho escolar, é incontroverso, está muito ligado ao ambiente sócio-económico no qual se nasce – para além do talento, da motivação, da ecologia institucional…
Há um estudo muito interessante com os resultados de alunos chineses na Austrália, comparados com os resultados dos alunos australianos, e ainda comparados com alunos que estudam na China que mostram a grande proximidade do resultado destes alunos chineses a viverem na Austrália com o dos seus compatriotas que realizaram os testes no país de origem e com uma grande diferença para os resultados dos alunos australianos, mostrando, assim, também, a grande importância da dimensão cultural presente nestes resultados.

Maria de Lurdes Rodrigues: a análise dos resultados dos testes são preciosos suportes para as decisões políticas; entre factores institucionais de melhoria de resultados temos, por exemplo, a presença do pré-escolar na formação de um jovem. Em 2013, o impacto de um ano de pré-escolar era de 34 pontos. Também se mede a influência que a possibilidade, para um jovem, de ter tido uma formação genérica, ou de ser encaminhado, de modo precoce, para uma determinada via (mais estrita) teve no seu desempenho. O pré-escolar, ainda assim, em Portugal impacta menos em crianças que tem um nível sócio-económico menos elevado, do que aquelas inseridas em famílias com melhores possibilidades (um reforço positivo em cima de um dado de partida positivo); por outro lado, o relatório do PISA aconselha percursos mais ricos em vários sentidos (para melhor performance do alunos e, portanto, sem um afunilamento precoce); atrasar a idade do encaminhamento; introduzir flexibilidade no sistema de ensino em todos os percursos; garantir o acesso ao ensino superior para todos os percursos. Nada está garantido. Nada garante que os bons resultados que estão a germinar não regridam se desinvestirmos da Educação.
“Preocupa-me muito que a crise tenha afectado muito as taxas de pré-escolar”.

Isabel Alçada: uma percentagem elevada de jovens de 15 anos, em Portugal, não atinge os níveis elementares em Matemática (24%) e em Leitura e Ciências (17%). Todos os governos em democracia colocaram na agenda a questão do sucesso escolar. Com medidas diferentes e com maior facilidade de consenso quando a luta política não esteve ao rubro. Entre os factores mais importantes para os resultados positivos: a) uma filosofia inclusiva na educação; é possível harmonizar inclusão com exigência. Expansão do pré-escolar (com Marçal Grilo). Outro dado importante: a qualificação dos professores. Reorganização da rede de escolas, com os Agrupamentos foi, igualmente, factor importante. Requalificação das escolas. Esforço de melhoria das condições físicas da escola, com rede de bibliotecas, acesso à internet e recursos digitais. Modelo de avaliação: houve tendência para avaliação formativa, com altos e baixos, avanços e recuos. A par do pré-escolar, muito importante o investimento no primeiro ciclo. Há uma alteração “incrível” no 1º ciclo. Deu um salto qualitativo apreciável. Precisamos, no entanto, de rever a questão da retenção. A prática da retenção, entre nós, é encarada como natural. Temos décadas de estudos a provar que tal prática não dá resultados. Devíamos transformar a retenção numa excepção e não em regra. A retenção não leva a uma melhoria no ano seguinte. O custo da retenção é da ordem dos 380 milhões de euros por ano. Devíamos ter um modelo de prevenção, com especialistas, para apoiar os professores, os alunos e as famílias (a que seriam alocados esses milhões de euros).

Nuno Crato: o que se passou nestes resultados é de uma grande magnitude. Nós no TIMMS, em Matemática, no 4º ano, passamos à frente da Finlândia. E no PISA estamos à frente da média da OCDE. Em 2015, tivemos os nossos melhores resultados de sempre. Resultados que se somam a uma redução acentuada da retenção – baixou expressivamente. No caso do 4º ano, a retenção em 2015 é de 2,2%. Melhorámos os resultados dos melhores e melhorámos os resultados que estavam em baixo na tabela. Mas também a taxa de abandono escolar (jovens entre os 18 e os 24 que nem acabaram o Secundário nem estão a trabalhar) melhorou muito. Em 1992, 50% de abandono escolar; em 2000, 43%; em 2011, 23%; em 2015, 13,7%. Conseguimos resultados impressionantes (como descreveu The Economist). Mas devemos ambicionar estar muito acima da média da OCDE. Olhar para os que estão no cimo da tabela e ver o que estão a fazer. Um aspecto importante foi a avaliação dos manuais (Isabel Alçada). A introdução de metas (Maria de Lurdes Rodrigues). A introdução de exames nacionais no 9ºano (David Justino). Exames no quarto ano (Nuno Crato). Divulgação dos resultados. Maior autonomia pedagógica. Maior atenção aos jovens com dificuldades. Melhor organização dos exames do 12º ano (Marçal Grilo).

Os estudantes que fizeram os testes foram 7500/8000. “O país hoje percebeu a importância da avaliação e da exigência. Esta cultura está interiorizada pela sociedade e há 20 anos não estava. A cultura da exigência não tem a ver com testes, mas com a exigência de cada um consigo próprio” (Marçal Grilo). Educadores de infância, pais, sobretudo mães, coordenadores de turma, diretores de escola, media são também agentes nesta evolução positiva.

E o papel dos municípios? Há um conjunto de parceiros do círculo de contributos que não podem ser colocados de fora, mas é algo dificilmente mensurável (David Justino). Mas, por exemplo, a modernização do parque escolar foi importante.
As variáveis do abandono escolar estão ligadas ao mercado de trabalho; não tem a ver, necessariamente, com as políticas de educação.

Para mim, ficou claro que o tema da avaliação dos professores terminou. Não há condições para o colocar em cima da mesa. O meu desafio intelectual passa por descobri formas de melhorar o recrutamento, melhorar a qualidade do exercício profissional dos professores, com outros instrumentos que não o da avaliação. Provavelmente, fui uma das responsáveis por este instrumento hoje não poder ser utilizado (Maria de Lurdes Rodrigues)

[conferência da FFMS, Fevereiro 2017]

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